Os ensejos da fortaleza bancária brasileira, por Marlon Cecilio de Souza

Poucas instituições dominam o mercado brasileiro, o que lhes confere um poder considerável sobre a formação dos spreads bancários

Blog: Democracia e Economia  – Desenvolvimento, Finanças e Política

Os ensejos da fortaleza bancária brasileira

por Marlon Cecilio de Souza

Ainda que as instituições financeiras brasileiras estejam expostas a diversos fatores significativos inesperados que podem impactar seus resultados, como foi o caso do “efeito Americanas” que impactou as despesas com provisões para devedores duvidosos nos balanços de alguns bancos, a alta lucratividade do setor bancário brasileiro parece ser algo “intocável”, tamanha consistência e alto volume apresentado ao longo dos últimos anos. Seguindo este prisma, recentemente, o vice de gestão financeira do Banco do Brasil (BB), informou, em entrevista ao Valor, que o BB está a caminho de entregar o maior lucro anual de sua história. Vale ressaltar que o banco já apresentou o melhor resultado entre os principais bancos no Brasil que, inclusive, mais que compensou as perdas registradas pelo Bradesco e Santander, impulsionando um avanço consolidado de 6,3% em relação ao ano anterior.

Em uma publicação feita no ano passado pela Economatica, mostrou que dos 5 maiores bancos comerciais: BB, Itaú, Bradesco, Santander e Caixa Econômica Federal (que juntos detêm cerca de 80% de todo o mercado de crédito e 75% dos depósitos totais, segundo o Banco Central do Brasil), os 4 primeiros constam na lista dos 10 bancos com maior rentabilidade em relação ao patrimônio líquido do mundo, no período entre 2010 e 2021.

Os bancos brasileiros têm conseguido manter altas lucratividades devido a uma combinação de fatores que caracterizam o sistema financeiro do país. Um dos principais motivos é a histórica política de taxas de juros elevadas adotada no Brasil. Ao longo de muitos anos (inclusive neste momento), o país manteve uma das maiores taxas de juros do mundo, inicialmente com o objetivo de controlar a inflação. No entanto, essa política também resultou em margens substanciais para os bancos, que puderam emprestar as taxas elevadas, aumentando significativamente sua rentabilidade, apesar do efeito dúbio envolvendo o aumento de risco de ativos de longo prazo.

A concentração do sistema bancário é outro fator relevante. Poucas instituições dominam o mercado brasileiro, o que lhes confere um poder considerável sobre a formação dos spreads bancários, que representam a diferença entre as taxas de captação e empréstimo. Essa concentração permite que os bancos mantenham margens de lucro robustas, já que têm mais controle sobre a definição de suas próprias taxas.

O tamanho considerável da população brasileira e o crescimento da classe média também desempenham um papel fundamental. O vasto mercado consumidor oferece uma base sólida de clientes, resultando em um alto volume de negócios e receitas constantes para os bancos.

Em 2023, o mundo voltou a se preocupar com a possibilidade de uma crise bancária global, pois em uma única semana, em março deste ano, presenciamos a quebra de dois bancos nos Estados Unidos e a fuga bilionária de recursos que quase quebrou o gigante Credit Suisse. Diferentemente da crise do subprime que, resumidamente, foi uma crise de crédito, no caso dos bancos norte-americanos Signature Bank e o Silicon Valley Bank, o “problema” foram os juros, pois a maior parte dos seus recursos estava aplicada em títulos do tesouro norte-americano de médio e longo prazo, quanto suas obrigações eram de curto prazo. Com as altas dos juros dos EUA, esses ativos tiveram uma queda em seus preços, mas isso não ocorreu com o passivo, gerando um descasamento de suas contas. Apesar da razão do descasamento no balanço ter sido os juros, muitos especialistas consideram como um grave erro de gestão vis-à-vis as expectativas macroeconômicas dos agentes.

A crise envolvendo os dois bancos nos EUA representou um dos eventos mais marcantes da história financeira dos Estados Unidos. Ambas as instituições enfrentaram duas das três maiores falências já registradas na história do país. Essa crise teve ramificações significativas, abalando a confiança no sistema financeiro. Com a falência desses bancos, houve um modesto efeito dominó, impactando o mercado de crédito e gerando desconfiança em outros setores da economia.

Ponto que é discutido em Hendricks et al. (2007). Nesse caso, os autores colocam que uma característica-chave do risco sistêmico é a transição de um ponto de equilíbrio estável positivo para outro ponto de equilíbrio estável, porém negativo, para a economia e sistema financeiro (leia-se um “equilíbrio com crise”). Associa-se a essa transição uma ampliação significativa do escopo das atividades realizadas pelas instituições financeiras e dos ativos nos quais elas investem. A liquidez de mercado passa ser um aspecto essencial do novo modus operandi dos sistemas financeiros e os choques sistêmicos passam a ser definidos como aqueles que afetam um ou mais pilares de funcionamento da liquidez de mercado: a negociação, a arbitragem e a atividade de market making. Diferentemente dos esquemas de corrida bancária, os choques sobre a liquidez de mercado podem se propagar mesmo quando não há interconexões entre as instituições – o preço dos ativos é que passa a ser central (KAMBHU, WEIDMAN e KRISHNAN, 2007, p. 23).

Na ocasião, o governo dos EUA -conjuntamente aos reguladores- teve uma rápida atuação  que culminou, também, na intervenção que levou ao fechamento das instituições. Além disso, o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) anunciou uma linha de empréstimo de emergência para fortalecer o sistema bancário.

Já o Credit Suisse enfrentou uma crise de confiança. Pois no relatório que divulgou o resultado do quarto trimestre de 2022, além do quinto prejuízo consecutivo, a empresa informou ter identificado “fragilidades materiais” significativas em seus últimos dois relatórios financeiros. O banco também sofreu as consequências do aperto monetário dos bancos centrais (juros), porém, a revelação das “fragilidades materiais” foi o estopim no histórico de má governança que inclui acusações de fraude, suspeitas de lavagem de dinheiro e até espionagem de executivos.

Em uma corrida contra o tempo, o governo da Suíça, capitaneado pelo Banco Central do país, fez com que o UBS comprasse o Credit Suisse por cerca de 30% do valor da ação cotada no pregão imediatamente anterior. A urgência da medida e o caminho com que ela tomou mostrou a extrema fragilidade que o Credit se encontrava. Além disso, ficou claro o enorme risco sistêmico que o banco representava para o sistema financeiro global, aos olhos dos policy makers.

Mas por quais razões os bancos brasileiros passaram quase ilesos pelas últimas crises globais? Um dos principais motivos pelos quais os bancos brasileiros não foram tão afetados por essa e outras crises (ou quase crises) bancárias globais é o fato de que o sistema financeiro do Brasil é altamente regulamentado e supervisionado pelo Banco Central do Brasil (BCB). Essa regulamentação rigorosa ajudou a evitar práticas arriscadas e especulativas que foram responsáveis por instabilidades em outros países. Além disso, ao longo do tempo o BCB vem implementando medidas preventivas, como a exigência de maiores reservas de capital e a limitação de empréstimos de alto risco, o que fortaleceu a solidez financeira dos bancos brasileiros.

Outro fator importante é que os bancos brasileiros têm uma exposição limitada a ativos tóxicos, como os títulos hipotecários subprime, que foram a principal causa da crise nos Estados Unidos em 2008. Os bancos brasileiros têm uma cultura de empréstimos mais conservadora, com uma maior ênfase em empréstimos para empresas e indivíduos com sólida capacidade de pagamento. Isso ajuda a evitar a exposição a ativos de baixa qualidade e a reduzir os riscos associados à crise.

Além disso, o sistema bancário brasileiro possui grande participação dos bancos estatais, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, que têm uma maior capacidade de resistir a choques financeiros devido ao apoio do governo. Esses bancos estatais desempenharam um papel fundamental na manutenção da estabilidade financeira durante a crise, fornecendo liquidez ao sistema bancário e evitando uma crise de confiança.

Em vista disso, apesar da necessária e forte regulação que poderia vir a frear eventuais estratégias de negócio agressivas por parte das instituições bancárias, os bancos preservam altos retornos através do ambiente interno propício. No entanto, é preciso que o BCB dê continuidade a agenda que visa fornecer um sistema financeiro mais plural, inclusivo e acessível. E conforme haja um avanço no aumento da competitividade e, consequentemente, uma eventual redução gradual das margens das grandes instituições, é preciso que os reguladores mantenham e até aprimorem as padronizações construídas de modo que o setor bancário brasileiro e, portanto, toda economia, não fiquem expostos a uma possibilidade de risco sistêmico.

Marlon Cecilio de Souza é economista, especialista em política e sociedade e pesquisador do Geep (IESP – UERJ). Atualmente trabalha como analista de risco de crédito no Bank of New Yok Mellon.

Fontes:

*https://valor.globo.com/financas/noticia/2023/11/09/bb-esta-a-caminho-de-entregar- maior-lucro-anual-de-sua-historia-diz-vice-de-gestao-financeira.ghtml

https://insight.economatica.com/bancos-brasileiros-perdem-a-lideranca-de-maior- rentabilidade-sobre patrimonio/

HENDRICKS, Darryll; KAMBHU, John; MOSSER, Patricia. Systemic risk and the financial system. Federal Reserve Bank of New York Economic Policy Review, v. 13, n. 2, p. 65-80, 2007.

KAMBHU, John et al. New directions for understanding systemic risk: a report on a conference cosponsored by the Federal Reserve Bank of New York and the National Academy of Sciences. Economic Policy Review, v. 13, n. Nov, 2007.

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