8 de julho de 2026

Do risco das veias abertas ao projeto de Nação Soberana, por Marcio Pochmann

Pela primeira vez, em décadas, a fronteira do crescimento já não coincide com a geografia que estruturou a industrialização nacional.
Reprodução

O centro econômico do Brasil desloca-se do litoral para o interior, com crescimento em regiões como Mato Grosso e Goiás.
O Brasil passa a ser um território bioceânico, com novas rotas para o Pacífico e integração sul-americana em expansão.
Essa mudança pode provocar nova geopolítica nacional, com maior protagonismo político das regiões interiores.

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Do risco das veias abertas ao projeto de Nação Soberana

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por Marcio Pochmann

Toda grande transformação econômica produz uma nova geografia do poder nacional. Foi assim quando a economia açucareira nordestina perdeu centralidade para a mineração, quando o café deslocou o centro de gravidade do país para o Sudeste e quando a industrialização consolidou o Brasil urbano em torno do dinamismo de São Paulo ao longo do século XX.

Neste primeiro terço do século XXI, contudo, o país parece viver mais uma dessas inflexões históricas. Trata-se de uma mudança econômica com fortes implicações geopolíticas internas. A questão é simples na aparência, porém explosiva em suas consequências diante do centro dinâmico do Brasil estar se deslocando novamente.

Os sinais da evolução do Produto Interno Bruto de estados e municípios, assim como da dinâmica demográfica das últimas décadas, indicam uma gradual transformação geoeconômica silenciosa e profunda. O interior do país vem se tornando mais dinâmico economicamente e, em muitos casos, também mais atrativo do ponto de vista populacional.

Enquanto diversas regiões litorâneas convivem com a estagnação econômica, desindustrialização, envelhecimento populacional e perda relativa de participação no produto nacional, uma nova geografia da acumulação de capital avança pelo interior do território nacional. Depois de mais de três décadas de hegemonia neoliberal, o Brasil foi empurrado para uma significativa especialização produtiva. A indústria perdeu centralidade, cadeias produtivas foram desarticuladas e parte importante do dinamismo econômico deslocou-se para atividades ligadas ao agronegócio, mineração, produção de energia e logística de exportação.

Esse movimento produziu paralelamente novos enclaves de prosperidade econômica ao longo do território, sobretudo na parte oeste. Do interior paulista ao norte do Paraná, do oeste de Santa Catarina ao Mato Grosso do Sul, de Goiás ao Mato Grosso, avançando depois para Tocantins, oeste baiano, sul do Maranhão, sul do Piauí e partes da Amazônia, consolidou-se um novo corredor de expansão econômica, em sua maior parte voltada ao mercado externo.

Pela primeira vez em muitas décadas, a fronteira do crescimento brasileiro já não coincide com a geografia que estruturou a industrialização nacional. Trata-se de uma mudança de enorme significado histórico.

O Brasil urbano e industrial, organizado em torno das regiões litorâneas do Atlântico, parece ter entrado em um processo de esgotamento relativo. Em seu lugar, emerge um Brasil continental, que coloca em dúvida a permanência dominante do Brasil Atlântico.

Desde a Colônia, o país viveu voltado para o Atlântico. Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Santos foram muito mais que cidades portuárias. Foram lugares onde a riqueza se encontrava com o poder.

Quando o Nordeste era o centro econômico, Bahia e Pernambuco exerciam enorme influência política. Quando a mineração das gerais emergiu, o Rio de Janeiro tornou-se a capital do Império e da República. Mas foi o alastramento do café do Rio de Janeiro para o oeste paulista em concomitância com a ascenção da indústria que tornou São Paulo no centro do novo Brasil urbano-industrial no século XX.

O golpe de 1964 representou o auge desse processo. Pela primeira vez na história nacional, a economia, finanças, burocracia estatal e planejamento encontraram-se simultaneamente concentrados em torno do eixo São Paulo-Brasília.

Mas nenhuma centralidade se mantém para sempre. A desindustrialização, a ascensão asiática e a crescente demanda mundial por alimentos, energia e minerais passaram a produzir uma nova reorganização territorial no Brasil.

O centro dinâmico da economia mundial se desloca do Atlântico Norte. O Pacífico ganha importância com a ascensão asiática. Como consequência, a geografia econômica brasileira também vem sendo impactada por mudanças importantes.

