Espanha: O diabo é feio sim, mas será que é grande?
por Gunter Zibell
(A seguir um post sobre a história eleitoral recente da Espanha. Como sempre, não tenho compromisso com neutralidade ou imparcialidade. Meus lados são: a) apoio políticas identitárias; b) prefiro economia liberal; c) tenho ascendência espanhola e pessoalmente não sou a favor do independentismo de Comunidades.)
A ascensão eleitoral da extrema-direita (Vox) na Espanha não é uma exceção em países liberais ocidentais. Já vimos o mesmo fenômeno nos EUA (Tea Party, MAGA), Canadá, França (RN), Alemanha (AfD), Reino Unido (UKIP, Brexit), Itália (FdI, FI, Lega). E também em economias menores, como Suécia, Finlândia, etc.
Muitos são os pontos em comum entre todos esses países:
1) consenso econômico nos anos 1980/1990 a favor do liberalismo (EUA, RU) ou ‘socialismo cor-de-rosa’ (Europa Continental); políticas antíclicas a partir de 2009;
2) envelhecimento da população compensado por grande aumento de imigração (de 5% no início dos Anos 1980 a cerca de 15 a 20% da mão-de-obra atualmente);
3) uso de histeria reacionária (vulgo “guerras culturais”) na propaganda política.
Algumas características do sistema eleitoral espanhol:
1) é semi-distrital, como o da Itália. Cada provincia tem pelo menos 2 deputados, formando 29% da Câmara, só os deputados seguintes são proporcionais aos partidos (o que sempre prejudica aos partidos pequenos ou aos campos muito divididos). Embora não tão radical quanto os sistemas de Reino Unido ou Canadá, não tem 2º turno (França) nem os distritos são divididos para ter a mesma população (EUA). Desse modo, um partido com 40% dos votos válidos pode alcançar 45 a 50% dos deputados. E as províncias menores tendem a ser mais conservadoras, o que fez com que PP+Vox obtivessem agora 48,3% dos deputados com 45% dos votos (menos pior que na Itália, onde Meloni e sua coligação obtiveram mais de 50% com apenas 43%).
2) o país é dividido em 13 comunidades e partidos regionais não precisam atuar nacionalmente. Isso permite que micropartidos elejam 1 ou 2 deputados com apenas 100 mil votos, basta ser o 2º mais votado em uma província pequena (em 2019 “Teruel Existe!” elegeu 1 deputado com apenas 20 mil). Partidos regionais elegem em torno de 10% dos deputados (agora foram 8,0%) e tendem a apoiar o PSOE nacional (centro). Há partidos regionais relevantes e de direita liberal na Catalunha e País Basco, que não obstruem o PP (liberal), só que também não se dão bem com o Vox (que não faria concessões a interesses regionais).
3) apesar da recente (2019) participação do Vox no congresso, o eleitorado espanhol é estruturalmente não conservador. Em 14 eleições, mais duas refeitas, desde 1977, apenas em uma (2011) o PP (ou seus antecessores AP e UCD) obtiveram 50% dos votos válidos. Em geral, a soma de PSOE (centro), partidos de centro-esquerda (eurocomunismo, Podemos, Sumar, etc) e de partidos regionais (de todo o espectro) ultrapassa em cerca de 20% os conservadores (em sua soma liberais + populistas). E isto se repetiu domingo passado. Mas mesmo assim, pelos aspectos e vieses mencionados, o PP (ou seus formadores) montaram 6 (e possivelmente 7 agora) governos.
Considerações que faço:
1) o absenteísmo é uma pena, mas não necessariamente é negativo para humanistas ou está piorando. As eleições mais recentes tiveram apenas 65% de votos válidos (participação), mas isso não é tão menor que os 68 a 78% de toda uma história de 46 anos.
2) a imigração recente, como em outros países europeus e estados no sul e meio-oeste dos EUA, é um problema para centro e esquerda. Não apenas porque isso leva a argumentos xenofóbicos, sabidamente falseadores, por parte da direita, mas pela redução de eleitorado potencial. Até 1996/2000, devido à redução da população menor de idade, de 30% para 15% do total, houve um aumento muito grande de eleitores. Mas desde então a população aumentou 8 milhões e o eleitorado apenas 3,5 milhões. Então cerca de 4 milhões, quase 10% da população adulta, não são registrados como eleitorado.
A diferença pode ser atribuída à imigração das duas últimas décadas, principalmente de quem não busca cidadania. Em relação à população total o eleitorado “conservador” tem se mantido em torno de 22% (pico de 26% em 1996). Na mesma medição o eleitorado não-conservador ficou em pelo menos 30% de 1982 a 2008 e mais recentemente em torno de 28%. Ora, se imigrantes pudessem votar provavelmente se alinhariam a esse grupo, levando-o a 32 ou 34%. Basicamente um grande problema para o trabalhismo nos países ricos é que muitos trabalhadores agora não têm direito a voto.
3) o impacto das guerras culturais (que sempre são oportunismo conservador) existe, mas provavelmente não será duradouro. O eleitorado mais jovem que for se agregando nos próximos anos tende a ser menos machista. E a primeira geração de filhos de imigrantes tende a antagonizar xenofobia. Então temos que observar de onde vêm os eleitores (mesmo jovens) dos partidos de extrema-direita. Ao contrário dos anos 1920/1930, não estão vindo de trabalhadores que rotineiramente apoiam partidos social-democratas, trabalhistas ou mesmo mais à esquerda. Pois desde 2015 a soma PSOE + Podemos/Sumar tem estado em torno de 11 milhões. Mas o mesmo é válido para PP + Vox! (A diferença entre os dois blocos este ano foi de apenas 350 mil votos).
Como já foi observado para Canadá (2021), França (2017, 2022), Alemanha (2017, 2021), e agora Espanha (2019, 2023), o surgimento ou crescimento dos partidos de extrema-direita se dá quase que totalmente sobre um eleitorado (quer de classe média, quer de trabalhadores), que já era conservador. Pode ser visto na tabela e no gráfico (segmentos em marrom na parte superior à direita) que os 3 milhões de eleitores do Vox provavelmente votaram no PP até 2015. Desse modo, o reacionarismo não é um fenômeno de todas as massas, mas circunscrito à massa que nunca deixou de ser conservadora, que passa a deixar de ser democrata (e se torna radical) justamente pela dificuldade do conservadorismo convencional de vencer eleições no mundo contemporâneo. (E do receio de como jovens, filhos de imigrantes ou não, votarão num futuro próximo. A janela de oportunidade para vencer pode se fechar logo.)
O PP obteve sozinho 12 milhões de votos em 2011, seu recorde histórico, quando o eleitorado era de 35,8 milhões. Agora precisa do radicalismo e mobilização do Vox para conseguir 11 milhões em um eleitorado de 37,8 milhões. No mesmo período seus opositores foram dos mesmos 12 milhões para 13,3 milhões.

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José de Almeida Bispo
29 de julho de 2023 3:50 pmEm qualquer eleição o que preocupa é a abstenção. Atestando que o encanto está ausente. “Mente vazia é morada de satanás”, como dizem os mais velhos de meu pé de serra.
Paulo Dantas
29 de julho de 2023 5:05 pmOs “liberal” com seu bullshit , seus acordos , mutretas e corrupção também ajudam a extrema-direita.
Empurrar uma agenda de costumes “progressiva” quando as pessoas são ainda conservadoras é outro fator.
Não sou acadêmico digo o que sinto nas pessoas que conheço.