Os dilemas do PT, por Luis Nassif

Foto Adonis Guerra

O PT está enfrentando o seguinte dilema:

Apesar de todos os percalços, continua sendo o partido de esquerda mais estruturado, mais popular e com maior penetração no sindicalismo e nos movimentos sociais. E possui a maior liderança popular do país, Lula.

A prisão de Lula promoveu um pacto inédito entre os partidos de esquerda. Por outro lado, cada qual procura se viabilizar. E aí, se esbarra na grande incógnita: a candidatura de Lula a presidente.

Do lado do arco do golpe há um esforço ingente para isolar o PT e Lula. Do lado dos aliados, a dúvida: ficar com o PT, caso a candidatura Lula se viabilize; ou montar estratégias visando se apropriar da herança petista?

A candidatura de Lula será mantida a ferro e fogo por vários motivos.

O primeiro, é que qualquer movimento gera ataques especulativos ao PT e exposição desnecessária não só do PT mas dos movimentos em geral.

O segundo, porque a saída de Lula deflagraria uma guerra interna, no próprio PT, de consequências imprevisíveis, por não haver consenso nem sobre o nome do partido que segurará o bastão, nem sobre o nome fora do partido que vier a ser apoiado.

O terceiro, porque reforçaria a tentativa dos aliados de tentar tirar do PT qualquer protagonismo, inclusive com exigências de abrir mão da cabeça de chapa, além de significar a desmobilização dos movimentos sociais e de todos os grupos inspirados pelo lulismo.

A ideia básica é inscrever Lula candidato e levar a candidatura até o fim, mantendo a mobilização e o seu cacife eleitoral. Candidato, Lula poderá participar do horário gratuito, ou com seu discurso atual ou, na impossibilidade, com vídeos já gravados e depoimentos de terceiros. Nessa hipótese, seria eleito e caberia ao STF (Supremo Tribunal Federal) o ônus de impedir a posse.

Há confiança na vitória de Lula, baseados nos três vetores principais para a definição do votos.

O primeiro vetor é o econômico, talvez a principal dimensão do voto. Ali, Lula e PT nadam de braçadas graças aos anos de ouro da economia.

O segundo vetor é a dimensão dos valores. O PT e Lula já estiveram em situação bem pior. Com a perseguição a Lula, e a blindagem dos adversários, houve uma comoção que reverteu parte do desgaste. Nesse campo, a direita não ganha mais.

Finalmente, na dimensão política, o PT avançou nas coligações e frentes.

Por outro lado, há a possibilidade de que a candidatura de Lula seja inviabilizada. E, aí, haveria um tempo exíguo para montar uma segunda estratégia.

Há convicção interna de que o PT não se isolou da frente de esquerdas. Com o centro, não há espaço para conversa. Mas com a esquerda, sim, inclusive passando por cima de mágoas recentes, com o PDT, que teve vários deputados votando a favor do impeachment, e com o PSB, que fechou questão pró-impeachment.

Por outro lado, a Fundação Perseu Abramo conseguiu convencer fundações dos partidos aliados a esboçar um mini-programa com ideias consensuais. Só não se transformou em manifesto mais expressivo porque o PSB ponderou que acordos não deveriam ser apenas programáticos, mas políticos, conduzidos pelos partidos.

 

94 comentários

  1. Nomes apenas.

    Incrível como parece que ninguém deu bola para o último parágrafo do post! Nos comentários só se discute sobre nomes! Copia-se a estragégia da direita: “Derruba a Dilma e depois a gente vê o que fazer”. Aqui vale o “elege o Lula ou quem ele indicar e depois a gente vê como governar”!

    • Resolve se PT, PSol e PCdoB elegerem 1/3 da Câmara.

      O pulo do gato contra o golpe é a esquerda real (PT, PSol, PCdoB, e quem dera PCO, PCB) fazer 1/3 da Câmara (PDT e PSB não contam como correlação de forças porque podem aderir a qualquer lado vencedor, direita ou esquerda).

      1/3 da Câmara basta para convocar plebiscitos e referendos, enquadrando até as “reformas constitucionais” do Barroso no STF.

      1/3 da Câmara barra impeachment.

      1/3 da Câmara barra lawfare contra o presidente eleito (como o próprio Temer conseguiu).

      Isso se ganhar também a presidência da república. E com esse apoio basta para a bancada do “soy bobierno, soy a favor” aderir ao governo e dar governabilidade, sem fazer tanto estrago como no passado, pois basta 1/6 de fisiológicos para completar maioria simples.

      Se perder, continua com força, pois continua convocando plebiscitos e referendos para impor reformas ou barrar retrocessos. Continua com força para abrir CPI’s.

      Então candidatura a presidente boa é aquela que ajuda a eleger pelo menos esse quórum GENUINAMENTE de esquerda, legalista e anti-golpe. Lula candidanto, mesmo preso como mártir, ajuda. Um candidato que represente o Lula-13 ajuda.

