Jair é o “organizador” da rachadinha nos gabinetes do clã Bolsonaro: “está materializado”, diz Dal Piva ao GGN

"Queiroz está longe de ser o grande operador ou mesmo a peça central para conectar o presidente Jair Bolsonaro à história como um todo"

Reprodução

Jornal GGN – Uma investigação de quase três anos, realizada pela jornalista e colunista do portal UOL, Juliana Dal Piva, confirmou o grande nome por trás do esquema de corrupção batizado de “rachadinha” que envolve a família presidencial. Em entrevista ao Cai na Roda, na TV GGN [assista abaixo], Juliana afirmou categoricamente que Jair Bolsonaro (sem partido) é o precursor e “organizador” do esquema criminoso que rendeu uma investigação no Rio de Janeiro contra Flávio Bolsonaro. 

“Estou contanto no podcast [do UOL] o quanto que ele [Jair] coloca os filhos na política e como essa intenção de colocar os filhos na política tinha a ver com realmente criar um esquema de gabinetes. Ele é o grande organizador”, disse. 

Juliana narra toda a sua imersão no clã Bolsonaro no podcast “UOL Investiga: A vida secreta de Jair”, que tem quatro episódios e está disponível gratuitamente no Spotify. Na produção, a jornalista investigativa expõe que a rachadinha, na verdade, nunca foi um problema restrito a Flávio – o filho “zero um” e seu ex-assessor, Fabrício Queiroz.

“Na medida em que eu fui avançando nessa investigação, começaram a surgir fontes que me falavam em off: ‘vocês estão focados no Queiroz, ele é uma peça importante da história, mas está longe de ser o grande operador ou mesmo a única peça mais central para poder de algum jeito conectar o presidente Jair Bolsonaro à história como um todo’.” 

“Quem conhece e cobre o Palácio [do Planalto] sabe que ninguém faz nada sem o Bolsonaro autorizar. O presidente é extremamente centralizador, extremamente autoritário. Para fazer alguma coisa que contrarie o Bolsonaro, sem que ele saiba, a pessoa com certeza será demitida e ele já demitiu muita gente, vários ministros por contrariarem até o seu pensamento – às vezes não é nem uma ação, é só o pensamento. Então o esquema funcionava com toda a organização e participação dele”, pontuou. 

Para Juliana, antes de toda sua apuração vir à tona, o envolvimento de Jair ainda não estava claro. “Antes ficava muito na impressão, mas agora tem provas, documentos, testemunhas, áudios. Agora é muito claro, não é mais um achismo, é substancial e está materializado”, disparou. 

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Uma importante peça do quebra-cabeça: Ana Cristina Valle, ex-esposa de Jair

A participação de Bolsonaro no esquema foi confirmada a partir de áudios obtidos com exclusividade por Juliana Dal Piva, que envolvem os irmãos de Ana Cristina Siqueira Valle, a ex-mulher de Jair e mãe do seu quarto filho, Renan Bolsonaro. De acordo com reportagens publicadas por Juliana e seus colegas, desde sua passagem pelo jornal O Globo, Ana Cristina seria uma espécie de antecessora de Fabrício Queiroz no esquema. Ela inseriu inúmeros familiares nos gabinetes do clã Bolsonaro.

Em uma das gravações em posse de Juliana, a ex-cunhada de Bolsonaro, Andrea Siqueira Valle, irmã de Ana Cristina, diz que seu irmão André foi demitido do gabinete de Jair porque se recusou a devolver a maior parte do salário. 

“Parte da separação dele [Jair] com a Ana Cristina é também parte central para entender o esquema que envolve os crimes”, contou Juliana. A ex-esposa ficou com cerca de um terço do patrimônio do casal.

Foi neste limbo da separação que a jornalista cavou e encontrou mais contradições sobre as posturas moralistas do chefe do Executivo. “O presidente se elegeu com um discurso moralista de defesa da família, do que ele acha que tem que ser a família, de uma ideia de como essa família tem que se comportar e um aspecto que me chama muita atenção é: ele casou três vezes, teve separações conturbadas, tem o fato dele não ter reconhecido o Jair Renan quando ele nasceu, de ter feito um exame de DNA – a primeira certidão do Jair Renan não tem o nome do pai, como milhões de brasileiros que não têm o nome do pai na certidão de nascimento, o que considero uma coisa muito dura, de uma pessoa ter um pai que não reconheceu de imediato”, lembrou. 

Juliana também contou sobre como o trato desse tipo de assunto é um desafio. “Essa é uma questão delicada, tem que ser tratada com respeito, porque é uma questão privada de família, mas que também revela muito sobre uma pessoa com um discurso moralista para o seu eleitorado e para sua base”. 

A jornalista também falou sobre os desafios da apuração e como todas as pessoas ligadas a estes fatos têm medo de falar sobre o assunto, sabendo ainda sobre a suposta ligação dos Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro.

Assista a entrevista na íntegra:

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