A máquina do tempo
por Felipe Bueno
“A Europa sempre existiu nessa luta entre luz e sombras. Ela só se degradou ao renunciar a essa luta, eclipsando o dia pela noite. A destruição desse equilíbrio dá belos frutos hoje em dia. Privados de nossas mediações, exilados da beleza natural, achamo-nos novamente no mundo do Antigo Testamento, espremidos entre faraós crueis e um céu implacável.”
Albert Camus, 1951
Se a tão desejada máquina do tempo um dia fosse fabricada e funcionasse, poderíamos viajar cem anos pelo passado e pousar na Europa em abril de 1924, mês em que, na Alemanha e na Itália, fatos que aparentemente apontavam para direções diferentes, tempos depois acabariam convergindo, para tragédia do continente e do mundo.
Logo no primeiro dia do mês, o líder do partido nazista, Adolf Hitler, foi preso por causa do famoso golpe da cervejaria, em Munique, cometido no ano anterior. Ficou poucos meses na cadeia. Aproveitou para iniciar a escrita de um livro cuja leitura, se tivesse sido feita por mais gente com discernimento e coragem, talvez pudesse ter evitado uma tragédia. Mas quem se importou com isso numa Alemanha pacificada à força pelos vencedores de 1918, pobre nação rica testemunhando sua dignidade e seus marcos indo para o lixo em alta velocidade?
Menos de uma semana depois, numa nação próxima, os italianos deram a vitória legislativa ao partido fascista que, com seus aliados – de ocasião ou de alma -passou a dominar dois terços do parlamento.
No mês seguinte, quando ainda havia voz para isso, o socialista Giacomo Matteotti denunciou fraudes no pleito. Foi um dos primeiros a “desaparecer” no sentido da política fascista; seu corpo apareceu meses depois nos arredores de Roma.
Matteotti, por caminhos totalmente opostos a Hitler, também tinha deixado sinais de alerta em um livro, ao que tudo indica não lido com a atenção suficiente pelo mundo dos anos 20.
Alemanha e Itália, então jovens nações unificadas, tinham suas particularidades e ao mesmo tempo problemas semelhantes que os conduziram em pouco tempo ao totalitarismo de direita. O resto é História, como se convencionou dizer e escrever.
Em respeito aos mortos, aos feridos e aos deslocados e separados de suas famílias, era de se esperar que não só o direito internacional e as relações exteriores, mas principalmente as consciências e as ações de cada ser humano fossem pautadas por essas tristes e então recentes memórias de tragédias.
Vã esperança. Vieram as ditaduras na América Latina, os massacres pós-independência no continente africano, o eterno-interno-externo conflito no Oriente Médio. E a própria Europa, sabemos, varreu essa memória para baixo do tapete depois de 1945, primeiro com Stalin – cuja opressão vinha de antes – e seus simulacros; hoje com Putin – que não deixa de ser, a seu modo, um histriônico fantasma de antigos impérios do leste.
Dos menores aos maiores, os pleitos previstos para 2024 não permitem otimismos ingênuos. Das palavras de ordem às atitudes, o culto ao totalitarismo está aí, nas ruas e nas redes sociais. Perdeu há tempos o hábito de atuar apenas no subterrâneo: é um vampiro geneticamente modificado que atua também sob o sol, e, tudo indica, demarcou zonas eleitorais e até parlamentos como novos habitats.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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