      A esquerda real apoiar o Ciro atrapalha, pois deixa fora da campanha uma liderança para puxar votos para a esquerda, causa desalento no eleitorado lulista, cujos votos são dispersos, inclusive para a direita. Para piorar ele vai se coligar com mais partidos de direita e obrigando a esquerda a disputar votos dentro da coligação misturado com o centrão. 

        • Você esteve em Marte nos últimos 4 anos?

          Qualquer dono de padaria toma decisões diferentes, diante de situações diferentes (ex: tempos de fartura ou de crise). Na política também ( até o fato de estar na situação ou oposição via urnas muda a conjuntura, então muda completamente quando há um golpe).

          De 2003 a 2013 houve avanços para a classe trabalhadora, pobres ascenderam socialmente, a soberania nacional sobre o pré-sal foi conquistada com o Marco Regulatório do Petróleo, a institucionalidade democrática (com todos seus defeitos) foi respeitada, o resultado das urnas foi respeitado, e um partido de esquerda encabeçou alianças com a direita que controlava o parlamento para alcançar essas conquistas.

          De 2014 pra cá foi o contrário do parágrafo anterior.

    • Elege Ciro e depois deixa o golpe governar o Ciro?

      É o contraponto a sua última frase.

      Não é alternativa abandonamos nossa campanha Lula-13 de oposição ao golpe (Ciro é oposição à Bolsonaro e a Temer, mas não é ao lavajatismo e está devendo convencer que é oposição de fato ao continuismo do núcleo golpista Globo-Itaú- Curitiba-Washington. Até agora ele se coloca no máximo como “conciliador” com esse golpismo).

      Do que adianta apoiar Ciro para, se ganhar, ser oposição já no dia da posse? Se é para ser oposição, que se lute para ser uma oposição forte em vez de render-se a ser oposição fraca, ou pior, trair o povo aderindo a um governo de continuidade ao golpe.

       

  2. Um bom post torna-se ruim ao se o ver por outro lado

     

    Luis Nassif,

    Salvo os parágrafos finais, este teria sido um bom post. No entanto, como parece-me que não tem serventia trazer o apoio à candidatura de Ciro Gomes como parte do dilema do PT, você insiste em um tema que só lhe faz mal.

    É certo que o PT apoiará Ciro Gomes no segundo turno, salvo se no segundo turno se tenha uma candidatura da esquerda além de Ciro Gomes e que esta candidatura com o apoio do PT tenha possibilidade de vitória ou em outra extremidade salvo se Ciro Gomes não for para o segundo turno.

    É por se dedicar a focar a estratégia do PT no primeiro turno, dentro de uma postura pró Lula que se mantém até o final é que eu considero bom este post. Sobre esse ângulo este post deveria fazer parte do seu post “Xadrez da era Lula e do pós-Lula, por Luis Nassif” de quarta-feira, 09/05/2018, às 11:07, que pode ser visto aqui no seu blog no seguinte endereço:

    https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-era-lula-e-do-pos-lula-por-luis-nassif

    E do post “Xadrez da era Lula e do pós-Lula, por Luis Nassif” deveria ser retirado aquelas partes ruins que apareceram como um “Deus ex-machina” para tentar abordar um assunto sob um ponto de vista diferente, mas que não se demonstra ser nem ponto de vista nem diferente.

    O defeito que eu avalio existir nesses posts mais recentes decorre de você trazer a opção Ciro Gomes como uma alternativa para o PT para o primeiro turno. Considero que você faz isso apenas para puxar polêmica, porque qualquer pessoa com um mínimo de vivência na política sabe que Ciro Gomes vai ter que puxar voto na direita e o PT não pode perder no primeiro turno a grande oportunidade de crescimento na base parlamentar do partido.

    E para criar a polêmica você perde até no estilo. Ao insistir no por outro lado, reproduzindo-o duas vezes e onde não existia por outro lado nenhum, você só prestou para me lembrar da história que teria acontecido com Carlos Lacerda diante de um texto de um foca ou um estagiário em que havia as expressões “via de regra” e “por outro lado”. Carlos Lacerda contrariado com aquele estilo mambembe ralhou o foca dizendo: “via de regra foi por onde você veio ao mundo e por outro lado é para onde eu vou te mandar”.

    Querer trazer Ciro Gomes para dentro dos dilemas do PT é forçar os acontecimentos a entrarem em raia que não lhes são próprias. O PT não tem alternativa a não ser insistir com Lula, ainda que ele esteja preso e ainda que o STE não permita a inscrição. No último momento o Partido muda o candidato. E para o primeiro turno não há alternativa fora de ser alguém do PT.

    E não pode ser mulher, em razão do trauma decorrente da forma como a população analisa o governo da ex-presidente às custas do golpe Dilma Rousseff, nem pode ser Fernando Haddad, em razão de ele ter um perfil mais voltado para conciliar o PT de São Paulo com a revolta de 32, o que não é evidentemente um perfil ajustado para uma candidatura nacional.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 12/05/2018

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