10 de junho de 2026

79 anos de PUC-SP: De onde viemos, para onde vamos, por Andréa Campos e Fabrizio Prado

Comemorar 79 anos respaldados apenas por um saudosismo vazio é aprofundar-nos em um espaço que não nos pertence.
Reprodução

79 anos de PUC-SP: De onde viemos, para onde vamos

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Andréa Campos e Fabrizio Ridolfo Prado

A sabedoria é a virtude mais essencial que um indivíduo pode cultivar. É esse o legado que a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo aspira, desde seu início, construir. Essa vontade que parte, em princípio, de uma ideia, carece de muito mais do que apenas isso para se tornar realidade. De maneira humilde, e tão real quanto o carinho de todos que por lá passaram, a PUC-SP foi extremamente bem-sucedida em colocar tudo o que pensou em movimento, em transformar o imaterial em matéria, em mudar a vida das pessoas.

Pois bem, é necessário, no entanto, entender que inteligência sem sabedoria é egoísmo, pois a habilidade em estruturar ideias e imaginar cenários, de forma rápida e associativa, pode ser algo positivo e destoante, porém, essa capacidade cognitiva só pode ser realizada, seja enquanto matéria ou propósito, quando estiver combinada com a experiência imposta pela realidade, com àquilo que a cultura, as tradições originárias de nosso povo e as ferramentas transformadoras da realidade social, combinadas, estiverem sendo potencializadas e desenvolvidas. Se torna, no modo puquiano de ser, imperativo agir de forma coletiva.

A produção acadêmica, portanto, deve ser para a sociedade e em constante diálogo com esta. Sabedoria é cultivar um olhar questionador – porque questionar vale mais do que decorar. Nossa Universidade é feita de pensadores, não de replicadores. A cabeça pensa onde os pés pisam, portanto, a Universidade precisa estar presente nos bairros da comunidade, fora da sala de aula. Precisa produzir um conhecimento que se destine a todos, não para uma pequena elite. Pois, enquanto ideia, o conhecimento é livre, logo, deve-se aplicar, por àqueles que se comprometeram com a missão educadora, a mesma liberdade no momento de propagar isso para toda a sociedade. A educação, como diz um de nossos patronos, é liberadora.

Questionar é resistir, e não há instituição universitária em São Paulo que, sem períodos obscuros ou episódios de retração, tenha resistido tanto quanto a PUC-SP. Nos momentos mais críticos da história brasileira, esta Universidade manteve-se firme na luta por uma sociedade mais justa e igualitária, mesmo sob risco de sua própria existência. Prenderam e mataram nossos membros; invadiram e queimaram nossas instalações. Ainda assim, a Instituição não se dobrou. Dom Paulo Evaristo Arns, Nadir Kfouri, Paulo Freire, Florestan Fernandes, Paul Singer, José Dirceu, Luiz Travessos e tantos outros são a nossa história. Cabe a nós honrar e perpetuar esse legado.

No entanto, todas as glórias citadas e o propósito de evolução coletiva aqui trazidos, foi permeado pela constante luta de estudantes, funcionários e professores, uma vez, assim como em todos os cantos de nossa sociedade, a luta de classes é motor dos fatos. O compromisso da classe estudantil organizada, em respeito à luta que calcou nossas paredes, é de fazer a PUC, a cada dia mais, uma Universidade que produz para o povo, e pelas mãos do povo. A elitização acelerada impulsionada pela criação do CONSAD deve ser tema central no debate sobre o futuro que desejamos. Hoje, mais de 40% do corpo discente foi obrigado a abandonar os estudos por não conseguir arcar com os aumentos das mensalidades. A FUNDASP, outrora dirigida por Dom Paulo, com um compromisso social como premissa inegociável, hoje comporta-se como uma empresa que coloca o lucro à frente das pessoas. Aos poucos, essa elitização reflete-se em diversas frentes da experiência universitária, seja na perseguição ao Movimento Estudantil, no esvaziamento de espaços, pautas e cursos.

Não podemos vender a nossa identidade a troco de certa responsabilidade fiscal injustificada, pois, desta forma, estamos abrindo mão dos ideais que fizeram da nossa PUC uma instituição única. Comemorar 79 anos respaldados apenas por um saudosismo vazio é aprofundar-nos em um espaço que não nos pertence. Portanto, devemos pensar no presente e futuro e não há como debater uma PUC humanista sem debater uma FUNDASP humanista. Muitos veem o fim da FUNDASP como solução, mas não podemos ser utópicos. Precisamos disputar e reivindicar a volta da Teologia da Libertação como doutrina guia da Fundação São Paulo. Se é a Igreja que comandará a Universidade, que seja uma Igreja humanista, a Igreja dos pobres e oprimidos, a Igreja que preza pelo acolhimento.

Para os seus 80 anos, a PUC-SP precisa mudar de face. Uma Universidade feita para a sociedade não pode custar cinco vezes um salário-mínimo. Não pode ter uma maioria predominante branca. Não pode naturalizar casos “isolados” de elitismo e racismo. Não pode reproduzir em seu espaço as opressões que marcam a sociedade. O orgulho de ter participado dessa magnífica história, onde nós, estudantes, fizemos grandes amizades, lutamos pelas pautas que acreditamos, nos desenvolvemos enquanto seres humanos e aprendemos, de maneira humana, o que é direito, também nos fez, igual aos que nos antecederam e os que estão por vir, intitulados do direito de, para sempre, lutarmos pela PUC-SP que queremos, uma universidade que nos próximos 80 anos possa ser verdadeiramente democrática e popular. Uma PUC-SP onde o povo esteja sempre acima do lucro!

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

FENED - Federação Nacional das e dos Estudantes de Direito

A Federação Nacional de Estudantes de Direito – FENED é a entidade central do Movimento Estudantil de Direito e visa representar e organizar as/os estudantes de Direito do Brasil.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados