Do Estado das “caixinhas” ao Estado-Plataforma Corporativo: por que a proposta de J.D. Vance avança onde o DOGE de Musk fracassou
por Marcio Pochmann
O debate contemporâneo sobre soberania, tecnologia e democracia costuma concentrar-se nos conflitos entre governos e big techs, na regulação das plataformas digitais ou na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Contudo, por trás dessas controvérsias existe uma transformação mais profunda que se assenta no esgotamento do modelo de Estado capitalista construído para a sociedade urbano-industrial e sua inadequação diante da transição para a sociedade de serviços hiperconectada da era digital.
O Estado contemporâneo que se conhece foi uma criação da modernidade industrial. Entre o final do século XIX e o século XX, ele se expandiu para organizar economias de massa, urbanização acelerada, trabalho assalariado, educação pública, saúde, infraestrutura e proteção social. Essa expansão superou o antigo Estado mínimo liberal, cuja atuação se concentrava essencialmente no monopólio da moeda, da violência legítima e da arrecadação tributária.
A grande inovação do Estado industrial foi sua capacidade de organizar funções complexas por meio de estruturas setoriais como ministérios, secretarias, departamentos e agências especializados. A educação em uma “caixinha”, a saúde em outra, o trabalho em outra, transporte, energia, agricultura, cultura e segurança em compartimentos relativamente autônomos. Essa arquitetura burocrática funcionou porque a própria sociedade industrial era segmentada. A fábrica, a escola, o hospital, o banco e o sindicato eram instituições separadas, com fluxos de informação lentos e predominantemente analógicos.
Durante grande parte do século XX, essa fragmentação foi uma virtude. Ela permitiu especialização técnica, padronização de políticas públicas e administração de populações nacionais em larga escala. O Estado fordista-keynesiano tornou-se o centro de coordenação da economia e da cidadania. O problema atual é que a sociedade mudou mais rapidamente do que o Estado.
Neste primeiro terço do século XXI, a economia deslocou o seu eixo da produção industrial para os serviços, a informação, o conhecimento e as redes digitais. O smartfone passou a concentrar comunicação, consumo, trabalho, educação, lazer, finanças e participação política. A vida social deixou de ocorrer em instituições separadas e passou a ser mediada por plataformas integradas.
Uma corrida de aplicativos envolve transporte, pagamento, geolocalização, reputação, dados pessoais, crédito e trabalho, assim como as redes sociais contam com comunicação, publicidade, informação, entretenimento e influência política. Para as plataformas de comércio eletrônico também prevalece a integração logística, meios de pagamento, inteligência artificial, nuvem computacional e análise comportamental.
Enquanto isso, o Estado continua organizado como se cada problema pertencesse a uma repartição diferente. É nesse ponto que ganha relevância a proposta associada a J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos e figura articulada ao ecossistema tecnológico do Vale do Silício, especialmente ao círculo de Peter Thiel (Palantir Technologies Inc). Independentemente das interpretações mais dramáticas sobre suas intenções geopolíticas, o núcleo de sua visão pode ser entendido como uma tentativa de substituir o antigo Estado burocrático-industrial por uma forma de Estado-plataforma privada-corporativa.
Nessa concepção, o problema central não seria a falta de Estado, mas a ineficiência do Estado organizado em “caixinhas”. A solução não seria ampliar a burocracia pública, e sim transferir progressivamente funções de coordenação social para infraestruturas digitais operadas por redes privadas de tecnologia, dados e inteligência artificial.
O Estado, assim, deixaria de ser o principal produtor de serviços e passaria a atuar como orquestrador de plataformas. Identidade digital, pagamentos, logística, educação, saúde, segurança e até mecanismos de participação cívica tenderiam a ser integrados em ecossistemas tecnológicos interoperáveis, frequentemente desenvolvidos ou operados por grandes corporações. A inspiração implícita não é o ministério do século XX, mas a arquitetura da Amazon, do Google, da Meta ou da Palantir constitutiva de sistemas capazes de integrar dados em tempo real, aprender com o comportamento dos usuários e oferecer respostas personalizadas em escala massiva.
A diferença entre essa proposta e a experiência do DOGE (Department of Government Efficiency), conduzida por Elon Musk no início do governo Trump, ajuda a compreender por que a agenda vanceana parece ter maior potencial de avanço. O DOGE nasceu como uma tentativa de aplicar ao governo federal a lógica empresarial das plataformas digitais, com cortes rápidos de gastos, eliminação de estruturas consideradas redundantes, automação de processos e redução drástica da burocracia. A iniciativa ganhou enorme visibilidade, mas encontrou resistência institucional, limites jurídicos, conflitos com o Congresso, disputas internas e dificuldades práticas para substituir funções estatais complexas por soluções tecnológicas imediatas.
Em outras palavras, o DOGE tentou destruir o Estado burocrático de fora para dentro, como se a máquina pública pudesse ser tratada como uma empresa ineficiente sujeita a uma reestruturação corporativa acelerada. O resultado foi uma experiência parcialmente frustrada: muito impacto político e midiático, mas capacidade limitada de reorganizar estruturalmente o Estado.
J.D. Vance parte de um diagnóstico diferente. Em vez de apostar apenas no choque gerencial, sua proposta busca capturar e reconfigurar o Estado de dentro para fora. Não se trata simplesmente de cortar ministérios ou demitir servidores, mas de alterar a arquitetura pela qual o poder público opera. Onde o DOGE enxergava desperdício, Vance enxerga fragmentação. Onde Musk propunha eficiência empresarial, Vance propõe integração algorítmica. Onde o DOGE buscava reduzir o Estado, Vance busca transformá-lo em uma infraestrutura de governança digital articulada às grandes plataformas tecnológicas. Essa diferença é decisiva. O modelo vanceano parece sugerir que a eficiência algorítmica pode substituir parte dos mecanismos tradicionais de deliberação pública. O cidadão tende a ser visto menos como sujeito político e mais como usuário de serviços digitais. Direitos transformam-se em acessos às políticas públicas e suas funcionalidades, à participação democrática concentrada na interação mediada por plataformas.
Na sociedade industrial, o poder derivava do controle do território, da produção material e das instituições nacionais. Na sociedade hiperconectada, o poder desloca-se para o controle das infraestruturas digitais, dos fluxos de dados, dos algoritmos de recomendação, dos sistemas de pagamento, da computação em nuvem e da capacidade de modelar comportamentos. Quando essas infraestruturas são predominantemente privadas, o Estado pode conservar símbolos clássicos de soberania (moeda, polícia, tributação) e ainda assim perder capacidade efetiva de coordenação social.
Para nações do Sul Global, como o Brasil, o desafio é especialmente delicado. O país construiu ao longo do século XX um Estado relativamente sofisticado em áreas como saúde pública, sistema financeiro, estatísticas, eleições eletrônicas e políticas sociais. Essas capacidades foram desenvolvidas dentro da lógica do Estado industrial integrado nacionalmente. Ao mesmo tempo, a sociedade brasileira já vive intensamente conectada por plataformas globais. Grande parte da comunicação, do comércio, do trabalho, do entretenimento e da circulação de informações depende de infraestruturas controladas por corporações privadas estrangeiras.
Configura-se, portanto, uma sociedade herdada do século XXI apoiada em plataformas globais e um Estado cuja lógica organizacional ainda é, em grande medida, a do século XX. A proposta de J.D. Vance funciona, nesse contexto, como um espelho provocador. Ela evidencia que o antigo Estado das “caixinhas” realmente entrou em crise. Mas também coloca uma questão decisiva se a integração digital será construída sob controle democrático e soberano ou sob controle corporativo privado transnacional?
A alternativa não precisa ser entre imobilismo burocrático e tecnocracia privatizada. O desafio parece estar mais associado à construção do Estado em rede de interesse público, interoperável, orientado por dados, capaz de coordenar políticas transversalmente, mas submetido a controle democrático, transparência algorítmica e soberania informacional. Por isso, a grande pergunta não é se o Estado será grande ou pequeno. Essa oposição pertence ao mundo industrial. A pergunta decisiva está em saber quem governará as redes que governam a sociedade?
O antigo Estado das “caixinhas” foi uma resposta histórica bem-sucedida do capitalismo à sociedade urbano-industrial. O DOGE de Musk revelou os limites da simples destruição gerencial da burocracia, enquanto a proposta de J.D. Vance aponta para um Estado-plataforma profundamente integrado às big techs. Com isso, quatro dilemas históricos da atualidade se apresentam em conflitos. De um lado, o Estado industrial perseguido pelo choque gerencial neoliberal e, mais recentemente, a integração algorítmica privada-corporativa. De outro, a disputa central do século XXI em torno da construção de um Estado em rede pública, democrático e soberano, capaz de utilizar o poder dos dados sem entregar a direção da vida coletiva aos algoritmos do capital global.
Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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