As rotas de integração sul-americana e os corredores bioceânicos atualmente em curso podem representar uma das maiores transformações estratégicas desde a abertura dos portos, em 1808. Pela primeira vez em cinco séculos, o Brasil passa a olhar simultaneamente para o Atlântico e para o Pacífico.

O horizonte geográfico da economia nacional muda de direção. O país deixa de ser apenas atlântico e passa a se projetar como território continental bioceânico, com saídas para o Pacífico. Há algo profundamente histórico nesse movimento. Em nova escala, ele pode ser comparado à antiga Marcha para o Oeste protagonizada por Getúlio Vargas.

Mas há uma diferença decisiva. Aquela marcha era parte de um projeto de construção nacional. A atual é impulsionada, em grande medida, pelas forças do mercado mundial. Um de seus motores é a demanda asiática, associada à reascensão do modelo primário-exportador. Seu instrumento são os corredores de integração continental.

Mas os riscos são enormes. A nova prosperidade do interior pode repetir os erros como por exemplo da velha urbanização brasileira. As metrópoles do litoral cresceram produzindo periferias, desigualdades, segregação socioespacial e profunda fragmentação social. As novas fronteiras econômicas já começam a reproduzir fenômenos semelhantes: especulação fundiária, expansão desordenada das cidades médias, pressão sobre a infraestrutura urbana e novos processos de periferização.

O Brasil corre o risco de também deslocar geograficamente as suas contradições históricas. As periferias do litoral podem transformar-se nas periferias do interior. Mesmo assim, há algo de revanche histórica nesse processo. Há mais de um século, Euclides da Cunha identificou a existência de dois Brasis tendo, de um lado, o litoral moderno, integrado ao mundo e detentor do poder e, de outro, o sertão distante, abandonado e desconhecido pelas elites nacionais.

Durante o século XX, a industrialização pareceu enterrar definitivamente essa interpretação. Mas talvez seja justamente agora que ela recupere extraordinária atualidade. O Brasil de Euclides da Cunha não desapareceu. Ele está sendo invertido. O sertão deixou de ser apenas espaço de atraso relativo e tornou-se uma das regiões mais dinâmicas da economia nacional. Já parte do antigo Brasil litorâneo enfrenta desindustrialização, perda de protagonismo econômico e estagnação relativa.

As desigualdades permanecem. Mas o sinal histórico mudou com o dinamismo emergente de parte do interior do país. O velho Brasil do poder continua, em larga medida, no litoral. Mas surge uma nova dissociação nacional: a distância crescente entre a geografia da produção e a geografia do poder. Nesse sentido, a questão formulada por Euclides da Cunha permanece viva.

No início do século XX, perguntava-se como integrar o sertão ao Brasil. Neste primeiro terço do século XXI, talvez seja necessário perguntar como integrar o velho Brasil Atlântico ao novo Brasil continental que emerge com saídas para o Pacífico. Estaria, assim, em formação uma nova geopolítica nacional? Toda grande mudança geoeconômica produz, mais cedo ou mais tarde, uma nova geopolítica. A decadência do Nordeste alterou o Império. A ascensão do café produziu a República oligárquica. A industrialização deu origem ao Estado desenvolvimentista. O que produzirá a continentalização da economia brasileira?

As regiões que concentram a nova riqueza tenderão a buscar maior protagonismo político, maior representação institucional e maior influência sobre as decisões nacionais. Com isso, o pacto federativo deve ser ainda mais pressionado, enquanto novas centralidades urbanas poderão emergir.

Também os novos interesses econômicos disputarão o comando do Estado. Talvez se esteja prestes a assistir à terceira grande reorganização territorial do Brasil desde a Independência. A primeira foi a passagem da centralidade do Nordeste para o Sudeste, seguida pela segunda que emergiu da construção de Brasília e da integração nacional promovida pelo desenvolvimentismo. A terceira pode estar surgindo agora, com a emergência do Brasil bioceânico, continental e voltado também para o Pacífico.

Nada disso, porém, é inevitável. A nova geoeconomia pode apenas reproduzir uma economia de enclaves primário-exportadores e novas formas de dependência externa. Mas também pode abrir a possibilidade de um novo projeto nacional, baseado na reindustrialização verde, na integração sul-americana, na soberania energética e em uma inserção internacional mais autônoma.

O Brasil mudou historicamente o lugar de seu dinamismo interno. Por isso, a pergunta decisiva é se sua política na atualidade terá capacidade de mudar junto com ele. Porque, se a geografia da riqueza já se deslocou, a geografia do poder talvez esteja apenas começando a se mover.

Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

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