Tarso Genro debate a crise da democracia representativa

Tarso Genro debate a crise da democracia representativa com a mídia alternativa

 Por Adriano S. Ribeiro – Parte 01

“Não acredito que seja possível governar com democracia direta pura, mas só democracia representativa não responde mais”, Tarso Genro.

Acontece nos dias 5 e 6 de setembro, no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul, o Seminário: Crise da Representação e Renovação da Democracia, evento em que o governador Tarso Genro (PT-RS) entrega o resultado das consultas públicas sobre reforma política, propostas pelo Gabinete Digital. O governador aproveitou a ocasião para uma conversa franca com os blogueiros sobre a crise da democracia representativa. Segue a primeira parte da conversa:

Tarso Genro – Nós temos um entendimento de que o esvaziamento da representação política, a separação do representante e do representado, só ganhará uma nova energia através de uma profunda Reforma Política no país. Há um trabalho muito bem constituído, por algumas mídias hegemônicas, de esvaziamento da esfera política e de esvaziamento dos partidos, isso não é gratuito. É uma forma de esvaziar o próprio processo democrático. Ele só pode ganhar uma nova energia, uma nova autenticidade, se nós quebrarmos essas barreiras que separam o Estado, do cidadão comum; e aproximarmos, cada vez mais, as representações do movimento social e da sociedade civil da produção das decisões públicas. Não se trata de mecanismos de democracia participativa em abstrato. Trata-se de tomada de decisões, do governo, que incide sobre o orçamento, sobre o uso de recursos públicos, que são influídos diretamente por esse sistema de participação direta. Um tema relevante foi a questão Reforma Política em que quase 700 mil gaúchos emitiram a sua opinião de maneira voluntária.

Adriano S. Ribeiro – Estamos às vésperas do dia que os Anonymous apelidaram de Operação 7 de setembro, data em que ocorrerá, segundo eles, a maior manifestação da história do Brasil. Por outro lado, Marilena Chauí, em entrevista à revista Cult, afirmou que há uma confusão entre os integrantes do movimento. O que eles encaram como sendo horizontal, ou sem liderança, na verdade é uma total falta de rumo. Movimentos sem direção e com bandeiras tão diversas tendem a ser tomados por forças escusas, principalmente da direita reacionária. Na mesma angulação, André Singer disse recentemente que, caso as manifestações perdurarem, em algum momento, o governo terá que usar a força para restabelecer a ordem. No Rio de Janeiro, mantenedores das páginas oficiais dos Black Blocs foram apreendidos por diversos crimes, como formação de quadrilha e por incitar a violência.

O governo do Estado do Rio Grande do Sul, em uma iniciativa louvável, abriu consulta pública e questionou o que desejavam os manifestantes, incentivando maior participação popular. O Sr. faz referência a uma suposta crise da democracia representativa, condição essa, que a todo momento é difundida por ideólogos da democracia deliberativa, mas também pela extrema-esquerda, pelos Anonymous e pelos Black Blocs, e isso, paradoxalmente, em uma época em que a maior parcela da população se sente, finalmente, representada. No entanto, muitos analistas políticos veem como uma provocação as táticas desses grupos. Dialogar com eles, seria como negociar com terroristas, sem resultados práticos. Além disso, segundo Chauí, a democracia participativa não teria autenticidade sem as nossas instituições democráticas atuais. O próprio PT do Rio Grande do Sul é reconhecido mundialmente pelo pioneirismo no Orçamento Participativo. Isso, sim, é democracia direta.

1.    Ao invés de incentivar o protesto com esse espaço dado aos radicais, o Sr. não acharia mais producente e menos arriscado que a Secretaria de Comunicação informasse à população sobre a manipulação e a tentativa  de apropriação do movimento através do uso sistemático das redes sociais? Redes estas que não conhecemos os protocolos; não temos nenhum poder sobre elas; e sequer são mediadas pelo Estado?

2.    A Secretaria de Segurança não deveria investigar o envolvimento de grupos fascistas nos protestos, como afirmou Marilena Chauí sobre os Black Blocs?

3.    A Polícia Federal não deveria investigar os Anonymous, e se eles recebem suporte ou financiamento de grupos estrangeiros?

4.    Antes de iniciarmos um salto para a democracia direta, não deveríamos amadurecer mais a nossa frágil democracia representativa, fortalecendo nossas instituições e lutando pelas reformas?

 

Tarso Genro – Essa pergunta encerra todo o problema (risos).

