– Edson, efetivamente não sei onde erramos. Sempre fui um homem bom, que só faz coisas boas. Admito que tinha uma certa resistência em admitir erros, mas é porque nunca erro. Mas alguma coisa falhou e eu não sei onde nem por quê.  Se fiz tudo certo, o que deu errado?    

– Eu também tenho essa sensação, Roberto. Sempre tive vida regrada, defendendo os pobres, defendendo as lideranças rurais e era até feliz. Você não imagina minha emoção quando, no evento da PUC São Paulo, os organizadores me deixaram falar em homenagem à candidata a presidente. Provei ali ser um bom estrategista. Depois, não sei, deu um tilt e perdi o rumo, tentando proteger o nosso amigo Sérgio.

– Edson, para com essa auto humilhação: nem eu nem você perdemos o rumo. Quem perdeu o rumo foram nossos críticos, não entendendo nossa grandeza. Quando o exército huno chegou, comandado pelo grande Sérgio, o Atila de Curitiba, percebi que o Brasil estava pronto para absorver meus ensinamentos. Em certa noite, no meu quarto, recebi a visita de Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e San Thiago Dantas que me disseram: “Vai, Roberto, ser droite na vida, porque os droites mudarão o mundo”. J

– Até o San Thiago, Roberto?

_ Juro que eram eles. E eu aceitei o desafio de me tornar o Moisés capaz de rachar ao meio o mar dos vermelhos e esculpir os 12 mandamentos do liberalismo em mármore de Carrara. Porque sou de família simples, porém muito sofisticada. Jamais aceitaria mármore do Espírito Santo, que é coisa de pobre sem sofisticação.

– Sei disso, Roberto. Enquanto eu ficava no meu canto, seguindo minha missão, você desfraldava bandeiras na comissão de frente.

– Foi assim, Edson. Me inspirei em grandes pensadores do liberalismo, como Flávio Rocha. Reli todas as orelhas de livros de brasilianistas e descobri a palavra “empoderamento”, que passei a usar com muita graça. Lembra quando escrevi um artigo inteiro para uma palestra em Harvard, todo baseado nas orelhas de livros que li, demonstrando minha capacidade de tirar vinho Bourbon de pedra? Até chamei de ensaio, porque eu estava ensaiando me tornar brasilianista. Graças a meu tino, me tornei um líder do Judiciário. Meu sonho era montar uma brigada de juízes, invadir o Planalto e assumir o poder, para conduzir o Brasil para seu destino manifesto.

– E quase conseguiu, Roberto.

– Me criticavam por minhas leituras simples dos Brasilianistas, mas o discurso não pode ser sofisticado, senão não penetra na alma do povo. E eu sempre curti o povo, especialmente no Leblon e nos saraus intelectuais da Cidade Maravilhosa, ouvindo as manifestações iluministas de Guilherme Fiúza, do Rodrigo Constantino e do meu inspirador maior, Flávio Rocha. Li um artigo dizendo que os grandes estadistas, os que se propõem a mudar o país, não podem se prender a meros escrúpulos. Então manipulei algumas estatísticas de ações trabalhistas, outras sobre revisões de sentença nos tribunais superiores, mas fui bem avaliado por meus pares. Aliás, pares não, porque sou ímpar. E foi assim, nessas minhas prospecções intelectuais, nessa minha notável intuição de desenvolver teses com bases em introduções e orelhas de livro, que descobri as raízes do mal. Um dia, conversando com um colega advogado, consegui decifrar a origem do subdesenvolvimento brasileiro. Sua empregada não queria registro para poder continuar recebendo o Bolsa Família. Ali estava o busílis da questão.

– Tem razão, Roberto, foi uma grande sacada sua. Enquanto a empregada ficava na malandragem, seus clientes antigos, da Eternit, empresários honrados e homens de bem, eram perseguidos, acusados injustamente de contaminar seus funcionários, sem considerar o bem que faziam para o Brasil.

– É isso, Edson. O problema não era o amianto, mas esse descuido da plebe em não se alimentar direito e não usar máscaras no serviço. Mas, a manifestação banal do politicamente correto impedia o trabalho deles. Quando eu era advogado, a Eternit me contratou para um parecer no Supremo, bem remunerado, por sinal, porque meu trabalho pro bono – como fiz com o terrorista italiano – foi investimento em marketing. Tornei-me conhecido por explorar os caminhos da Constituição e o empresariado gostou disso. Meu escritório foi bastante requisitado para preparar minutas de projetos de lei que eles apresentavam para seus políticos de estimação, todos trabalhando pro bono, pelo bem do Brasil, e sendo recompensados com financiamentos para suas campanhas patriotas. No caso do parecer da Eternit, precisei levar por escrito, para não entrar nos arquivos digitais do tribunal e eu ser patrulhado por essa malta do politicamente correto.

– São ingratos, Roberto. Não percebem que só queremos fazer o bem e buscar o progresso. Só porque me recusei a dar um habeas corpus para uma liderança rural no Centro-Oeste, me acusaram de ter mudado de lado, já que fiz meu nome defendendo lideranças rurais no sul. Não entendem que, quando viramos Ministros, muda o horizonte. Não podemos continuar pensando pequeno.

– É assim mesmo com os pioneiros, Edson. É o preço que pagamos por acender a lanterna de Diógenes para iluminar o caminho do Brasil para o novo Iluminismo. Ajudamos a modernizar o Brasil. Acabamos com direitos trabalhistas, permitimos grandes negócios com subsidiárias de estatais, dando um by-pass nessa Constituição paternalista e atrasada. Você precisava ver a alegria espontânea dos meus antigos clientes, quando perceberam o novo horizonte que se abria. Aí, vem o Credit Suisse, justo o Credit Suisse, e levanta os dados de concentração de renda no Brasil, mostrando que o 1% mais rico passou a deter 50% da riqueza nacional. E os jornais passam a falar desse detalhe, com discrição, é certo, mas sem entender que o velho morreu e o novo ainda não nasceu e é natural, é natural. E ainda teve um gaiato dizendo que o velho morreu de vergonha e o novo morreu de fome. Quiseram atribuir a mim a miséria que é atávica no Brasil, porque todo brasileiro é preguiçoso, com exceção dos que se mudaram para Miami.

– Não se apoquente com isso, Roberto. Assim que sairmos daqui, seremos reconhecidos como “el benefactor” do Judiciário. Mas vamos parar de falar porque Satanás já está chegando para acender o fogo do meio dia.

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5 comentários

  1. Bem sarcástico esse texto, mas acho que apenas a vaidade não explica a mudança no comportamento de tais figuras, muito menos o peso das togas. Pecadilhos na trajetória da vida pessoal ou familiar, descobertos e usados para interesses de determinados grupos, talvez seja a chave para entender essas metamorfoses.

  2. Eis a beleza do idioma, com sutileza de uma conversa ao pé do fogo, desnudam-se dois emplumados que não foram compreendidos.
    Belíssimo texto, necessário em dias em que a ignorância presidencial grassa vergonhosamente.

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