Michael Moore e a falência da cidade de Detroit

Sugerido por Assis Ribeiro

Do Terra Magazine

O documentário “Roger and Me” e as falências das cidades de Flint e Detroit

André Setaro

O Professor Jorge Vital de Brito Moreira, de Wisconsin, apesar de lecionar por muitos anos nos Estados Unidos, é baiano da Ilha de Maré. Enviou-me o texto que vai abaixo, e que resolvi publicá-lo aqui mesmo no meu blog do Terra Magazine, pela atualidade de seu relato e, também e principalmente, por se referir ao filme Roger and Me, do polêmico documentarista Michael Moore. Moreira se graduou em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia e depois em Literatura nos EUA onde recebeu o título de Doutor (Ph.d) com uma tese elogiada sobre o grande escritor Antonio Callado.

Roger and Me (1989), o primeiro filme documentário de longa metragem do diretor Michael Moore,  mostra o próprio diretor Moore lutando para entrevistar a Roger Smith, o presidente da General Motors: o homem responsável pelo fechamento de onze fabricas de carros na cidade de Flint, Michigan, que deixou 30.000 pessoas sem trabalho e grandes partes da cidade em ruinas.

Roger and Me exibe uma história que se organiza  na forma de uma viagem (ou viagens) de “um cavaleiro andante” (o diretor, Michael Moore) em busca de conquistar uma meta ou um objetivo: convencer a Roger Smith a visitar a cidade de Flint para ver o resultado da sua decisão de fechar as fabricas de carros. Durante o percurso, o diretor encontra uma série de obstáculos que tratará de vencer para conseguir seu objetivo.

Nas viagens de Moore através de Roger and Me, o diretor não só denuncia as terríveis consequências da política destruidora das multinacionais automobilísticas para as  cidades como Flint,  como também antecipa, com grande clarividência e precisão,  o que hoje é a mais completa realidade: o colapso, a falência e a destruição de um crescente numero de cidades dos EUA, em particular a cidade de Detroit, como Flint, no estado de Michigan.

O atual e surpreendente pedido de falência da cidade de Detroit (que já foi o símbolo e o centro mundial da indústria automobilística) é mais um exemplo desta terrível realidade  que espera  os estadunidenses  dentro do neoliberalismo.

O documentário de Moore, de alguma maneira, me lembrou que nos antigos filmes de cowboy (Western) que assistia quando menino, era frequente presenciar uma narrativa ficcional onde o herói, montado a cavalo, fazia uma viagem para conquistar uma meta: expulsar os inimigos (os bandidos) de uma cidade sitiada. E como podíamos antecipar naquele tempo, os pistoleiros bandidos eram expulsos da região ou da cidade pelo bom pistoleiro (o herói, o artista ou o mocinho). A regra geral era que no final do filme (happy ending) o expectador saísse radiante da sala de cinema convencido de que o bem vence o mal, o certo vence o errado, a legalidade vence a ilegalidade e a justiça vence a injustiça. Naqueles filmes, os bandidos sempre eram derrotados pelo pistoleiro solitário, o verdadeiro herói dos filmes de cowboy (caubói).

Apesar das semelhanças, nos modernos filmes do diretor Michael Moore que tenho assistido, a existência real de indivíduos reais mostrada na tela do cinema, contradiz completamente a nossa antiga e acostumada  ficção  cinematográfica feita de ideologia,  desejo e  consolo emocional. “O bem vence a mal” tinha/tem sido, por longíssimo tempo, o ideologema fundamental da nossa velha ficção (tanto dos filmes de cowboys como das comedias românticas); porém nos  atuais documentários de Michael Moore a oposição “bondade/ maldade realiza um papel diferente e contrário: os bandidos reais estão no poder,  controlam a cidade (ou a região) porém os bons mocinhos (os bons pistoleiros de antigamente) e os injustiçados permanecem impotentes para expulsa-los ou mudar a precária situação existencial dos habitantes do local.

Assim, o primeiro filme de Michael Moore estabelece uma regra geral que será observada nos  documentários posteriores: as entrevistas de Moore são realizadas predominantemente nos dois lados da luta de classes – entre os membros da classe dominante e entre as vitimas  do sistema neoliberal. Assim, Roger and Me mostra brilhantemente como a poderosa classe dominante dos EUA (proprietária dos meios de produção capitalista) é a principal responsável pelo colapso, decadência e destruição da cidade de Flint (a cidade natal de Moore) que foi arruinada pelos patrões da indústria automobilística. Em poucas palavras, ao contrario dos filmes dos contos de fadas ou dos filmes de cowboy, nos filmes de Moore, os bandidos (ou vilões) continuam no poder repetindo as mesmas barbaridades de sempre e não passa nada.

