4 de junho de 2026

O conflito na sucessão da reitoria da USP

 
Por Renato Janine Ribeiro, via Facebook
 
A USP vive hoje sua mais nervosa escolha de um novo reitor em vários anos. O conflito se deve à sucessão. Nas últimas décadas, as universidades públicas de todo o país adotaram formas de eleição pela comunidade. A USP foi a exceção. Inventou um sistema pelo qual, não havendo candidaturas inscritas, esperava-se que espontaneamente os melhores lembrassem outros nomes, melhores ainda, de modo que sem partidarização, sem política, pesquisadores de alto calibre acabassem sendo escolhidos, por um misto de colégios restritos e de decisão pelo governador, para dirigir a Universidade. O princípio é correto. A melhor universidade se distingue pela qualidade na pesquisa e no ensino graduado e pós-graduado. Daí um teor aristocrático na eleição uspiana: os melhores lembrariam os melhores. Mas, na prática, isso não funcionou. Sempre se soube, desde o começo, quem eram os dois ou três “para valer”. Facções logo dominaram o processo. O que seria aristocracia virou oligarquia, com os poucos (oligoi) substituindo os melhores (aristoi). Daí, os últimos reitores se fecharam no espaço físico da reitoria. Cavou-se uma distância grande, política e cultural, entre dirigentes e dirigidos. Daí, uma crise potencial de legitimidade dos reitores. 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

 
Nenhum dos seis reitores eleitos no regime atual tentou mudá-lo. A novidade na eleição de 2009 é que todos os candidatos o prometeram. Participei do processo, defendendo a mudança, representante que era da categoria de Professores Titulares no Conselho Universitário. O reitor João Grandino Rodas convocou duas reuniões do Conselho, que debateu o tema de forma exaustiva e, em 2012, conclusiva. Em meados do ano passado, obteve-se um consenso em torno de uma proposta moderada. Era só votar. Mas o reitor foi adiando. A surpresa ocorreu quando, no início deste ano, circulou que a administração queria introduzir a reeleição na USP; não deu certo; depois disso, se tentou uma reeleição cruzada, na qual o vice-reitor se tornaria reitor, e o reitor ocuparia a vice-reitoria, mas com poderes fortemente ampliados. Tal proposta, submetida a vários diretores, foi recusada por três dos quatro pró-reitores – Maria Arminda (Cultura), Marco Zago (Pesquisa) e Vahan Agopyan (Pós-Graduação). Rodas não teve, assim, o apoio de sua própria equipe. Rompeu com Zago e Vahan, que hoje compõem a chapa com mais condições de se eleger – um cientista ex-presidente do CNPq, um engenheiro ex-presidente do IPT – e a única que fala em democracia no plano de gestão. Então, perto do fim de seu mandato, o reitor Rodas decidiu discutir a democracia na USP.
 
A reforma foi votada em 1º de outubro. Adotou-se uma medida simples, defendida havia anos, entre outros por Hernan Chaimovich e por mim: a escolha passa de um colégio de 250 membros, facilmente controlado pelo reitor e pró-reitores, para o conjunto de quase dois mil membros das congregações, professores em sua maioria. A mudança torna o processo mais aberto, menos controlado – tanto que é difícil, antes do dia 10, quando a comunidade será consultada in totum, e do dia 19, quando ocorrerá a votação propriamente dita, especular sobre os resultados. Também se determinou a inscrição dos candidatos, que têm de formar chapas. Mas não se avançou rumo à eleição direta, nem se ampliou o colégio – por exemplo, poderiam ter sido incluídos os membros dos conselhos departamentais, que atuam intensamente na vida universitária. Também se manteve, por ora, a lista tríplice submetida ao governador. Em vinte sucessões reitorais na democracia, na USP, Unesp e Unicamp, sempre o governador respeitou a preferência da universidade, com uma única exceção – justamente, a escolha de Grandino Rodas, em 2009, em vez do mais votado, Glaucius Oliva, hoje presidente do CNPq.
 
