A história se repete
por Bruno Fabricio Alcebino da Silva
Um candidato à presidência sofre um atentado e gera alvoroço, mas, ops, não estamos falando de 2018, quando Jair Bolsonaro foi alvo de um ataque, mas sim de julho de 2024 e do republicano Donald Trump. A história se repete: Bolsonaro e Trump compartilham uma trajetória similar, sendo ambos candidatos de extrema direita, apoiadores de tentativas de golpe em seus respectivos países e acusados de diversos crimes (com Trump, inclusive, já condenado). Karl Marx, em sua famosa frase, “A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, oferece um prisma adequado para analisarmos os atentados sofridos por Bolsonaro e Trump, eventos que, embora separados por tempo e espaço, compartilham notáveis semelhanças e consequências políticas.
Em 6 de setembro de 2018, Jair Bolsonaro, então deputado federal e candidato à presidência do Brasil, sofreu um atentado durante um comício em Juiz de Fora, Minas Gerais. No meio de uma multidão de apoiadores, Bolsonaro foi esfaqueado na região do abdômen por Adélio Bispo de Oliveira. Imediatamente levado à Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, Bolsonaro passou por uma cirurgia de emergência. Adélio foi preso em flagrante e, após investigação, a polícia concluiu que ele agiu sozinho, sem orientação de um mandante.
Esse ataque teve um impacto profundo na campanha de Bolsonaro. A comoção pública gerada pelo atentado blindou o candidato de críticas mais duras e diminuiu as pressões para que ele participasse de debates, algo que poderia ter prejudicado sua posição política. A imagem de Bolsonaro como uma vítima de violência política ressoou fortemente com o eleitorado, ajudando a consolidar sua base de apoio e pavimentar seu caminho para a presidência.
De maneira alarmantemente semelhante, ontem (13 de julho), Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos e candidato nas atuais eleições presidenciais, foi alvo de um atentado durante um comício na Pensilvânia. Embora os detalhes ainda estejam emergindo, o impacto político do ataque já é perceptível. Assim como Bolsonaro, Trump é uma figura polarizadora, e o atentado reforça a narrativa de perseguição política que ele vinha promovendo desde sua condenação em um processo judicial vinculado à campanha presidencial de 2016, em maio deste ano.
A semelhança entre os dois eventos não se limita apenas ao ato violento em si, mas também às suas consequências políticas. No caso de Bolsonaro, o atentado ocorreu em um momento em que ele enfrentava duras críticas e um desempenho desastroso em debates. O ataque desviou o foco das críticas e permitiu que Bolsonaro evitasse confrontos diretos com outros candidatos, fortalecendo sua posição como o candidato anti-establishment que prometia mudanças radicais.
Da mesma forma, o atentado contra Trump ocorre em um cenário político tumultuado. Joe Biden, o atual presidente, enfrenta crescentes questionamentos sobre sua capacidade cognitiva e desempenho político. Durante o primeiro debate presidencial, ele cometeu deslizes significativos e perdeu de forma clara para o republicano. Além disso, em uma coletiva na última semana, confundiu sua vice-presidente Kamala Harris com Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, com Vladimir Putin, no último dia da cúpula da OTAN. Esses erros alimentaram a percepção de que Biden é incapaz de liderar o país, uma visão que foi exacerbada pela pressão de financiadores de sua campanha que pedem sua retirada da disputa.
O atentado contra Trump, assim como o ocorrido com Bolsonaro, pode privar os democratas de uma de suas principais plataformas de campanha: a crítica direta e incisiva a um candidato com muitos pontos fracos. Com Trump agora visto como uma vítima de violência política, ou seja, um mártir, qualquer ataque verbal mais duro por parte dos democratas poderia ser interpretado como insensível e cruel, reduzindo ainda mais a eficácia de suas críticas. A declaração de solidariedade de Biden a Trump e a tentativa de culpar a retórica agressiva dos democratas pelo ataque mostram como o evento mudou drasticamente o tom da campanha.
Além disso, a imagem de Trump, ensanguentado mas desafiador, amparado pelos agentes do serviço secreto com a bandeira dos Estados Unidos ao fundo, ressoa fortemente entre seus apoiadores, lembrando a icônica pintura “A Liberdade guiando o povo” de Delacroix. Esse visual é exatamente o que uma campanha deseja transmitir: a imagem de um líder resiliente e indomável, enfrentando adversidades imensas. Relatos indicam que um dos apoiadores de Trump afirmou logo após o atentado: “Trump está eleito. Ele é um mártir.” Assim, pouco importa se Biden continuará ou não na disputa; a recente movimentação revela um apoio irrestrito dos republicanos, consolidando a figura de Trump como o herói americano.

A história, ao se repetir, sublinha a fragilidade das democracias frente às retóricas forjadas. Os atentados contra Bolsonaro e Trump não apenas infligiram danos físicos, mas também tiveram ou podem ter profundos impactos políticos, favorecendo aqueles que melhor encenam suas narrativas. Transformar a violência em um instrumento de campanha demonstra como a política pode ser manipulada para conquistar simpatia e apoio popular, desviando o foco das questões substantivas e permitindo que figuras controversas se apresentem como mártires injustiçados.
Assim, enquanto Marx nos lembra que a história se repete, os atentados contra Bolsonaro e Trump servem como um sombrio lembrete de como a tragédia e a farsa se entrelaçam, moldando o destino das nações e destacando a necessidade de vigilância contínua contra as retóricas populistas e suas repercussões.
Essa história já conhecemos
Um candidato sofre um atentado durante a campanha presidencial, gerando comoção pública e transformando-o em uma figura de mártir. Esse novo episódio de violência política ressoa com as cicatrizes de eventos passados e expõe a fragilidade das democracias contemporâneas. Tanto Bolsonaro quanto Trump, figuras controversas da extrema direita, utilizaram os atentados contra eles como ferramentas para moldar suas narrativas políticas, desviando o foco das críticas e fortalecendo suas campanhas.
No caso de Bolsonaro, a comoção gerada pelo ataque blindou-o de questionamentos mais incisivos e galvanizou seu eleitorado em torno de sua figura. Já no caso de Trump, o atentado pode reforçar a narrativa de que ele é alvo de forças poderosas que buscam impedir seu retorno ao poder, uma mensagem que ressoa fortemente com sua base de apoiadores, diga-se de passagem, nacionalistas e defensores de uma agenda populista. Essa retórica de vitimização transforma Trump em um símbolo de resistência, tornando-o ainda mais atrativo para um eleitorado que se sente marginalizado e ameaçado pelas instituições tradicionais. Essa dinâmica revela como eventos de violência podem ser instrumentalizados para solidificar a lealdade e mobilizar a base, destacando a interseção entre tragédia e estratégia política.
A utilização de atentados como retórica política por candidatos de extrema direita não é um fenômeno novo, mas a forma como esses eventos são manipulados para desviar o foco das questões substantivas é digna de análise. No caso de Bolsonaro, a violência física sofrida serviu para justificar sua ausência em debates e eventos públicos, evitando assim exposições que poderiam prejudicar sua imagem. A narrativa de vítima de um sistema corrupto e violento ajudou a solidificar sua posição como o candidato anti-establishment, alguém que estava disposto a enfrentar todos os riscos para mudar o status quo.
Frente a tudo isso, a situação de Biden é particularmente complicada. Desde o início de sua campanha para reeleição, sua capacidade de governar tem sido questionada por críticos e até mesmo por seus próprios financiadores. A perda do primeiro debate presidencial para Trump de forma tão decisiva foi um golpe duro. As gafes cometidas por Biden não apenas enfraqueceram sua posição, mas também levaram a um aumento na desconfiança sobre sua saúde mental e capacidade de continuar no cargo. Isso se refletiu na suspensão de contribuições de doadores importantes, que começaram a pressionar por uma mudança de candidato dentro do partido democrata.
Enquanto isso, Trump capitaliza sobre esses eventos, e utilizará o atentado para desviar a atenção das suas próprias condenações e problemas legais, assim como seu homônimo brasileiro. A imagem de Trump como uma vítima de um ataque violento, compartilhada amplamente nas redes sociais e na mídia, serve para reforçar a lealdade de seus seguidores e atrair simpatia de eleitores indecisos. A foto de Trump com a lateral da cabeça ensanguentada, mas erguendo o punho em desafio, se tornou um símbolo poderoso de sua resiliência e determinação.
Essa estratégia de transformar a violência em uma ferramenta política tem profundas implicações para a democracia. Em ambos os casos, os atentados servem para polarizar ainda mais o eleitorado, criando uma divisão profunda entre aqueles que veem os candidatos como mártires e aqueles que os consideram manipuladores. A utilização da violência para obter vantagem política subverte os princípios democráticos e transforma o discurso político em uma arena de vitimização e retórica inflamável. É triste ver de onde a suposta maior “democracia” do mundo busca suas inspirações.
Bruno Fabricio Alcebino da Silva – Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).
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