Nós estamos, hoje, mediante um conjunto de sintomas na sociedade de esgotamento da democracia representativa. Esses sintomas aparecem das mais diversas formas. Aparecem através de movimentações de enfrentamento deliberado e provocativo de determinados setores. Aqui, por exemplo, nós tivemos grupos de neonazistas, com a suástica escrita no braço, tentando controlar o movimento e influenciá-lo. Recebemos um pedido do Bloco de Lutas para que nós os protegêssemos desses neonazistas, e assim nós fizemos. O Bloco de Lutas é um movimento que tem outra visão do processo, eles se movimentam de cara limpa e têm uma visão de que há uma emergência do processo de revolução social, da qual eles querem ser protagonistas. É uma visão que eu acho uma análise equivocada da correlação de forças da situação mundial, e da situação nacional, inclusive. Mas são protagonistas políticos. Movimentam-se em cima de determinados temas, muitos deles temas relevantes, fazendo propostas, pressões, e formas de ocupação de espaços, estádios, prédios públicos e espaços de rua, para tentar seduzir politicamente a população (que eles estão corretos). e que eles representam a flâmula do futuro.

Eu acho uma visão equivocada, uma visão tradicional, de esquerda, que se repete de tempos em tempos, mas que tem que ser respeitada. São jovens que entendem que estão no caminho da revolução. Nós achamos que são visões completamente equivocadas. Mas queremos permanentemente estabelecer um dialogo com eles, e, inclusive, estabelecemos.

Os Black Blocs a gente não sabe o que são. Ao que tudo parece indicar é que são grupos, na minha opinião, anarco-direitistas, movidos por uma rede internacional, cujo sentido é atacar qualquer governo, qualquer sistema. Não interessa se é uma democracia, se não é uma democracia; se é um governo mais à esquerda, mais à direita; e que se move em cima de concílios muito claros. A partir daquela visão de Mussolini: ação e terror é a filosofia. Não tem diálogo, não tem proposta, não tem visão; é apenas o enfrentamento. Bem, essas pessoas têm que ser tratadas como qualquer pessoa que assume determinados atos que podem ser criminosos, ou não. Em minha opinião, o sujeito mascarado na rua fazendo protesto não é crime. Agora, se o mascarado atacar outras pessoas, pequenas empresas, prédios do Estado, ou prédios onde pessoas podem ser feridas com suas ações, está cometendo um delito. Tem que ser feito um trabalho preventivo para que isso não ocorra. Acho que são situações diferentes que estão acontecendo. Eu acho que esses sintomas é que indicam que a representação política está esgotada. Nós tivemos também, durante essas manifestações do início do mês passado, contingentes da população da classe-média, de direita, se movimentando: contra a política; supostamente contra a corrupção… dos outros; supostamente contra determinadas políticas de governo, que não estava bem claro se eles sabiam o que é que eram – como por exemplo a PEC 37, ninguém sabia direito o que é que era a PEC 37 (risos no ambiente). Agora, existe um movimento social geral de desconforto com a ordem democrática atual e com a sua absoluta insuficiência. Eu não acredito que se possa instalar qualquer Estado através de uma democracia direta pura. Eu acho que isso é impossível. É impossível não só pelo contingente populacional; pela complexidade dos temas; pela necessidade de que se tenha uma estabilidade no processo político; que seja contratada através de um processo eleitoral. Eu acredito que a democracia representativa exclusiva, ela não responde mais. Então, tem que ter um ingrediente de participação direta que molde essa democracia representativa todos os dias, a partir desse tipo de participação. Isso pode ser presencial, ou virtual, dependendo das circunstancias.

 

Não é adequado colocar todo o movimento como se fosse a mesma coisa. É muito diferente um Bloco de Lutas de um Black Bloc. É muito diferente um grupo neonazista de um Black Bloc, que a gente não sabe o que é. É muito diferente os mascarados que saem nas ruas e atacam pessoas; e atacam lideranças políticas, de um Black Bloc que exibe apenas sua inconformidade e não quer ser identificado porque acha que está cometendo uma ação revolucionária. Com essa multiplicidade que temos que lidar. Quem acha que vale a pena participar do processo político de representação, e que assume governos? Nós temos que entender isso. O desafio que eu sempre faço para as pessoas de ultraesquerda, que às vezes eu converso, é perguntar o seguinte; o que é que vocês fariam se estivessem no governo? Eles são honestos, na maioria das vezes, e respondem: Nós não queremos assumir o governo, porque nós acreditamos que temos que destruir o Estado, Bom, essa é uma tese, mas dificilmente ela poderá ser operada nas circunstâncias históricas que nós vivemos.

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