Inscreveram-se quatro candidatos, que têm seus programas e vídeos na Internet. O reitor apoia a candidatura do geógrafo Wanderley Messias, da FFLCH, tendo como vice a ex-reitora Suely – curiosamente, Rodas foi nomeado por Serra, em 2009, justamente porque o governador não queria ninguém que fosse próximo da então reitora. O vice-reitor Helio Nogueira não parece mais ser o preferido do reitor, embora tenha apoio em várias unidades. Dos quatro candidatos, só um não participou da gestão cessante, José Roberto Cardoso, da Poli. É de se esperar que em eleições futuras acabe a tendência, que tem sido constante, de haver como candidatos praticamente só pró-reitores e diretores.
 
Grandino Rodas teve êxitos. Construiu muitas obras. Formou uma equipe competente. Mas se desgastou mais do que precisava, devido à relutância em votar a reforma na escolha de reitor, à briga desnecessária com sua Faculdade de Direito e, finalmente, ao rompimento com a própria equipe. Raro reitor da USP foi tão criticado na imprensa: a cada conflito com os estudantes ou funcionários, os jornais apontavam falhas da reitoria. Até o Judiciário lhe negou, recentemente, a pronta reintegração de posse da reitoria invadida – algo antes automático –, afirmando que ele se negara a dialogar com os estudantes. A invasão foi lastimável, com depredações e furtos, mas de certa forma representou o esgotamento de uma forma de política universitária.
 
A concentração de poderes na reitoria é antigo fator de insatisfação. Este ano, a descoberta de que a USP Leste foi construída sobre dejetos químicos foi uma gota a mais, levando à demissão do diretor daquela unidade; segundo a Adusp, o reitor teria prometido nomear diretor quem ganhasse a eleição direta na USP Leste. Isso é curioso, porque os reitores são muito ciosos de seu poder de escolher os diretores de todas as unidades. Atualmente, assim como o reitor é escolhido pelo governador a partir de uma lista tríplice, os diretores das faculdades são nomeados pelo reitor com base também em listas tríplices. Se nem a Poli, a Filosofia ou a Medicina, para citar três unidades fortes e consolidadas, estão a salvo da lista tríplice, por que a uma das unidades mais jovens teria sido prometida a autonomia? Vejo neste rumor um sinal forte. As unidades querem escolher sozinhas seu diretor, e por pouco o Conselho Universitário não aboliu, em outubro, a lista tríplice para diretores. Na plataforma dos candidatos, o assunto não é mencionado, salvo na de Zago, que prometeu aboli-la e respeitar a decisão interna de cada Unidade. O excessivo centralismo é uma das maiores causas de mal-estar na USP.
 
A tensão na Universidade de S. Paulo tomou a forma de um confronto entre quem defende a qualidade científica e quem quer a democracia, entendendo por ela a eleição do reitor com igual peso para professores, alunos e funcionários. Não concordo com essa polarização. O segredo da USP é a alta qualidade. Ela é a melhor universidade da América Latina porque não transige neste ponto. Mas qualidade não é oligarquia. Em 2010 o reitor decidiu transferir o prédio da reitoria, a alto custo. Essa medida poderia ser justa, mas o problema é que foi decidida sem ampla discussão. E não tem cabimento uma situação em que pesquisadores de alto nível, porque precisam do apoio da reitoria para seus laboratórios e pesquisas, necessitam votar no candidato com pinta de vencedor. Esse tipo de política não deve existir em lugar nenhum, menos ainda no mundo acadêmico.
 
O cerne da qualidade está na cultura de avaliação da pesquisa e da pós-graduação, disseminada pela instituição. Todos hoje sabemos que é importante pesquisar, conseguir o reconhecimento dos pares, publicar nos melhores veículos. Só a graduação ainda não tem uma cultura tão consolidada de qualidade e inovação, e esse deveria ser o grande desafio das universidades nos próximos anos. Mas, quando dizemos que o segredo da qualidade está numa cultura de avaliação, afirmamos também que uma cultura compartilhada não precisa de um poder semi-absoluto dando as ordens. Justamente porque ela é partilhada, ela pode funcionar sem autoritarismo.
 
