22 de maio de 2026

Mar-a-lago ameaça a moeda reserva, por Manfred Back

Após os arautos econômicos da Trump Tower divulgarem ideias excêntricas, o ouro, como outros metais no mercado futuro, entrou em rota de alta
Fort Knox

Mar-a-lago ameaça a moeda reserva

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por Manfred Back

“Os idiotas da objetividade e os entendidos não vão além dos fatos concretos”. (Nelson Rodrigues)

A desconfiança no dinheiro pode provocar movimentos irracionais e bruscos. A desconfiança na moeda reserva, o dólar, deixa o fiel sem fé, mata a crença no valor do dinheiro. Destrói o mito da supremacia do dólar. É totalmente psicológico, porque a moeda fiduciária depende da confiança da sociedade no valor do vil papel moeda. No caso dólar, o efeito é devastador, porque é o porto seguro de qualquer crise ou desconfiança! E se: “God we not trust”,“Dólar we no trust”, “Treasuries we no trust”. Vou acreditar em que? O dinheiro fica ansioso e nervoso, e procura as referências no subconsciente!

E aí todo o metal que reluz é ouro! E apego as commodities metálicas, algo que existe, e supostamente tem valor! Sei quanto pesa, quanto vale, em dólares! Que coisa, mesmo assim, meço e comparo a moeda reserva! Ironia ou contradição? Nas últimas semanas, após os arautos econômicos da Trump Tower, divulgarem em bom som ideias excêntricas, o ouro como outros metais no mercado futuro entrou em trajetória de alta, culminado com a ressuscitação do mercado corporativo de títulos chineses, de empresas de inteligência artificial, e pasmem, até o setor imobiliário!

“As empresas chinesas estão aproveitando a janela de interesse, levantando US$ 15 bilhões até agora este ano no mercado de bônus em dólares, o maior valor para o período desde 2022. Até mesmo as empresas do setor imobiliário estão mostrando sinais de recuperação. O Beijing Capital Group está considerando levantar até US$ 500 milhões em dívida, poucas semanas depois de captar US$ 450 milhões de investidores famintos por dívidas em dólares”. (Bloomberg)

Os fiéis buscam o porto seguro na tormenta, a fuga do dólar leva ao ouro, o metal reluzente que passa a sensação de segurança e de valor estável! Pode ser o começo do fim da era da moeda fiduciária, e a volta triunfal do padrão-ouro, com liquidez diária no mercado futuro, o ouro monetário. Como no filme de volta para o futuro, o ouro pode voltar aos seus dias de glória, como lastro. É uma suposição, não uma afirmação. O frenesi da grana procurando porto seguro pode ser momentâneo ou não. Qual a causa de tal movimento? O tratado no spa de Mar-a-lago! Não confunda com Bretton Woods, que fixou o dólar em 35 onças de ouro. A onça aqui, está mais para o felino das selvas do que medida de peso do ouro. Alguns economistas malucos da equipe de Trump, chamam de Bretton Woods III. Tratado pressupõe de negociação e acordo entre as partes.

“Um espectro ronda os Estados Unidos — o espectro do Império Romano. Não há filme, livro ou série de TV que não revisite Roma, sua ascensão e queda, como lição de aviso”. (João Pereira Coutinho)

First: Como enfraquecer o dólar sem perder a hegemonia?

“Comece com as taxas de juros. Uma intervenção de bancos centrais estrangeiros para enfraquecer a taxa de câmbio do dólar implicaria uma redução em suas participações em títulos do Tesouro dos EUA. Mas a queda na demanda por títulos do Tesouro levaria à queda dos preços e ao aumento das taxas de juros. Pense desta forma: se a balança comercial melhora quando a economia está em plena capacidade, componentes da demanda doméstica (consumo das famílias e investimento empresarial) têm que ser eliminados”. (Jeffrey Frankel)

Second: Proposta de destronar o dólar? É vero? Criar uma moeda cripto com lastro em ouro e outros metais? É vero? Seria a volta da moeda com lastro? Loucura, devaneio?

Mas faltava o must, o bolo da cereja! Qual? Proposta de calote disfarçado da dívida americana! E belisca, nas terras do Uncle Sam! Não é El Salvador? No,my fried,this is not América!

Palavras do apóstolo Stephen Miran, presidente do conselho econômico da casa branca, segundo Jeffrey Frankel: Ele propõe fazer com que bancos centrais estrangeiros mantenham títulos dos EUA de 100 anos sem pagamentos de cupom em vez dos T-bills que eles agora mantêm. (Isso equivaleria a reestruturar a dívida dos EUA, o que é equivalente a um calote.). Disposições alternativas – ou adicionais – incluem a introdução de “taxas de usuário” cobradas de bancos centrais estrangeiros que detêm dívida dos EUA e um imposto mais geral sobre investimento estrangeiro nos EUA (que lembra o imposto Tobin sobre transações cambiais de curto prazo que foi proposto na década de 1970). De volta para o futuro, os tempos gloriosos da era vitoriana!

“O coercitivo Acordo de Mar-a-Lago – que remonta à demanda do Império Romano por tributos dos territórios ocupados por suas legiões – só aceleraria o declínio da América. A marca Mar-a-Lago é melhor reservada para torneios de golfe e casamentos rococó”. (Jeffrey Frankel)

Ao som de Bob Marley, get up and stand up, nosso discípulo de Robert Lucas acordou feliz, deve ser efeito da cannabis econométrica. Mas ao chegar em sua sala na rua 37, e olhar os terminais dos mercados globais, caiu na real. Commodities metálicas subindo, ações chinesas em alta, queda na bolsa americana, desvalorização do dólar, baixa demanda dos títulos longos americanos. Pensou, que é uma coisa rara, nesses racionais, é o fim do sistema. Qual? De sua formação, entrou em pânico, no meu mundo, a moeda é fiduciária, o dólar é hegemônico, e os treasuries o que há de mais seguro para proteger o dinheiro!

