5 de junho de 2026

Aspectos da aproximação política entre Rússia e China, por Valdir da Silva Bezerra

Com a chegada de Vladimir Putin ao poder em 2000, o governo russo passou a dar ainda mais atenção à Ásia
Vladimir Putin concorrerá a mais um mandato de seis anos na Rússia, país que trava uma guerra contra a Ucrânia. Foto: Agência Xinhua

Aspectos da aproximação política entre Rússia e China

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por Valdir da Silva Bezerra

“Надо крепить оборону на Западе, а друзей искать на Востоке.” (АЛЕКСАНДР НЕВСКИЙ) No original, em russo“É necessário fortalecer a defesa no Ocidente e buscar amigos no Oriente.” (ALEXANDER NEVSKIY)

Ao longo dos anos 1990 e início dos anos 2000, Rússia e China testemunharam importantes desenvolvimentos em suas relações diplomáticas, como a assinatura de tratados de amizade, resolução de questões fronteiriças, fortalecimento de laços comerciais, entre outros. Ao mesmo tempo, as relações com a China (no contexto de uma verdadeira ‘parceria estratégica’) propiciaram à Rússia o apoio de Pequim não somente no tocante à defesa de conceitos como ‘multipolaridade’ no Sistema Internacional, como também um importante aliado político em sua oposição aos desígnios unilaterais dos Estados Unidos.

Tal aproximação entre Rússia e China, por sua vez, começou a ser desenhada ainda em 1996, quando da assinatura pelo presidente russo Boris Yéltsin e pelo mandatário chinês Jiang Zemin de um documento de ‘Parceria Estratégica’, com enfoque na defesa da ‘multipolaridade’ e do fortalecimento da ONU como órgão responsável pela resolução de conflitos internacionais. À época, Primakov (então Ministro das Relações Exteriores) preconizava alianças com países como China e Índia para a realização dos interesses nacionais da Rússia e para a consolidação de um mundo multipolar que pudesse conter as aspirações hegemônicas dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, com a chegada de Vladimir Putin ao poder em 2000, o governo russo passou a dar ainda mais atenção à Ásia, num contexto de mudança do ‘centro de gravidade’ da economia mundial para o leste-asiático, em que novas oportunidades econômicas foram abertas para regiões pertencentes à porção oriental da Rússia (rica em recursos naturais) como a Sibéria e o Extremo Leste (GONZALÉZ, 2013). Ao mesmo tempo, China e Rússia também possuíam interesses geopolíticos semelhantes, sobretudo envolvendo sua rejeição comum à promoção de valores liberais por parte do Ocidente (ADAM, 2012). Com efeito, documentos do governo russo mencionam que tanto a China quanto a Rússia compartilham “as mesmas posições fundamentais sobre questões globais” e que suas relações bilaterais representam elemento central para a estabilidade regional e internacional (CONCEITO DE POLÍTICA EXTERNA DA FEDERAÇÃO RUSSA, 2013).

Segundo Putin, ademais, o Ocidente tenta “forçar seus valores e ideais duvidosos em países e povos inteiros” ao passo que Rússia e China buscam atingir “uma estrutura [global] mais equitativa e democrática” de forma a contrabalançar a hegemonia Ocidental nas Relações Internacionais baseada na pluralidade civilizacional e na defesa de suas tradições e de sua história. Ora, ambos os países tem suas razões para desconfiarem do Ocidente.

Por um lado, a desconfiança chinesa com relação ao Ocidente remonta ao ‘século de humilhações’ que teve início quando o país foi derrotada pelos britânicos durante as duas Guerras do Ópio (1839-1842; 1856-1860). Naquele tempo, a China sofreu grandes perdas econômicas e materiais, além de sérias limitações em sua soberania, por conta da imposição dos chamados ‘tratados desiguais’ pelas potências europeias; logo, pouco mais de um século depois, quando os comunistas liderados por Mao Tse-Tung chegaram ao poder na China, sua convicção na superioridade moral do país tinha como uma de suas bases a aversão chinesa às políticas predatórias das potências imperialistas Ocidentais no século XIX.

Do lado russo, restam as amargas lembranças de uma década de 1990 em que a Rússia vivenciou um período de dependencia do Ocidente do ponto de vista tecnocrático e financeiro, no que ficou conhecido como o ‘momento Unipolar’ nas Relações Internacionais, em vista da predominancia valorativa, economica e militar dos Estados Unidos no sistema. Logo, as demandas russas em referência a seus interesses nacionais passaram a ser ignoradas pelas elites europeias e norte-americanas, que não somente fizeram pouco caso de Moscou, como também impulsionaram o projeto expansionista da OTAN, causando uma situação de desequilibrio estratégico no continente europeu, cujas consequencias resultaram na eclosão da guerra na Ucrania.   

Não sem razão, “a crítica e a condenação às políticas dos EUA na Ásia e em outros lugares [do mundo] […] tornaram-se normas embutidas na [própria] relação […] entre China e Rússia” (KOROLEV, 2019, p.20; tradução nossa). Para a Rússia, portanto, a aproximação com a China fez com que o país asiático se tornasse um ‘valioso aliado de Moscou’ em sua luta contra o unilateralismo americano nas Relações Internacionais (BUZAN; WAEVER, 2003). O Urso e o Dragão logo se veem imbuídos de participar de forma ativa (e não mais passiva) na formulação de uma nova configuração internacional de forças, ao mesmo tempo em que observam – como bem expressado pelo Professor Pedro Costa Junior – “o pouso forçado da Águia”.

REFERENCIAS

ADAM, Gabriel Pessin. A Rússia como Grande Potência e a Parceria Estratégica com a China. In: ALVES, André Augusto De Miranda Pinelli (org.) Rússia no Século XXI: O Renascimento de uma Potência? Brasília: IPEA, 2012. p.51-96

BUZAN, Barry.  WAEVER, Ole. Regions and Powers: The Structure of International Security. United Kingdom: Cambridge University Press, 2003

GONZÁLEZ, Francisco J. Ruiz. The Foreign Policy Concept of The Russian Federation: A Comparative Study. Madrid: Instituto Español de Estudios Estratégicos, 2013

KOROLEV, Alexander. How Closely Aligned are China and Russia? Measuring Strategic Cooperation in IR. International Politics (2019).

RUSSIA. Foreign Policy Concept of the Russian Federation. The Ministry of Foreign Affairs of the Russian Federation: 2013. URL: https://www.mid.ru/en/foreign_policy/official_documents/-/asset_publisher/CptICkB6BZ29/content/id/122186    

Valdir da Silva Bezerra – Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo e membro do Grupo de Estudos sobre Ásia do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e do Grupo de Estudos sobre os BRICS da USP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Valdir da Silva Bezerra

Valdir da Silva Bezerra – Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo e membro do Grupo de Estudos sobre Ásia do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e do Grupo de Estudos sobre os BRICS da USP.

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2 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    26 de dezembro de 2022 8:53 pm

    A lógica dos “Povos do Mar”, da Europa Ocidental, seja na própria Europa ou transplantada para a América é a lógica de Atenas sufocando Milos: “A questão da justiça só vem quando ambos os lados sentirem-se sob pressão igual. Na realidade, o mais forte tomar o que puder, e os fracos admitirem o que devem.” Assaltantes.

  2. josé Oliveira de Araújo

    27 de dezembro de 2022 7:59 am

    NÃO TARDARÁ MUITO, A ÁGUIA TERÁ, ALÉM DO POUSO, AS SUAS ASAS CORTADAS.

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