Já quanto à democracia, a USP não é um “demos”, um povo, porque não tem as complexas relações econômicas, sociais e políticas que caracterizam o povo; uma universidade é uma instituição especializada. A USP, como suas duas irmãs, foi instituída pelo povo (o paulista) para ter a melhor pesquisa e o melhor ensino, e essa condição de “melhor” exige mérito. (Não uso a palavra “meritocracia”, porque ela está errada. O poder, o “kratos” dos gregos, nuam sociedade atual só pode estar no povo. Mas a universidade não é o povo. E nela o fundamental não é o poder – “de nomear e demitir”, como dizia Getúlio Vargas – e sim a autoridade: o reconhecimento que os melhores conseguem, devido a sua qualidade intelectual ou científica, devido portanto a seu mérito).
 
As duas demandas – a da qualidade mas sem oligarquia, a da participação mas sem pôr em risco a qualidade – precisam e podem negociar. Parece-me pouco que, mesmo com a recente e moderada reforma, nem mesmo um terço dos seis mil professores doutores da USP votem na escolha do reitor; deveriam votar todos eles, com uma participação compatível de alunos, funcionários, sobretudo especializados, e talvez ex-alunos. Mas o decisivo na USP, para além da forma de escolha do reitor, só pode ser a busca da melhor qualidade.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Lionel Rupaud

    17 de dezembro de 2013 11:19 am

    Texto longo e penoso de ler mas

    Deu para entender por que a mais prestigiosa universidade do pais está perdendo influência. relevância, e o pior de tudo: alunos. Sim estudantes dos mais brilhantes, especialmente nas exatas, hoje evitam a USP, preferindo instituições federais.

    Mas um resultado brilhante dos tucanos, os jenios da jestão (via xoques). Vide também a TV Cultura (alias ainda existe esta coisa?).

    1. Ritinha

      17 de dezembro de 2013 2:36 pm

      Lionel
      Sua afirmação é

      Lionel

      Sua afirmação é baseada em quais dados?  Qual “influência” a USP está perdendo?  

  2. Maria Luisa

    17 de dezembro de 2013 1:17 pm

    O que é o poder…

    A escolha de Rodas, não respeitando o voto da maioria, resultou nos piores anos da USP, desde a ditadura militar. Mas as mudanças mais importantes, como salienta Janine, precisam vir de dentro. A começar por diminuir as vaidades e abrandar super-egos e sobretudo o excesso de politicagem. 

  3. Ari Silveira

    17 de dezembro de 2013 3:29 pm

    Reitores biônicos

    Lamentável o desprezo dos tucanos pela democracia. No governo FHC, a eleição para a reitoria da UFRJ foi desrespeitada e o então presidente, como se fosse um general da ditadura, nomeou um interventor. O mesmo ocorreu na USP, com a escolha de Rodas.

    1. Fiódor Andrade

      17 de dezembro de 2013 4:53 pm

      Lembro desse tempo na UFRJ.

      Lembro desse tempo na UFRJ. Aloisio Teixeira foi eleito mas FHC e Paulo Renato enfiaram o Vilhena goela abaixo da Universidade. Eu era aluno e participei da ocupação da reitoria. Que fim levou o Vilhena? Está vivo ainda?

  4. Antonio C.

    17 de dezembro de 2013 11:53 pm

    Comentário.

    “A melhor universidade se distingue pela qualidade na pesquisa e no ensino graduado e pós-graduado. Daí um teor aristocrático na eleição uspiana: os melhores lembrariam os melhores. Mas, na prática, isso não funcionou”. De fato, senhor Janine, não funciona. E nem funcionará. O erro fundamental está em considerar a excelência acadêmica como requisito de boa gestão e boa escolha dentre os pares, como se uma coisa tivesse relação estrita com a outra. O fato de ter livre docência não faz ninguém, por princípio, ser democrático, dialógico, ter espírito cidadão e ser apto para saber que a universidade não é um fim em si mesma. 

    A USP não é uma entidade sobrenatural, mas construída e alimentada pelas ações recíprocas de todos com todos, com maior ou menor grau de distanciamento e relacionamento pedagógico, administrativo e hierárquico, por exemplo. Assim, falar de excelência e de escolha entre os pares significa saber que tipos de relações recíprocas são realizadas para que este falar apareça.