O documentário Roger and Me recebeu entre 1989 e 1990, 11 prêmios de cinema. Estas premiações transformaram o jovem diretor num personagem famoso: Michael Moore passou a ser reconhecido como um notável diretor de cinema e como um  crítico feroz  da visão neoliberal da globalização capitalista. Pessoalmente, eu acreditava que Michael Moore estava recebendo um reconhecimento merecido pois Roger and Me mostrava (de modo contundente e irrefutável) a miserável condição de vida da população da cidade de Flint no  capitalismo neoliberal, depois que a General Motors fechou suas fábricas ali e abriu novas fábricas no México, onde a mão de obra era mais barata.

Apesar da conquista dos prêmios pelo documentário e um amplo reconhecimento, sigo pensando que  o filmeRoger and Me ainda não recebeu  todo o reconhecimento que realmente merece. Darei em seguida algumas informações e alguns dados que servirão como base e referencia aos meus comentários sobre o filme. Roger and Me e a atual  falência da cidade de Detroit.

“O pedido de falência desencadeou o que poderia ser uma prolongada batalha legal contra milhares de empregados atuais e antigos da cidade que tem direito a pensões e benefícios médicos. O Governador de Michigan colocou o destino da cidade nas mãos de um “Gerente de Emergência”: um funcionário não eleito que disse que o corte das pensões dos trabalhadores será de vital importância para solucionar o problema financeiro da cidade.”“Ainda que a cidade de Detroit apresente o maior caso de falência municipal da história dos EUA, não é um caso único nem isolado. Segundo o economista e professor Richard Wolff: “A falência de Detroit é um exemplo do fracasso de um sistema econômico” (“Detroit’s bankruptcy is an example of a failed economic system”).”

O prof. Wolff  afirma que “Há tantas outras cidades nos EUA na condição de Detroit, que se os tribunais decidirem que é legal retirar a pensão que foi prometida e pagar a esses trabalhadores, estamos diante do [a legalização] roubo. Esta é uma luta de classes clara, da redistribuição da renda a partir da base para o topo.”

Dado as informações acima,  regressarei  a Roger and Me para destacar algumas das notáveis virtualidades do documentário pois o modo novo e dinâmico que Michael Moore encontrou para trabalhar a relação forma/conteúdo é umas das características que atraiu bastante a minha atenção para ele . Ainda que o documentário trate de apresentar a historia objetiva da desgraça que se abateu sobre a cidade de Flint, ela é mostrada, no inicio, na forma de uma autobiografia familiar que se amplifica até se transformar numa espécie de historia da cidade. Aqui a relação objetividade/subjetividade é expressa através de entrevistas que tem a perspectiva e a narração do diretor. Assim, logo no inicio do filme, Moore apresenta a si mesmo e sua família por meio dos interessantes filmes caseiros de oito milímetros que se encontravam arquivados. Durante a mostra destes filmes, Moore se define como “uma espécie de criança estranha”,  descendente de Irlandeses; um católico de classe média, filho de um empregado de montagem das AC velas de ignição da General Motors (GM).

Moore também destaca  a importância da GM  para a antiga alta taxa de emprego da população da cidade reconhecendo que  esta multinacional era o centro econômico e social fundamental da cidade de Flint. Nesta etapa, o filme também  ressalta que foi na cidade de Flint onde ocorreu a greve de Flint Sit-Down, resultando no nascimento da United Auto Workers Union.

Em seguida  Moore revela que de jovem seus heróis eram os filhos nativos de Flint que haviam escapado da vida de empregado das fábricas da GM como os membros da banda de rock “Grand Funk Railroad” entre outros e que seu sonho era evitar a triste tradição da vida familiar e da maioria das pessoas de Flint: o trabalho  nas fábricas de automóveis. Depois de morar e trabalhar em Califórnia, ele retorna a sua cidade natal. Quando chega,  a General Motors anuncia as demissões de milhares de trabalhadores da indústria automobilística pois a planta da multinacional está mudando-se para o México onde obterá  trabalho mais barato. A GM faz este anúncio, mesmo que a empresa (de acordo a Moore) esteja tendo lucros recordes.

Não continuarei descrevendo o filme mas aproveitarei a oportunidade  para listar algumas das sequencias de cenas de situações que, na minha opinião, fazem do documentário Roger and Me, um trabalho original, didático e divertido. 

Para tratar de conseguir entrevistar pessoalmente o presidente da GM Roger B. Smith e confronta-lo a respeito do fechamento das fábricas de automóveis de Flint,  Moore mostra:

–          O impacto emocional dos fechamentos de fábricas nos amigos e trabalhadores da GM em Flint nas suas próprias palavras.

–          A exibição das entrevistas com artistas e celebridades como Pat Boone, Ronald Reagan, expondo a sua demagogia e os seus inúteis conselhos para resolver o desemprego na cidade.

–          O trabalho do xerife-adjunto Fred Ross (ex-trabalhador da GM) realizando os despejos das famílias que não conseguem pagar o aluguel ou as hipotecas de suas casas ou apartamentos.