“Não há garantia de que o status do dólar como moeda de reserva mundial vá durar para sempre, escreve o CEO da BlackRock, Larry Fink, ao alertar que os Estados Unidos precisam controlar o seu endividamento”.

Assim como a mística que o gato tem sete vidas, o ouro renasce, a luz das trombadas de Mar-a-Lago! O ouro volta a resplandecer como uma força que talvez nunca teve, a ilusão da massa de confiar no valor de um metal.

“A liberdade só pode surgir, mesmo que à distância, se houver a possibilidade da dúvida, da incerteza e da esperança. É o contrário do mundo dos covardes e dos cínicos, mas também dos inimigos do debate, militantes da reprodução de uma nova ordem de certezas”. (Bernardo de Carvalho)

Manfred Back – Economista PUC-SP, mestrado FGV-SP. Ex-Trader (BOVESPA), ex-gestor de carteira e fundo de ações. Professor de economia e mercado de capitais.

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Manfred Back

Manfred Back bacharel em Ciências Econômicas pela PUC-SP, mestre em Administração Pública pela FGV-SP. Atuou como Trader na bolsa de valores (BOVESPA), como operador na mesa de operação de renda variável e futuros, como economista-chefe, como gestor de carteira e fundo de ações. Professor de microeconomia, macroeconomia, mercado de capitais e derivativos de graduação, pós-graduação e de ensino fundamental.

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  1. Rui Ribeiro

    2 de abril de 2025 1:02 pm

    Ouro era marca de infâmia na Ilha de Utopia:

    “Como ocorre com outros povos, Os Utopienses também recolhem pérolas ao longo das praias, e diamantes e pedras preciosas em certos rochedos, mas não saem com o propósito de procurá-los. No entanto, se por acaso os encontram, dão lhes polimento e dão às crianças que, porquanto são ainda pequenas, podem se orgulhar e se satisfazer com esses ornamentos. Assim que crescem, percebem que só os pequenos se divertem com essas bagatelas, abandonando-as em seguida. Seus pais não precisam chamar sua atenção; as crianças, envergonhadas, simplesmente livram-se dessas ninharias como algo que já não lhes é mais adequado, do mesmo modo que as nossas crianças, ao crescerem, desinteressam se pelos chocalhos, bolas de gude e bonecas.

    Costumes diferentes, percepções diferentes: jamais havia visto esse adágio tão bem ilustrado como por ocasião da visita dos embaixadores anemolianos” a Amaurota, quando eu lá residia. Como vinham tratar de negócios muito importantes, três cidadãos de cada cidade de Utopia haviam sido previamente convocados pelo senado. Os embaixadores das nações vizinhas, que já haviam estado em Utopia conheciam bem os costumes dos utopienses, e sabiam da pouca importância que davam a roupas luxuosas e que a seda era desprezada enquanto o ouro era uma marca de infâmia. Por essa razão, quando vinham à ilha suas roupas eram sempre muito modestas. Os anemolianos, contudo, que viviam num lugar muito mais distante da ilha de Utopia, tinham tido muito menos contato com ela. Tendo apenas ouvido dizer que seus habitantes usavam roupas iguais e muito simples, concluíram que certamente isso ocorria por não possuírem outras melhores. Como eram mais vaidosos do que sábios, os anemolianos decidiram vestir-se com um esplendor digno dos deuses, julgando serem capazes de deslumbrar os pobres utopienses com o brilho de suas vestimentas.

    Assim, os três embaixadores entraram triunfalmente seguidos de cem criados, todos trajando roupas multicores de seda. Como eram nobres em sua terra, os embaixadores trajavam roupas bordadas em ouro, com pesadas correntes de ouro no pescoço, argolas de ouro nas orelhas e nos dedos, e chapéus enfeitados com correntes onde cintilavam pérolas e pedras preciosas. Enfim, estavam ornados com tudo o que, em Utopia, era usado para castigar os escravos, envergonhar os malfeitores ou servir de brinquedo para as crianças.

    Valia a pena ver como os embaixadores se pavoneavam, comparando a suntuosidade de suas roupas aos trajes simples dos utopienses, que se aglomeravam nas ruas para vê-los passar. Mas era também divertido ver o quanto haviam ficado longe de seu intento e quão distante estavam de conseguir o respeito que desejavam e esperavam obter. Com exceção de uns poucos que, por alguma razão especial, já haviam visitado outros países, os utopienses não viam naquela suntuosidade, senão um sinal de vergonha e desgraça. Saudavam o criado mais humilde do séquito pensando ser seu senhor e tomavam os embaixadores por escravos, não lhes prestando nenhuma reverência porque, vendo-os usar correntes de ouro, cuidavam que fossem escravos. Deveríeis ver as crianças, que já tinham abandonado as pérolas e as pedras preciosas, vendo os chapéus cheios de jóias dos embaixadores, puxar de lado as mães para dizer lhes: “Mãe, olha esse grande palerma que ainda usa pérolas e pedrarias, como se fosse um bebê!” E a mãe, séria, a responder-lhe: “Cala-te, menino, deve ser algum bufão dos embaixadores”. – Thomas Morus

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