
Washington como experimento de centralização estratégica de Trump
por Gisele Agnelli e Luciana Bauer
Poucos episódios revelam com tanta clareza o projeto de poder de Donald Trump em seu segundo mandato quanto a intervenção federal em Washington, DC. Em alguma medida esta ação em curso representa a transformação da capital federal em um laboratório de centralização autocrática, onde se experimentam mecanismos de controle que poderão eventualmente ser replicados em escala nacional.
Primeiro veio a tomada policial da capital política estadunidense, na sequência, a Procuradora-Geral Pam Bondi revogou as restrições que impediam a polícia de Washington de colaborar com o ICE. Não parece uma mera mudança administrativa. Foi uma ruptura institucional: prisões e transferências sem mandado judicial tornaram-se possíveis, em violação direta a uma lei local de 2020 que protegia imigrantes.
Esse movimento só foi viável porque Trump interveio diretamente, assumindo temporariamente o controle da polícia da capital, algo sem paralelo no pós-guerra. O gesto desnuda sua estratégia: explorar o estatuto especial de D.C. (que não é estado, mas distrito sob autoridade federal) para impor sua cidade MAGA modelo. Se funciona na capital, por que não forçar estados “rebeldes”, como Califórnia ou Nova York, a obedecer a ordens federais no mesmo molde?
É importante ressaltar que em agosto, Trump nomeou Jeanine Pirro (ex-juíza, comentarista da Fox News e ícone da direita populista) para um cargo central no aparato jurídico federal: Procuradora-Geral do Distrito de Columbia (endereço da Casa Branca). Pirro é mais uma aliada ideológica fortíssima de Trump, operadora leal e legalista. Sua função: legitimar juridicamente os atropelos institucionais e oferecer respaldo público a medidas que corroem a autonomia de estados, municípios e cortes independentes.

Desde James Madison, o federalismo foi concebido como contrapeso essencial ao poder excessivo da União. Governadores e prefeitos, ao longo da história, contiveram impulsos autoritários vindos de cima. Esse equilíbrio agora está sob ataque direto. Em D.C., Trump demonstrou que pode intervir sem pudor. Com Bondi e Pirro, mostrou que tem a capacidade de transformar exceções em regras. O resultado é um modelo em que o presidente se coloca como juiz supremo da obediência federativa, punindo estados dissidentes e premiando aliados submissos.
Um detalhe interessante dessa engenharia autoritária é a estratégia de “criar a crise para controlar a narrativa”. Ao declarar emergência criminal em Washington e mobilizar a Guarda Nacional, Trump concentrou poder sobre a capital e transformou caos em oportunidade política. É sua tática clássica: fabricar inimigos maiores quando não consegue eliminar adversários diretos, gerar pânico e oferecer-se como solução. Desta forma o “experimento em Washington” pode, eventualmente, ter repercussões e ganhos eleitorais. Trump precisa de símbolos fortes para as eleições de meio de mandato, e o discurso de “lei e ordem” contra imigrantes e elites democratas encaixa-se perfeitamente. A capital, com sua condição híbrida de distrito e sede federal, oferece palco ideal: permite ao presidente exibir poder sem negociar com governadores. Washington é a maquete. Se a experiência vingar, a exceção pode se tornar regra nacional, corroendo um dos pilares mais sólidos da democracia americana: a autonomia federativa.
Um último ponto nevrálgico a considerar na tomada de Washington é um possível impacto sobre as eleições de meio de mandato de 2026. Afinal, a certificação estadual dos vencedores para o Congresso e, sobretudo, a posse dos novos membros da Câmara em janeiro de 2027, ocorrem justamente em Washington, atualmente sob jurisdição federal, que pode ser estendida indefinidamente…. E aqui reside a brecha: é a própria Câmara — e não os estados — que detém a palavra final sobre quem efetivamente assume. Em estados sob controle republicano, bastaria recusar a certificação de democratas vitoriosos, arrastar a disputa para tribunais alinhados e, no limite, transferir a decisão para uma Câmara já sob comando republicano. Mike Johnson, atual presidente da Casa, dificilmente repetiria o gesto de contenção de Mike Pence em 2021. Assim, torna-se uma especulação plausível um cenário em que democratas eleitos sejam barrados na porta do Capitólio, enquanto republicanos contestados sejam empossados, garantindo artificialmente a manutenção do triplo controle (Câmara, Senado e Suprema Corte), todos submetidos à lógica trumpista.
No contexto eleitoral especulado acima, Pirro pode funcionar como a voz autorizada a sustentar publicamente — e nos tribunais — que há “fraudes” ou “irregularidades” em vitórias democratas. Não é apenas judicialização: é a construção de um arcabouço pseudo-legal para justificar um eventual golpe parlamentar no momento da posse. Assim, a tomada de Washington não se limitaria à intervenção policial ou militar.
O que acontece hoje nos Estados Unidos funciona como um “espelho de amanhã”, um reflexo inquietante para países como o Brasil, preocupados com a ascensão da extrema direita. Washington, hoje, é menos capital federal e mais laboratório de centralização autoritária trumpista, onde a lição é clara… onde o federalismo cede, a autocracia avança.
Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.
Luciana Bauer é advogada e fundadora do coletivo climático Jusclima e professora de Filosofia do Direito e Direitos Climáticos.
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