–          A procura de Roger Smith na sede da GM em Detroit, no Grosse Pointe Yacht Club e no Detroit Athletic Club, sendo sempre bloqueado por funcionários e seguranças do presidente.

–          A ridícula  presença do pastor estadunidense, Robert Schuller, que foi pago pelo prefeito  para pregar  esperança  e consolo aos desempregados da cidade.

–          Os disfarces que tem de adotar: como um jornalista de TV ora como acionista da GM.

Vemos também no documentário, uma inteligente montagem dos escombros urbanos da decadência de Flint, intercalados com as manchetes de jornal sobre as crescentes demissões e sobre os moradores que teem que abandonar a cidade, além de nos apresentar uma notável reportagem que informa que a população de ratos da cidade já ultrapassaram a população humana.

Moore também dirige sua câmera para entrevistar os moradores (dos subúrbios mais afluentes) que exibem atitudes classistas e estúpidas sobre as dificuldades econômicas da cidade. Num campo de golfe, uma senhora rica, responde que o desemprego na cidade  é  culpa dos trabalhadores: “essa gente não quer trabalhar”.

O presidente Ronald Reagan visita a cidade e durante uma reunião num restaurante sugere que os ex trabalhadores da indústria automobilística abandonem a cidade e busquem encontrar  um novo emprego noutro lugar. Ironicamente, enquanto Reagan estava reunido, o dinheiro do restaurante foi roubado da caixa registradora  por um operário desempregado.

Moore com sua câmara faz entrevistas com os moradores de Flint, que estão sofrendo as piores consequências econômicas das demissões  e mostra  a uma jovem mulher que para sobreviver vende coelhos como animais de estimação e carne para comer. Neste ponto,  a jovem mata um coelho batendo  com um tubo de chumbo na cabeça do animal frente da câmera.

Enquanto o filme avança, a taxa de criminalidade (com tiroteios e assassinatos) vai se tornando lugar comum na cidade de Flint. O crime torna-se tão comum que, quando o programa do canal de TV, ABC News, “Nightline”, tenta fazer uma reportagem ao vivo sobre o fechamento das fábricas, alguém rouba a caminhoneta (Van) da rede de TV (junto aos cabos)  e o canal é forçado a parar a transmissão. Viver em Flint torna-se tão desesperador, que a revista Money nomeia a cidade como o pior lugar para se viver na América. Os moradores reagem com indignação e num palco realizam um comício onde edições da revista são queimadas.

No clímax do filme, o diretor Michael Moore finalmente confronta, numa breve entrevista, ao presidente da GM, Roger Smith, logo depois que ele acabou de ler uma mensagem anual do Natal de 1988. Abordando-o a uma certa distância (pois dois guarda-costas o impedem de se aproximar de Mister Smith), Moore solicita que o presidente Smith visite a cidade de Flint para ver a situação das famílias dos trabalhadores da GM que estão sendo despejados  de suas casas um dia antes do Natal

Como podíamos esperar, Roger B. Smith recusa o convite e diz que sente muito pela situação dessas pessoas, mas que ele não tem nada a ver com isso. Smith continua mentindo ao dizer que ele tem certeza que a General Motors não vai expulsar os trabalhadores de suas casas.

Abatido pela frustação e  pelo fracasso de não ter podido trazer Roger Smith  para ver a favela dominada pelo crime que Flint  se tornou, Moore proclama: “à medida que o final do século 20 se aproxima, os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres  … e isto é realmente o início de uma nova era.” Após os créditos finais, o filme Roger and Me mostra a mensagem: “Este filme não pode ser exibido dentro da cidade de Flint porque  todos os cinemas foram fechados.”

Pé de Páginas.A mídia coorporativa de EUA (New York Times, Washington Post, Miami  Herald, Chicago,  Fox, CBS, NBS) é tendenciosa e prefere noticiar escandalosamente as catástrofes naturais pois as enchentes, os furações e os ciclones permitem culpar a natureza pelos danos causados.A mesma mídia coorporativa evita (ou se nega a) dar informações detalhadas sobre as catástrofes humanas, pois elas são direta (ou indiretamente) produzidas pelo sistema capitalista e por sua classe dirigente, e, consequentemente este tipo de noticias  permite que leitor estabeleça a responsabilidade do governo neoliberal  nas catástrofes sociais.  É por essa razão que a mídia coorporativa procura evitar ou esconder  as notícias sobre a gigantesca falência da cidade de Detroit. Ou quando publica as noticias, ela se posiciona desde o ponto de vista de  um jornalista (ou repórter) que pertence a classe média ou média alta ou que está profundamente ligado a classe dominante e aos seus interesses.É difícil ler as informações sobre a falência de Detroit nos principais jornais ou nos canais de TV dos EUA..É surpreendente observar que quando a mídia menciona a falência da cidade de Detroit é para culpar os trabalhadores, o socialismo e o comunismo.E quando algum analista desta mídia se refere a Michael Moore ao documentário Roger and Me é simplesmente para demonizar ou difamar seu diretor.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome