5 de junho de 2026

Sobre a obra de Oliveira Viana

Por Fernando G Trindade

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Comentário ao post “As teorias racialistas na construção da identidade nacional

Certo que Oliveira Viana era racista. 

Todavia como bem  ponderou a autora, embora lamentavelmente apenas no final do seu texto, O. Viana tem contribuições excelentes para entendermos o Brasil. (A propósito, praticamente todos os ‘brancos’ intelectuais não escapam de uma forma ou outra, do preconceito ‘racial’. Acabei de rele FEB de Celso Furtado e o injustamente esquecido livro de Nestor Duarte “A Ordem privada e a Organização nacional”. Nos dois há trechos que podem ser classificados como racistas, sem embargo da orientação progressista dois dois.

Quando estive na Universidade, faz 30 anos e até antes, quando lendo e estudando ciências humanas O. Viana era desqualificado, apontando-se o seu racismo, o seu elitismo e o fato de sua obra ter servido de apoio ideológico ao autoritarismo tanto na épca do Estado Novo como na época do regime militar, embora tenha falecido em 1951, se não me falha a memória.

Desse modo, só fui ler para valer um trabalho de O. Viana a uns 5 anos atrás e foi grande a minha surpresa. Primeiro pela imenso conhecimento do autor, o filho da mãe lia tudo. Em seu ultimo trabalho ‘Instituições Políticas Brasileiras’ de 1949 ( o que li e tenho ‘fichado’), cita até Florestan Fernandes, provavelmente uma das primeiras citações de Florestan.

Em pleno pós-guerra, no auge do prestígio da União Soviética, O. Viana nos diz que o socialismo fracassará ali, por incompatibilidade com a cultura russa. É brilhante a sua análise, independente de concordar-se ou não com ela.

Sobre o Brasil então, é impressionante a quantidade de ‘insights’ e dicas heurísticas que O. Viana nos dá, para compreender o Brasil de hoje (não estou falando do passado não).

Para terminar vai um trecho do próprio O. Viana, em Instituiçoes Políticas Brasileiras,que demonstra como ele tinha consciencia da alienação da intelectualidade brasileira de elite em relação ao Brasil e que não tenho dúvida, permanece atualíssimo: 

“No Brasil — dizia eu em 1921 — cultura significa expatriação intelectual. brasileiro, enquanto é analfabeto, raciocina corretamente e, mesmointeligentemente, utilizando o material de observações e experiências feitas sobre as coisas que estão ao derredor dele e ao alcance dos seus sentidos, e sempre revela em tudo este inalterável fundo de sensatez, que lhe vem da raça superior originária.  

Dêem-lhe, porém, instrução; façam-no aprender o francês; levem-no a ler a História dos Girondinos, de Lamartine, no original — e então já não é o mesmo. Fica ‘homem de idéias adiantadas’, cai numa espécie de êxtase e passa a peregrinar — em imaginação — por ‘todos os grandes centros da civilização e do progresso’. Se, acordando-o da hipnose, damos-lhe um safanão e desfechamos-lhe, à queima-roupa, uma pergunta concreta e precisa sobre as possibilidades da ‘siderurgia no Brasil’, ou sobre o ‘valor seletivo do zebu na pecuária do Triângulo’, ele nos olha atônito, num estado de imbecilização sonambúlica; ou então entra a dizer coisas disparatadas sobre rebanhos ingleses e australianos; ou desenvolve, um pouco confusamente, os primeiros capítulos de uma filosofia das aplicações do ferro na economia contemporânea. Sobre o nosso problema siderúrgico ou sobre o nosso problema pecuário, ele nada dirá, porque nada sabe, nem mesmo poderá saber, dado esse estado particular do seu espírito.”(2)

Justamente por isto é que eu cheguei à convicção de que os homens da elite intelectual do Brasil, não só os que possuem preparação jurídica, como os que possuem preparação literária científica — os chamados “homens de pensamento” (doutrinadores, propagandistas, idealistas, publicistas, etc.) — podem ser, mui legitimamente, dentro da grande categoria dos “homens marginais” (marginal man) da classificação de Park(3). Porque — como o tipo de Park — vivem todos eles entre duas “culturas”: uma — a do seu povo, que lhes forma o subconsciente coletivo(4); outra — a européia ou norte-americana, que lhes dá as idéias, as diretrizes do pensamento, os paradigmas constitucionais, os critérios do julgamento político(5).

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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