23 de junho de 2026

A importância de Paulo Freire, por Lisete Arelaro

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Carta Capital

A importância de Paulo Freire.

A atualidade do pensamento pedagógico transformador do educador brasileiro mais conhecido do mundo.

Para o pensador, a educação critica é a conquista da liberdade.

Por Lisete Arelaro*

A atualidade do pensamento de Paulo Freire vem sendo atestada pela multiplicidade de experiências que se desenvolvem tomando o seu pensamento como referência, em diferentes áreas do conhecimento e em diferentes países do mundo. 

Intelectual chamado de “educador popular” é o professor brasileiro mais conhecido no mundo. Foi criador de uma teoria epistemológica de aprendizagem que grande parte das publicações denomina de Método Paulo Freire, e é também o cidadão brasileiro mais condecorado do País. Foram 39 títulos de Doutor Honoris Causa – 34 em vida e cinco in memoriam – e mais de 150 títulos honoríficos e/ou medalhas. Em 2012, foi declarado Patrono da Educação Brasileira, por meio da Lei Federal nº 12.612, de 13/4/2012.

Paulo Freire escreveu mais de 20 livros como único autor e 13 em coautoria. Seu livro mais importante, Pedagogia do Oprimido, foi traduzido em mais de 20 idiomas e, somente em inglês, já foram publicados mais de 500 mil exemplares. Seu livro Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa vendeu mais de 1 milhão de exemplares. Seus livros são comercializados em 80 países, podendo-se afirmar, em razão disso, que ele é o educador brasileiro mais lido no mundo.

Tal projeção confere ao conjunto de suas produções o caráter de uma obra universal, que vem sendo destacada na literatura, nos depoimentos de importantes autores, em diferentes países, e no crescente número de pesquisas que se referenciam na matriz de pensamento de Paulo Freire.

Michael W. Apple, professor da Universidade de Wisconsin – Madison, um dos mais conhecidos especialistas internacionais na área do currículo e na análise das políticas educacionais e um dos principais difusores do pensamento freireano nos Estados Unidos, destaca que as numerosas obras de Freire serviram de referência a várias gerações de trabalho educacional crítico. 

Para António Nóvoa, professor da Universidade de Lisboa, Portugal, autor de diversas obras científicas no domínio da Educação, a vida e a obra de Freire constituem uma referência obrigatória para várias gerações de educadores. As propostas por ele lançadas foram sendo apropriadas por grupos distintos, que as relocalizaram em vários contextos sociais e políticos. “A partir de uma concepção educativa própria, que cruza a teoria social, o compromisso moral e a participação política, Paulo Freire é, ele próprio, um patrimônio incontornável da reflexão pedagógica atual. Sua obra funciona como uma espécie de consciência crítica, que nos põe em guarda contra a despolitização do pensamento educativo e da reflexão pedagógica.”

Na área acadêmica, a última década revela grande interesse e ampliação de trabalhos sobre e a partir do pensamento freireano. Em recente pesquisa realizada no Portal da Capes (SAUL e SILVA, 2008) constatou-se, no período 1987-2007, um total de 804 produções – dissertações e teses – defendidas, que utilizaram o referencial freireano em diferentes áreas do conhecimento. 

No entanto, é importante destacar alguns aspectos de sua teoria epistemológica, para que os que nunca leram Paulo Freire se sintam motivados a fazê-lo. Dentre tantos aspectos, destacamos de sua teoria: a crítica à educação bancária; a educação crítica como prática da liberdade; a defesa da educação como ato dialógico; a necessidade de o professor ser pesquisador e ter rigor científico nas suas aulas; a problematização e a interdisciplinaridade no ato educativo e a noção de ciência aberta às necessidades populares. 

Freire apresenta, em amplo acervo teórico, reflexões que apontam para a importância de uma educação que parta das necessidades populares como prática de liberdade e de emancipação das pessoas, e não de categorias abstratas. Para ele, a educação requer, de forma permanente: a) O cultivo da curiosidade; b) As práticas horizontais mediadas pelo diálogo; c) Os atos de leitura do mundo; d) A problematização desse mundo; e) A ampliação do conhecimento que cada um detém sobre o mundo problematizado; f) A interligação dos conteúdos apreendidos; g) O compartilhamento do mundo conhecido a partir do processo de construção e reconstrução do conhecimento.