    Não tenho todos os dados necessários, mas imagino um ponto de início, arbitrário talvez, verifcando como se formam os “pares”, os “melhores”. Mas aposto uma limonada gelada que, se o critério fosse estritamente pedagógico e acadêmico, a quantidade de claros que se abriria na USP seria considerável. O Conselho Universitário (eufemisticamente Co) seria extinto. Alguns que fazem da burocracia a sua razão de ser (pois, para si mesmos, não existe mais nenhuma), alimentada pela ideia de ser um dos “melhores”, seriam simplesmente demitidos a bem do serviço público; não falo daqueles servidores de guichê, mas daqueles que, por meio da bajulação e do favor, conseguem os cargos por indicação. Indicação dada por quem? Pelos “melhores”!

    Como se formam os poucos em substtuição dos melhores, a tal ponto que os “poucos” e os “melhores” acabam como uma coisa só (acho que o senhor Janine não pensa nessa situação). Dou um exemplo. Imagine um funcionário administrativo qualquer com problemas com um funcionário de cargo mais alto e indicado, mas ambos subordinados a alguém. A possibilidade de o funcionário administrativo ter razão (mesmo que na realidade tenha) é baixa, bem baixa. O senhor Janine fala da Maria Arminda, mas a gestão desta na pró-reitoria, no último ano, um funcionário pediu afastamento médico por estresse no trabalho (cujas causas não foram coibidas pela pró-reitora), dois funcionários pediram demissão (um deles recentemente, em dezembro) e outros três solicitaram transferência para outros setores da universidade, sendo que uma delas por discordância frente à política truculenta que os indicados pela Maria Arminda executam. Isto apenas para dizer de um setor da Universidade!

    Rodas teve “êxitos” e fez “muitas obras”. Sim, senhor Janine, por exemplo, comprou terrenos e imóveis em áreas caras com dinheiro da Universidade (com qual finalidade? comprou de quem?), foi “concluída” a Brasiliana (que se tornou objeto fetichizado do que útil). No caso dos funcionários, os bajuladores não têm o que reclamar; afinal, com a gestão de Rodas, tiveram um aumento salarial polpudo com o também eufemista “plano de carreira” (o próximo passo será uma contenção orçamentária com corte de funcionários pouco graduados e contratação de estagiários, um escândalo a estourar, e a salvação da patotinha dos “melhores”). 

    “A tensão na Universidade de S. Paulo tomou a forma de um confronto entre quem defende a qualidade científica e quem quer a democracia, entendendo por ela a eleição do reitor com igual peso para professores, alunos e funcionários. Não concordo com essa polarização. O segredo da USP é a alta qualidade”. Senhor Janine, essa polarização é sua. No fundo, o senhor defende que seja ampliada a participação; porém, sabe que é difícil saber quem são os pares que escolherão os pares. Por algum acaso um funcionário indicado será aquele que escolherá pela via mais democrática de gestão, justo aquela que, em tese, colocaria em risco o próprio cargo que ocupa? O problema não é apenas de capacidade técnica (pesquise quantos funcionários “especializados” realmente conseguem gerir sem manobra e truculência, pois nada conhecem do objeto que administram e cada vez que lhe escapa das mãos entram em pânico), mas a indicação, que é de origem política.

    Senhor Janine, tem gente que compra a credibilidade do seu próprio cargo às custas do trabalho de estudantes de graduação, pós-graduação, de docentes e pesquisadores. O “isolamento” da reitoria é mais um momento dos diversos isolamentos por que passam setores da universidade: funcionários de baixo escalão não falam (e até temem) docentes, docentes que temem o reitor, funcionários que atemorizam ou são atemorizados pela truculência de outros funcionários.

    “Autoridade: o reconhecimento que os melhores conseguem, devido a sua qualidade intelectual ou científica, devido portanto a seu mérito)”. Gostaria, sinceramente, de acreditar que a autoridade viria pela qualidade intelectual ou científica. Seria muito… natural. Realmente, “na prática, não funciona”.

  5. Arthur Moreau

    18 de dezembro de 2013 4:20 am

    Elogio

    Parabéns, Nassif! Ótimo texto! Ótimas colocações. O sr. me inspira a escrever melhor.

     

    Att

    Arthur Moreau

Recomendados para você

Recomendados