Brasil sob ameaças de Trump: a solução está na economia da complementaridade no BRICS
por Bruno Lima Rocha
Partimos da premissa de que a atenção ao Brasil é um requisito para a análise do Sistema Internacional e da Economia Mundial. No ranking internacional de PIB (PIB per capita), o país ocupa a 10ª posição segundo dados de 2024. Se a base for a PPP – (buying power parity), paridade do poder de compra segundo a base do PIB e população nacionais, o país está em 7º lugar na hierarquia mundial mais assertiva. No Atlas da Complexidade Econômica, a potência sul-americana ocupa apenas o 65º lugar no mundo .
Diante disso, qualquer perda em termos de troca é prejudicial ao país, mas o problema mais grave é não estar no centro das cadeias internacionais de valor, principalmente em seu desenho estratégico de terminação, onde se encontra a formação de preços de maior valor agregado.
Neste texto veremos como a simples ameaça de Donald Trump já antecipa movimentações urgentes do Brasil, que visam fortalecer o desenvolvimento científico e tecnológico, bem como atender parcerias fundamentais tanto no bloco BRICS quanto em outros países, dentro do eixo Sul-Sul das relações.
Segundo o G1 (site de notícias da Globo Partners , maior conglomerado de mídia do Brasil), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que tarifas recíprocas e setoriais entrarão em vigor em 2 de abril. Anteriormente, quando anunciou as tarifas pela primeira vez, o governo americano citou o etanol brasileiro como exemplo.
“A tarifa dos EUA sobre o etanol é de apenas 2,5%. No entanto, o Brasil cobra uma tarifa de 18% sobre as exportações de etanol dos EUA. Como resultado, em 2024, os EUA importaram mais de US$ 200 milhões em etanol do Brasil, enquanto exportaram apenas US$ 52 milhões em etanol para o Brasil.”
Trump também disse que os países do BRICS — um grupo de coordenação econômica formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — podem enfrentar uma tarifa de pelo menos 100% se quiserem “brincar com o dólar”.
Afinal, quão grandes são os BRICS?
A dimensão econômica do bloco impressiona. Incluindo os seis novos membros do grupo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã), a participação dos BRICS no PIB mundial (a preços correntes) aumentou 39% em 2023. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou, em 2024, crescimento econômico em todos os países do bloco, variando de 1,1% a 6,1%.
O mesmo se aplica à proporção demográfica. Ela tem um escopo amplo, pois agora inclui grande parte do Oriente Médio e mais países africanos. Em termos territoriais, o BRICS representa atualmente aproximadamente 36% do total e 48,5% da população mundial, indicando uma tendência de crescimento para a década de 2030.
Em termos de comércio internacional, os países do bloco respondem por 24% do total do sistema de comércio global. Falando especificamente do Brasil dentro do grupo, o total foi de USD 210 bilhões, implicando 35% do total em 2024. O BRICS foi o destino de 121 bilhões de dólares de exportações nacionais. 36% do total exportado pelo país foi para o BRICS, assim como 34% do total importado pelo Brasil (USD 88 bilhões).
A capacidade energética do BRICS contém 72% das reservas mundiais de terras raras; 43,6% da produção mundial de petróleo; 36% da produção mundial de gás natural e 78,2% da produção global de carvão.
O desenvolvimento científico e tecnológico como tarefa urgente
Citamos dois exemplos, entre muitos, para demonstrar como, apesar do domínio e da hegemonia dos parasitas financeiros, enfrentamos um esforço constante em direção ao desenvolvimento.
Uma iniciativa entre Brasil e Rússia por meio do BRICS. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) contará com um Centro Brasil- BRICS de Inovação em Neoindustrialização . O foco do desenvolvimento está nas áreas de saúde, agricultura e economia azul, relacionadas ao uso sustentável dos recursos oceânicos. Esse é o objetivo do Centro Brasil-BRICS de Inovação em Neoindustrialização, que começará a operar em 2026, no Parque Tecnológico da UFRJ, zona norte do Rio.
A criação da unidade foi anunciada pelo reitor da UFRJ, Roberto Medronho, e pelo diretor executivo do Parque, Romildo Toledo, durante as atividades do Fórum de Reitores do BRICS, que reuniu representantes de universidades dos países-membros do bloco: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul na Lomonosov Moscow State University (MSU). Também estiveram presentes representantes de países que aderiram recentemente ao BRICS, como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Egito. O fórum foi presidido pelo reitor da MSU.
Essa é uma iniciativa que pode – deve – ganhar escala, a exemplo das sedes do Instituto Confúcio em diversas universidades brasileiras, levando adiante uma política de portas abertas do governo chinês.