Suas obras são críticas, mas cheias de esperança porque o homem e a mulher, como seres inconclusos, sempre podem aprender mais e mudar a sua realidade e a do mundo. Não há destino. Ninguém aprende sozinho, aprende-se em comunhão. E isso se faz nas práxis da ação, reflexão e ação. Por isso, ele nos lembrava: “O mundo não é, ele está sendo”.

É importante registrar, também, a ampliação do número, na última década, de Institutos e Cátedras Paulo Freire em vários países do mundo, entre os quais estão Portugal, Espanha, Itália, Peru, México, Colômbia, Estados Unidos e Brasil. Essas instituições, sediadas ou não em espaços acadêmicos, têm realizado eventos de caráter internacional para o aprofundamento e divulgação do pensamento freireano.

Será que todos esses professores, intelectuais e movimentos sociais são comunistas? 

* Professora titular do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação da Faculdade de Educação da USP

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

12 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. SergioF

    30 de maio de 2015 8:39 pm

    Os resultados do “método

    Os resultados do “método Paulo Freire” estamos vendo hoje…

    1. Anarquista Lúcida

      1 de junho de 2015 6:34 pm

      Comentando sem entender nada do assunto, né?

      Nao há método Paulo Freire, e a educaçao brasileira nunca foi guiada pela pedagogia de Freire.

  2. Anarquista Lúcida

    30 de maio de 2015 8:46 pm

    Excelente texto. Alguns adendos

    Vou comentar um trecho específico do texto, porque ele dá margem a algumas confusoes (nao por causa do texto, mas porque ele parece confirmar algumas confusoes que já existem sem ele). Eis o trecho: “Foi criador de uma teoria epistemológica de aprendizagem que grande parte das publicações denomina de Método Paulo Freire”. 

    Nao há um “método” Paulo Freire (isso é dito pelos próprios adeptos de Freire), há sim uma pedagogia, e sim uma teoria epistemológica de aprendizagem. Esse nome método Paulo Freire em parte se origina da prática alfabetizadora de adultos que ocorreu antes de 1964. Mas o que caracterizava essa prática nao era um método de alfabetizaçao (o que estava de certo modo embutido nessa prática nao tinha em si, enquanto método, nenhuma novidade, era apenas uma variedade do método de palavraçao livre) mas sim a filosofia que a guiava, o respeito pelo conhecimento prévio dos alunos e pelos interesses deles, a importância dada ao caráter reflexivo da aprendizagem e ao diálogo, o caráter militante da prática (nao necessariamente feita por “comunistas”, muitos dos participantes eram católicos que queriam realmente praticar o Evangelho ajudando os outros), entim, questoes muito mais amplas do que um método, constituiam uma pedagogia, nao um método. Mais tarde, durante a ditadura, o MOBRAL dizia estar usando o método Paulo Freire, mas exatamente tudo o que constituía o aspecto reflexivo e inovador da prática anterior foi extirpado, sobrou apenas o que havia de método de alfabetizaçao nessa prática, o que, como eu disse antes, nao era nada de novo, enquanto método de alfabetizaçao era apenas palavraçao. 

    Paulo Freire se tornou alvo de ódio dos conservadores primeiro naquela época, por causa do caráter realmente revolucionário daquela prática de educaçao. Mas hoje ele é odiado pelos coxinhas nao só por isso, mas pelo fato de, enquanto secretário de Educaçao de Erundina, ter proposto a adoçao da Progressao Continuada. Que em si é algo ótimo, evita a expulsao da escola dos desistentes e reprovados etc. Só que Progressao Continuada nao deveria significar ausência de avaliaçoes, muito pelo contrário: os alunos deviam ser acompanhados em cada tarefa feita, em cada dificuldade observada, e haver intervençao pedagógica no momento certo. Nada disso foi feito, e a Progressao Continuada virou Aprovaçao Automática, com alguns resultados bem ruins (nao todos: mal ou bem diminuiu a evasao escolar).

    É triste ver pessoas pretensamente esclarecidas bradando contra Paulo Freire. Pior ainda, responsabilizando-o pelos maus resultados da educaçao brasileira, quando NUNCA o sistema escolar oficial no Brasil foi inspirado em Paulo Freire (pode ter havido algumas experiências aqui e ali, mas nao de modo oficial; até porque nem há propriamente um sistema de educaçao unificado no Brasil, o que aliás tanto tem aspectos negativos quanto positivos).

