As pesquisas eleitorais influenciam o voto do brasileiro?

Para Alberto Carlos Almeida, cientista político e sócio do instituto de pesquisa Brasilis, há vários fatores que influenciam o eleitorado, mas não há nenhuma evidência científica de que o brasileiro se paute por pesquisas de opinião

Jornal GGN – As pesquisas divulgadas antes e durante o período eleitoral, na maioria das vezes, são classificadas pelos políticos como um “retrato do momento”. Dependendo do que está em jogo, setores da imprensa pegam a via oposta à relativização e fazem um estardalhaço com os resultados, mesmo quando o desempenho de um candidato, entre uma pesquisa e outra, não representa nenhuma mudança significativa pois oscilou dentro da margem de erro. À parte o tratamento que políticos e mídia dão às pesquisas de opinião, fica a questão: o que elas significam para o eleitor? Será que seu voto é influenciado pelas estatísticas?

“Isso causa controvérsia”, diz Alberto Carlos Almeida, cientista político e sócio da Brasilis –  instituto que trabalha com pesquisas de opinião e de mercado, lançado nesta quarta (16), em São Paulo.

No imaginário de muitos brasileiros, pesquisa influencia a opinião do eleitor sim, e a prova disso é o esforço feito para retratar um estudo ou outro como manipulado ou fraudulento, a depender de quem é favorecido ou prejudicado no jogo político.

Mas, segundo Almeida, não existe nenhuma prova de que pesquisas eleitorais influenciam a opinião pública a ponto de ser determinante na hora do voto. Não é como se o eleitor olhasse a pesquisa e decidisse acompanhar a maioria, deixando uma série de fatores de lado. Ao contrário disso.

Almeida explicou que há muita literatura científica indicando o que é determinante para o eleitorado formar sua opinião. O processo de escolha passa por uma avaliação das predisposições individuais (ideologia, visão de mundo de cada eleitor, etc), pelas preferências partidárias, pela avaliação do governo, as proposta dos candidatos, o nível de informação política, a influência exercida por parentes e amigos próximos, pela imagens dos postulantes e até pelo estado sócio-econômico de cada indivíduo.

Quem trabalha com política deve saber que “(o peso de) tudo isto está documentado em estatísticas. E da pesquisa (de opinião), não”, diz Almeida. Ele acrescenta que estudos experimentais já foram feitos mas, até hoje, ninguém conseguiu mostrar, de maneira científica, que uma pesquisa eleitoral influencia no voto.

A crença nessa hipótese desconsidera, em verdade, os inúmeros “obstáculos cognitivos” que uma pesquisa de opinião impõe ao eleitor.

Antes de deixar-se pautar por uma pesquisa de opinião, “o eleitor tem que passar por várias barreiras.” Primeiro, ter acesso ao resultado da pesquisa. Depois, confiar nos resultados “enquanto muitos dizem que há manipulação”. Em seguida, deve buscar entender e memorizar os dados. Tem, ainda, de saber o que fazer quando surgem divergências entre estudos. Por fim, precisa “converter o resultado em chances reais de vencer, tem que fazer da pesquisa o principal motivo para o seu voto.”

“É um esforço cognitivo muito grande. É cansativo passar por tudo isso”, observou Almeida.

Para “tirar a prova dos 9”, Almeida relata que em seu livro “A Cabeça do Eleitor” (2008, Record) há um estudo de campo realizado em Duque de Caxias, no Rio, mostrando a falta de relação entre pesquisa eleitoral e voto. O resultado do trabalho indicava que a maioria dos entrevistados não teve acesso à pesquisa eleitoral e, quem teve acesso, não depositou mais votos do que o primeiro nicho no candidato que estava à frente. Nos dois grupos, o vencedor teve desempenho similar.

“A maioria não vê pesquisa. Quem vê não sabe quem está na frente, não memoriza. Isso é para comprovar o esforço cognitivo.”

Na visão do especialista, mais do que dizer quem está em primeiro, segundo ou terceiro lugar na preferência do povo, um dado interessante a ser analisado em pesquisas eleitorais é a avaliação de governo ou imagem.

Segundo ele, “isso é mais importante do que a pesquisa (de intenção de voto ou espontânea), porque existe uma correlação (entre a avaliação e intenção de voto). Tem dados de centenas de eleições que comprovam isso (a relação entre boa avaliação e chances de ser eleito), mas de pesquisa (de intenção de voto, por si só) influenciar, não tem. (…) Não tem essa repercussão geral que o povo imagina.”

MANIPULAÇÃO E ERROS

Durante o lançamento da Brasilia, Almeida fez uma apresentação à imprensa convidada sobre como são feitas as pesquisas de opinião.

Ele criticou alguns erros cometidos na cobertura jornalística, sendo que o principal deles é “afirmar que teve mudança para um candidato quando nada ocorreu”, ou seja, manchetar que alguém cresceu ou caiu sendo que o desempenho oscilou dentro da margem de erro.

O especialista explicou que existe uma metodologia complexa por trás das pesquisas, principalmente na constituição das amostras, de modo a reduzir ao máximo possível a possibilidade de que, por decisão humana, um estudo seja enviesado.

Claro que, na prática, fora a margem de erro, ainda há erros chamados de “não-amostrais” que podem distanciar o resultado da pesquisa do que é aferido nas urnas.

Ele citou, como exemplo, uma eventual desatualização na base de dados cadastrais utilizadas para sortear os municípios ou formar os setores censitários. E há ainda percalços que ocorrem em amostras por cotas, como dificuldade do entrevistador em abordar um determinado perfil social.

O Datafolha, que inaugurou em 2002 as pesquisas por telefone (à época, somente em fixo e em localidades que não constituiam uma amostra fiél do País), costuma ir a campo em pesquisas nacionais após sortear “pontos de coleta de dados”. O instituto “mapeou o País” com uma base de dados própria e já tem “os pontos, só entrevistam quem mora naquela região sorteada” quando vão a campo.

O Ibope, por sua vez, “sorteia setores censitários”, o que implica na possibilidade de encontrar empecilhos em alguns locais de entrevista. Se, por exemplo, o teste não pode ser aplicado em determinada região por motivos de violência urbana, este setor é substituído por outro de perfil similar e não violento. “Você pode imaginar que isso pode dar viés, porque o setor violento pode votar de um jeito e o não violento, mas com mesmo perfil social, pode votar de outro. Você não sabe. Você só vai saber no resultado.”

“Por isso”, continua Almeida, a pesquisa telefônica pode ser melhor, “porque permite que você chegue numa casa que em campo você não poderia chegar.” O problema é que, perto das pesquisas tradicionalmente feitas no Brasil, as telefônicas são mais custosas e nenhum cliente quer arcar com este ônus.

Independente do método aplicado, o especialista alerta que não é do interesse de nenhum instituto ou cliente fazer uma pesquisa “enviesada”, que não permitirá que os resultados mais factíveis sejam conhecidos.

Ele defendeu que erros acontecem, sim, em pesquisas, mas não por manipulação deliberada. “Você erra porque errou”, disse, lembrando da complexidade por trás dos estudos.

Como segundo maior erro cometido pela imprensa, ele apontou a comparação entre os resultados de levantamentos feitos de maneiras completamente distintas. Aqui, ele chamou atenção para o modo como os dados estão intrinsecamente relacionados às perguntas do formulário apresentado aos entrevistados. Indagar se a prisão de Lula na Lava Jato foi “justa”, por exemplo, é diferente de querer saber se ele é vítima de lawfare.

Em 2016, o GGN mostrou que o Instituto Datafolha foi às ruas perguntar ao povo se Dilma Rousseff merecia sofrer impeachment por conta das denúncias de corrupção de seu governo quando o processo no Congresso estava alicerçado em outro motivo: as pedaladas fiscais.

Segundo Almeida, o ideal é que veículos de comunicação ou outras empresas interessadas em contratar uma pesquisa de opinião se abstenham de participar do processo de formulação do questionário, porque a maneira como as perguntas são feitas é determinante para se obter este ou aquele resultado. Para isso, disse, há técnicos capacitados.
 

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1 comentário

  1. Distãncia entre os

    Distãncia entre os pesquisadores e o brasil real: há parte do eleitorado, suficiente para decidir eleições disputadas, que não gosta de “perder o voto”. Em 89, com Collor, parte do resultado se deve a isso. Em 98, no primeiro turno, idem, e o DataFolha sabe disso, pois cuidou de mostrar Covas na frente de Marta. Há várias situações dessas de indução ao voto pelas pesquisas naquele que é o vencedor.

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