30 de julho de 2026

Como a ciência virou ferramenta da própria desinformação que ela deveria combater

Para justificar o movimento antivacina, artigos foram produzidos a partir de informações publicadas em periódicos predatórios, mas outros assinados por pesquisadores reconhecidos em suas áreas

Estudo do INCT-CPCT mostra grupos antivacina no WhatsApp usam artigos científicos para sustentar desinformação.
Grupos criam “especialistas alternativos” e polêmicas artificiais para atrasar regulações e lucrar com falsas curas.
Mudanças em plataformas digitais e IA geram queda no tráfego jornalístico, favorecendo redes de desinformação.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um estudo sobre a articulação de grupos antivacina no WhatsApp durante a pandemia de COVID-19 revelou um padrão que surpreendeu pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT): apesar de rejeitarem abertamente a vacinação, a maior parte das mensagens analisadas recorria a artigos científicos para sustentar suas posições, muitos deles publicados em periódicos predatórios, mas outros assinados por pesquisadores reconhecidos em suas áreas.

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A descoberta, apresentada em mesa-redonda sobre a economia da desinformação científica na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói, mudou a forma como o grupo passou a entender esse fenômeno. Segundo Marcelo Alves dos Santos Júnior, professor da PUC-Rio e um dos coordenadores da pesquisa, rótulos como “negacionismo” ou “anticiência” já não dão conta de explicar essas comunidades: em vez de negar a ciência, elas se apropriam do seu vocabulário e de sua estrutura discursiva para validar crenças e teorias conspiratórias.

Uma fábrica de incertezas

Para Thaiane Moreira de Oliveira, professora da UFF e integrante do INCT-CPCT, a eficácia dessa estratégia está em manipular mecanismos que são, paradoxalmente, essenciais ao método científico, como a própria noção de controvérsia. Grupos organizados usam esse recurso para forjar “especialistas alternativos” e bancar polêmicas artificiais, atrasando regulações ou empurrando produtos ineficazes, inclusive com falsas promessas de cura para doenças graves.

Oliveira descarta a ideia de que o fenômeno decorra de uma crise de confiança na ciência, pesquisas de percepção pública mostram que o Brasil está entre os países mais confiantes no meio científico do mundo. O problema, segundo ela, é outro: uma crise de legitimidade sobre quem tem autoridade para falar em nome da ciência. É nesse espaço vazio que florescem falsos especialistas. Como resumiu a pesquisadora, esse tipo de desinformação não gera apenas crenças equivocadas, mas movimenta mercados inteiros, com atores e interesses econômicos concretos por trás.

“Síndrome pós-spike”

O jornalista Bernardo Costa, do Estadão Verifica, trouxe à mesa um exemplo prático desse modelo de negócio. Ele apurou como médicos e grupos antivacina inventaram a chamada “síndrome pós-spike”, condição sem qualquer respaldo científico. A alegação era a de que vacinas de mRNA contra a COVID-19 levariam o organismo a produzir indefinidamente a proteína spike do vírus, causando uma espécie de intoxicação crônica.

Para dar aparência de legitimidade à tese, os responsáveis publicaram um relato de caso em uma revista científica, posteriormente retratado por falta de evidências, usado como prova nas redes sociais para atrair pacientes. O esquema rendia consultas de R$ 3,6 mil, com filas de espera de até cinco meses, além de cursos on-line pagos que prometiam expor a “verdade oculta” sobre as vacinas. Como observou Costa, tratava-se de desinformação que funcionava exatamente como planejado: dando lucro.

Lucros com a mentira

Santos Júnior atribui parte desse cenário à própria lógica econômica das plataformas digitais, que deslocou o controle financeiro da informação dos veículos de comunicação para as grandes empresas de tecnologia. Se antes marcas negociavam diretamente preços de anúncios com jornais e revistas, hoje esse processo é mediado por algoritmos de publicidade programática, e são as big techs que definem quanto vale um espaço publicitário, não mais os veículos jornalísticos.

Essa mudança substituiu um modelo de publicidade ancorado na credibilidade editorial por outro baseado em rastreamento de comportamento do usuário via cookies e vigilância comercial. O resultado é um incentivo perverso: como é mais barato atingir um consumidor em um site de entretenimento duvidoso do que no portal de um grande jornal, o sistema publicitário acaba favorecendo conteúdo de baixa qualidade. “É muito mais barato para o algoritmo rentabilizar a informação de baixíssima qualidade do que a informação de um grande jornal”, resumiu o pesquisador, para quem a desinformação deixou de ser uma falha do sistema e passou a ser o modelo que o sustenta.

IA generativa

A chegada da inteligência artificial generativa aos mecanismos de busca agrava ainda mais esse quadro, no que Santos Júnior chama de “efeito clique zero” ou “Google Zero”. Ao gerar resumos automáticos de notícias diretamente na página de resultados, essas ferramentas eliminam a necessidade de o usuário acessar a reportagem original, provocando quedas de tráfego que já variam entre 40% e 60% nos sites jornalísticos, com projeções de chegarem a zero.

Esse esvaziamento do tráfego compromete o que restava do modelo de negócio digital do jornalismo profissional, abrindo espaço para que redes de desinformação, mais ágeis e baratas de operar, ocupem o vácuo informacional deixado para trás.

Menos rede social, mais controle algorítmico

Nina Fernandes dos Santos, professora da UFBA, chamou atenção para outra mudança estrutural: as redes sociais deixaram de funcionar como espaços de sociabilidade entre pessoas para se tornarem sistemas guiados por recomendação algorítmica, o que amplia o poder das big techs sobre o que é ou não visto pelo público. Segundo ela, essa concentração de poder sobre a circulação da informação está cada vez mais nas mãos das próprias plataformas.

Como caminho possível, a pesquisadora defende a busca por novas formas de ocupar e se apropriar do espaço digital, diferentes das que prevalecem hoje, um desafio que, segundo ela, ainda está em aberto.

*Com informações da Agência FAPESP.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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