    1. MAmNREL

      31 de maio de 2015 2:12 am

      O EDUCADOR

      Excelente comentário, já ví muitos procurando este tal Método, e se perdendo em discursos  pintados com falso intelectualismo. 

    2. MAmNREL

      31 de maio de 2015 2:13 am

      O EDUCADOR

      Excelente comentário, já ví muitos procurando este tal Método, e se perdendo em discursos  pintados com falso intelectualismo. 

    3. MAmNREL

      31 de maio de 2015 2:13 am

      O EDUCADOR

      Excelente comentário, já ví muitos procurando este tal Método, e se perdendo em discursos  pintados com falso intelectualismo. 

    4. Pedro Mundim

      1 de junho de 2015 4:58 pm

      Sim, mas…

      Sim, mas se Paulo Freire foi nomeado patrono da educação brasileira, como é que o sistema escolar oficial do Brasil supostamente nunca foi inspirado por seu método?

      A resposta você mesma dá em seu texto, embora não explicitada: o método Paulo Freire nunca foi posto em prática pelo sistema escolar brasileiro, simplesmente porque tal método nunca existiu, nem tampouco Paulo Freire foi um educador, mas um ideólogo e ativista. Bom para ser patrono, apenas.

      Nesse ponto eu tenho que concordar que é um contrassenso que tantos culpem o método Paulo Freire pelo fracasso de nossa educação: aquilo que não existe não pode ser a causa de nada. Mas a teoria epistemológica de Paulo Freire, essa existe sim, e é responsável por uma parcela do desse fracasso, pois fornece um inesgotável manancial de subterfúgios para as falhas de nossa educação: OK, nossos alunos vão mal em português, matemática e ciências, mas sempre pode-se argumentar que a “verdadeira finalidade” da educação não é ensinar português, matemática e ciências, mas “formar cidadãos”, “despertar o senso crítico”, “problematizar” e outras tantas abstrações que podem ser interpretadas ao gosto do freguês!

      E Paulo Freire, pessoalmente, também pode ser responsabilizado por uma parcela deste fracasso, porque propôs a Progressão Continuada que desandou em Aprovação Automática. Vocês vão dizer, a culpa não foi dele porque a proposta foi desvirtuada. É a mesma desculpa fiada que dão para o fracasso do ECA: é porque “não saiu do papel”. Mas se antes não havia recursos para dar acompanhamento aos alunos com dificuldade, tampouco há recursos depois. Diminuiu a evasão escolar? Mas que ganho há em manter na escola um aluno que não aprende nada? Quem acredita nisso supõe que todo mau aluno que sai da escola vai para as ruas assaltar. Ora, mas se o aluno é de fato um bandido, então o que urge fazer é excluí-lo da escola o quanto antes, para que ele cesse de ameaçar e corromper seus colegas.

      1. Ralf Rickli

        1 de junho de 2015 8:53 pm

        “… nem tampouco Paulo

        “… nem tampouco Paulo Freire foi um educador …” – De um comentário que já começa por demonstrar tal ignorância dos fatos históricos não se poderia esperar nada de razoável mesmo.

  3. Anna Dutra

    30 de maio de 2015 8:57 pm

    ☆☆☆☆☆
    Excelente!

  4. NICKNAME

    30 de maio de 2015 11:28 pm

    Parabéns a um comentário abaixo

    não cito a autoria, nem precisa.

  5. joao

    31 de maio de 2015 2:11 am

    Otimo Lucida!

    Penso que:

    O caráter nas manifestações também significou por alguns a ignorância, mas não de quem direcionou este tinha objetivo contra os pobres e o conhecimento, os novos estudantes quanto serem uma iminência futuro as posições e regalias, competindo por iguais dos que podem pagar alimentar e estudaram.

    Muito claro seu comentário!!

  6. jura

    31 de maio de 2015 1:11 pm

    ComunhãoxSegregação

    Se aprendemos em comunhão, a maior falha da educação brasileira é a segregação do ensino em público e privado, pobre e rico, bom e ruim. Sem igualdade não há comunhão.

    O sectarismo político brasileiro é consequência dessa falta de uma educação básica comum que cria visões isoladas do país e uma cegueira generalizada. A falta de comunhão não gera uma nação, e sem nação não há entendimento. Saramago deve ter lido Paulo Freire quando escreveu Ensaio sobre a Cegueira…

     

Recomendados para você

Recomendados