13 de junho de 2026

Para Stiglitz, guerra de Trump no Golfo inaugura nova era de instabilidade

Economista aponta erros estratégicos do presidente dos EUA, impacto duradouro sobre inflação e risco de colapso do sistema baseado em regras
Foto: @TheWhiteHouse - via fotospublicas.com

A guerra conduzida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã representa mais do que um episódio de escalada militar no Golfo Pérsico. Na avaliação do economista Joseph Stiglitz, trata-se de um erro estratégico de grandes proporções, com consequências profundas e duradouras para a economia global e para a própria ordem internacional.

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Em artigo publicado no Project Syndicate, Stiglitz descreve o conflito como parte de uma “tragédia de erros” — expressão que sintetiza sua crítica à condução política de Trump.

Para o economista, decisões dessa magnitude deveriam passar por mecanismos institucionais de controle e deliberação, mas a atual administração opera de forma impulsiva e concentrada, ignorando freios democráticos e ampliando o risco de decisões desastrosas.

O resultado imediato já é visível: uma nova guerra no Oriente Médio, com elevado custo humano e potencial de expansão regional. Mas, para Stiglitz, os efeitos mais graves são econômicos — e tendem a se prolongar mesmo após o fim do conflito.

Um dos principais impactos está nas cadeias globais de suprimento. A guerra já comprometeu infraestruturas críticas de energia, incluindo produção e transporte de petróleo e gás, cuja recuperação pode levar anos. Esse choque se soma a uma sequência recente de crises — como a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e a escalada tarifária promovida pelo próprio Trump — que já vinham fragilizando o funcionamento da economia global.

Nesse contexto, o economista alerta para o avanço de um cenário de estagflação: combinação de crescimento fraco com inflação elevada. Antes da volta de Trump à Casa Branca, a inflação dava sinais de desaceleração, ainda que acima das metas dos bancos centrais. No entanto, as políticas comerciais e, agora, o conflito no Golfo interromperam essa trajetória, reacendendo pressões inflacionárias em escala global.

O risco, segundo Stiglitz, é uma reação em cadeia. Diante da inflação persistente, bancos centrais podem interromper cortes de juros ou até voltar a elevá-los, encarecendo crédito e reduzindo o consumo. Isso tende a agravar uma crise já marcada pelo aumento do custo de vida, especialmente em países onde a população enfrenta dificuldades para acessar moradia, crédito e bens básicos.

No plano mais amplo, o economista aponta para um processo de desintegração da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. O sistema baseado em regras, cooperação e integração econômica estaria sendo progressivamente desmontado, substituído por um ambiente mais fragmentado, instável e sujeito a disputas geopolíticas.

Ainda assim, Stiglitz identifica uma possível consequência positiva no longo prazo: a aceleração da transição energética. A instabilidade associada aos combustíveis fósseis — agravada por conflitos e decisões políticas imprevisíveis — pode reforçar a adoção de fontes renováveis, consideradas mais seguras e previsíveis.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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