10 de junho de 2026

Não confundir: desenvolvimento financeiro e financeirização são coisas distintas, por Norberto Montani Martins

Financeirização caracterizaria um novo estágio do capitalismo ou seria apenas a expressão de fenômenos imanentes à acumulação capitalista?

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Não confundir: desenvolvimento financeiro e financeirização são coisas distintas

por Norberto Montani Martins

Se fosse preciso sintetizar em poucas palavras o que é o fenômeno da financeirização, poderíamos defini-lo como o processo marcado por mudanças institucionais associadas à forma de produzir, valorizar e redistribuir a riqueza no capitalismo que preconizam a dominância financeira. A financeirização ganha contornos distintos em diferentes jurisdições, mas tem em comum a primazia da acumulação de ativos e valorização da riqueza financeira, que passa a submeter o processo econômico a uma lógica própria, alheia ao que se passa na economia “real”.

Na literatura sobre o tema, há um debate acerca do ineditismo dos processos associados à financeirização do capitalismo. Notadamente, a questão que se coloca é se a financeirização caracterizaria um novo estágio do capitalismo ou se seria apenas a expressão de fenômenos imanentes à acumulação capitalista. Economistas do campo heterodoxo como Cédric Durand e Yanis Varoufakis vão mais longe e indagam se a prevalência dos rendimentos derivados dos direitos de propriedade na produção da riqueza não estaria apontando para o fim do modo de produção capitalista, cuja expansão ampliada se deu através da produção, gerando lucro e explorando o trabalho.  Há diversas formas de responder a essa pergunta, com elementos favoráveis a esta ou aquela interpretação e a depender da filiação teórica do respondente.

De forma ilustrativa, podemos rememorar que o jornal britânico Financial Times passou a circular na City de Londres em 13 de fevereiro de 1888. No canto esquerdo superior da primeira edição da publicação, o jornal se autoproclamava “amigo do financista honesto, do investidor idôneo, do corretor respeitável, do diretor genuíno e do especulador legítimo”. A ascensão dessas figuras no principal centro financeiro do mundo à época indicava que o capitalismo passava por transformações profundas, com maior prominência das finanças.

A ascensão das finanças desde então é um fenômeno que perpassou a evolução do capitalismo. Houve momentos em que esse processo correu sem amarras, como nos anos que antecederam a Grande Depressão de 1929, e momentos em que as finanças cresceram com a mediação do Estado, consubstanciada na existência de instituições financeiras públicas, de maiores amarras regulatórias e maior controle sobre as práticas financeiras, como na experiência do pós-2ª Guerra Mundial nos países do centro.

Notadamente, existiu um momento na história do capitalismo em que o movimento do sistema capitalista e a ampliação do sistema financeiro foram acompanhados de uma melhora expressiva da vida das pessoas, ainda que esse processo tenha sido limitado a determinados espaços geográficos. Foram os chamados trinta anos gloriosos do contrato social fordista, em que o bem-estar social se ampliou como fruto do maior crescimento econômico, da melhor distribuição de renda e de um conjunto de políticas que associavam estabilidade econômica com segurança e prosperidade.

Já nas últimas quatro décadas, o movimento do sistema capitalista e aprofundamento das finanças levou a crises sucessivas, primeiro na periferia emergente, depois dentro das fronteiras de Wall Street e do centro desenvolvido, entremeadas por breves suspiros de crescimento econômico, muito aquém dos patamares do pós-guerra. Resultou também numa emergência climática de grandes proporções e que será difícil superar caso assumamos a reprodução do status quo.

Mesmo a pandemia de covid-19 pode ser interpretada como um subproduto do atual estágio do sistema capitalista, como o faz Bruno Therét. O autor sugere que a covid-19 só se tornou um problema global e sistêmico devido às políticas de austeridade por anos a fio e a mudanças nos objetivos e nas práticas de gestão pública que minaram os sistemas de saúde pública ao redor do globo.

Portanto, se inspirar no passado não é mero exercício de saudosismo, tampouco reacionarismo, como sugeriu o professor Fernando Nogueira da Costa, em artigo recente nesse jornal. Não se trata de “resistir” à evolução do complexo sistema capitalista, mas de tentar moldar como a evolução desse sistema toma forma, de modo a assegurar que seus resultados não sejam destrutivos para as sociedades – e o planeta.

Podemos compreender a financeirização como uma potencialidade do capitalismo, inerente à sua lógica de funcionamento, como já iluminavam Marx, Luxemburgo, Schumpeter, Keynes, Robinson, Minsky, Sweezy, entre vários outros, mas que pode se manifestar de diferentes formas de acordo com as características institucionais da ocasião. As finanças estão no âmago do capitalismo, mas a maneira pela qual o processo de acumulação se relaciona com ela vai depender da atuação do Estado e da definição das formas institucionais presentes.

Nesse sentido, é fundamental não confundir o que é desenvolvimento financeiro – um fenômeno evolucionário – e o que é financeirização, nos moldes descritos acima. Analisar criticamente a financeirização não implica rejeitar os benefícios de inovações como o Pix, sistema de pagamentos instantâneos, que facilitou a realização de pagamentos e a vida cotidiana das pessoas. Tampouco implica rejeitar o uso do crédito, seja como meio de pagamento, seja como dispositivo para suavizar as trajetórias de consumo e viabilizar a aquisição de bens de alto valor, porém certamente não como mecanismo de financiamento da subsistência mais imediata das pessoas.

Criticar a financeirização tem sim um elemento de “restauração do passado”, mas muito específico: a busca pela restauração de um processo de acumulação que incorpore a evolução nas práticas financeiras e na tecnologia, mas que beneficie as sociedades, com melhores condições materiais, maior bem-estar e menos insegurança em relação ao futuro.

Não se trata de retomar as mesmas práticas e instituições dos trinta anos gloriosos, que, certamente, no presente, seriam insuficientes para entregar os resultados almejados. Trata-se de pensar em novas formas institucionais, novas formas de regulação, novas maneiras de produzir, valorizar e redistribuir a riqueza para fabricar um tecido social mais justo, sem destruir o planeta.

É sobre esse desafio que o recém-lançado livro Financeirização: crise, estagnação e desigualdade (Editora Contracorrente e Centro Internacional Celso Furtado, 2024) se debruça. A obra reúne contribuições de 66 autores em 35 capítulos com o intuito de discutir criticamente o avanço da financeirização sob os mais diversos aspectos, no campo macroeconômico, das políticas públicas à gestão da vida cotidiana. Como pontua o professor Carlos Vainer, em generosa resenha, o livro empreende esforços para desenvolver um pensamento crítico que ilumine caminhos para um futuro mais próspero e solidário.

Norberto Montani Martins – Professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Observatório do Sistema Financeiro.

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O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Twitter: @Finde_UFF

Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas. O grupo objetiva estimular o diálogo e interação entre Economia e Política, tanto na formulação teórica quanto na análise da realidade do Brasil e de outros países. Twitter: @Geep_iesp

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