Outra iniciativa recente visa ampliar a política de difusão de pesquisa e desenvolvimento , segundo a Agência de Notícias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES ). Com R$ 3 bilhões, o BNDES e a Finep lançaram um edital para atrair centros de P&D para o Brasil. A chamada pública inclui apoio à implantação de novos centros e à expansão de centros de pesquisa e desenvolvimento já existentes no país. As propostas devem estar relacionadas às seis missões da Nova Indústria Brasil
Além de empresas brasileiras, a chamada pública está aberta para receber propostas de empresas estrangeiras que queiram trazer competências tecnológicas para o Brasil. Esta seria uma excelente oportunidade para entrar na chamada pública por meio de consórcios de países membros do BRICS por meio de seus respectivos centros de pesquisa.
A chamada pública tem orçamento de R$ 3 bilhões de reais (US$ 530 milhões) para apoiar os centros com instrumentos de crédito, participação acionária, recursos não reembolsáveis para projetos cooperativos entre empresas e instituições tecnológicas e subvenções econômicas, operadas pelo BNDES ou FINEP. É importante destacar que esses centros estarão espalhados por todo o país, nas cinco regiões – com orçamentos diferentes – a saber, Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte.
Linhas Conclusivas
Só é possível observar os movimentos de um país se considerarmos o nível de investimento em Pesquisa & Desenvolvimento e as metas de produção industrial. Em termos de discurso, a diplomacia brasileira sob o governo Lula III é mais verbosa, tentando equilibrar o acordo do Mercosul com a União Europeia e o aspecto não alinhado representado pela dimensão econômica dos BRICS.
Por um lado, o Itamaraty deve continuar cauteloso em medidas tarifárias recíprocas após as agressões de Trump em seu segundo mandato. Por outro lado, especialmente considerando que o Brasil detém a presidência temporária do BRICS, veremos uma aceleração de acordos, investimentos comuns e possibilidades de criação de centros de pesquisa de alto desempenho.
Os movimentos do Brasil teriam sido mais fáceis se a Argentina tivesse aproveitado melhor sua entrada no BRICS. Com a mudança de governo, o novo presidente, alinhado ao trumpismo e subordinado aos EUA, recusou-se a permitir que ele permanecesse. Ainda assim, e apesar de todas as limitações estruturais, o país caminha para uma economia integrada baseada em uma nova indústria, alinhada à complementaridade dos BRICS.
Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini), militante socialista libertário de origem árabe-brasileira, cientista político e professor de relações internacionais e jornalismo. Escreve semanalmente para o MEMO e tem seus textos publicados regularmente em portais como IHU, GGN, Repórter Popular, Semana On, El Coyote, Blog de Canhota, Brasil de Fato, Fórum, Outras Palavras, Brasil Debate e artigos especiais na Carta Maior. Tem presença frequente em rádios latino-americanas e de língua espanhola, além de participação em entrevistas para Hispan TV, Press TV, RT e Radio Sputnik. Editor dos canais do portal Estratégia & Análise.
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Edivaldo Dias de Oliveira
1 de abril de 2025 2:39 pmOlhos nos olhos
Edivaldo Dias de Oliveira010425
“Onde há risco, há chances.”
“Onde há risco, há oportunidades.”
O primeiro enunciado eu li numa entrevista do filósofo franco-argelino Jacques Derrida, o segundo é um provérbio chinês, que por sinal leva muito á sério e tem tirado muito proveito das sanções de que é vítima por parte dos EUA.
Pois bem, amanhã dia 2 de abril pode ser sim um dia de graças para todos os povos do mundo.
É que Trump está chamando esse dia de Dia da Libertação para os estadunidenses.
O que ele não deve saber, é que também esse dia pode e deve ser também um dia de libertação para todos os povos.
Nesse dia passa a vigorar a reciprocidade tarifária, além de diversas outras taxas, será para nós um processo de desmame, de abandono do vício, da dependência e como sabemos, em processos assim, há um período de adaptação, de certa resistência a largar o peito, uma espécie de adoecimento em função da abstinência, da USAdependência.
Por outro lado, quem tem bancado nosso vício até agora, acredita piamente que não temos como buscar alternativa, que temos que ceder as suas novas exigência.
Esse é o momento de mostrarmos que o traficante, o dono da biqueira dos canais de Suez e Panamá está errado e que a gente vai sofrer um pouco sim mas vamos LUTAR, RESISTIR E SUPERAR todos os desafios e mais ali na frente ele haverá de nos ver cantar a canção o chico na voz de Bethânia.
“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais.
Rui Ribeiro
1 de abril de 2025 7:45 pmA China com sua sabedoria milenar emerge contra tudo e todos que os exploraram e se apropriaram injustamente de suas riquezas, enquanto a Sugona América submerge em seus próprios excrementos. Olha o presente da China para a humanidade: Deep Think, digo, Seek