21 de maio de 2026

Especialistas analisam avanço da extrema direita na América Latina e alertam para erosão democrática

O crescimento da extrema direita não é um fenômeno isolado, pois resulta da combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e políticos
Reprodução foto de Miguel Schincariol - AFP

O crescimento da extrema direita na América Latina resulta de fatores econômicos, sociais e políticos, e desafia a democracia liberal.
Especialistas destacam o papel do anticomunismo, valores tradicionais e populismo penal na consolidação desses movimentos.
A extrema direita atua globalmente, formando redes transnacionais que influenciam relações internacionais e corroem instituições.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O crescimento de forças da extrema direita na América Latina não é um fenômeno isolado nem episódico. Ele resulta da combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e políticos, além de estar inserido em uma dinâmica global de contestação à democracia liberal. Essa foi a avaliação de pesquisadores reunidos no programa Observatório de Geopolítica, exibido na última sexta-feira (24).

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Participaram do debate a professora Tatiana Vargas-Maia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o professor Wagner Iglesias, da Universidade de São Paulo (USP), e o professor Cairo Junqueira, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). A mediação ficou a cargo da pesquisadora Flávia Loss, que substituiu a professora Regiane Bressan na apresentação.

Especialista no tema, Tatiana Vargas-Maia explicou que o termo “extrema direita” funciona como um conceito amplo, capaz de abrigar diferentes manifestações históricas e contemporâneas. Segundo ela, essa ideologia costuma se estruturar a partir de três pilares centrais: conservadorismo moral, ultranacionalismo excludente e autoritarismo.

No contexto latino-americano, esses elementos ganham contornos próprios. A professora destacou a centralidade do anticomunismo, frequentemente mobilizado para criar a figura de um “inimigo interno”, hoje associado a ideias como o chamado “marxismo cultural”. Esse discurso, segundo ela, é usado para deslegitimar movimentos sociais, organizações não governamentais, a imprensa e as universidades.

Outro traço marcante é a defesa de valores morais tradicionais, sobretudo da chamada “família tradicional”, articulada a ataques aos direitos das mulheres e da população LGBTQIA+. Tatiana também apontou a presença do populismo penal, baseado na exploração do medo e da insegurança, com propostas de endurecimento repressivo, exaltação da violência estatal e, em alguns países, elogios a regimes ditatoriais do passado.

Apesar disso, a pesquisadora prefere o termo “direita radical” para se referir às expressões contemporâneas do fenômeno. Para ela, diferentemente do fascismo clássico do século XX, esses grupos chegam ao poder por meio das próprias instituições democráticas, que passam a ser corroídas gradualmente. “São autoritários que competem democraticamente, só que, claro, uma vez que eles fazem isso e atingem o poder, nós observamos o que está acontecendo, não apenas na América Latina, mas ao redor do mundo, que é um processo de erosão democrática”, afirmou.

Crises econômicas

Para o professor Wagner Iglesias, a ascensão da extrema direita está diretamente relacionada às transformações do capitalismo nas últimas décadas. Ele citou a precarização do trabalho, o enfraquecimento do sindicalismo, o avanço do individualismo e a perda de identidades coletivas como fatores centrais para a insegurança social que alimenta esses movimentos.

Segundo Iglesias, embora o neoliberalismo tenha aprofundado desigualdades e pobreza, ele obteve êxito como ideologia, ao difundir a ideia de soluções individuais para problemas estruturais. “Eu acho que há uma vitória ideológica. O neoliberalismo como política econômica é desastroso. A gente sabe disso. Produziu mais pobreza, produziu mais desigualdade nesses últimos 40 anos”, avaliou.

O professor também destacou campanhas de descredibilização da política tradicional, com a corrupção colocada como explicação central para os problemas da região, além das frustrações com governos progressistas da chamada “onda rosa”. Para ele, limites, disputas internas e escândalos contribuíram para o enfraquecimento dessas experiências e abriram espaço para alternativas autoritárias.

Outro elemento apontado foi o papel das redes sociais. Iglesias afirmou que as plataformas digitais deixaram de funcionar como espaços democráticos de debate e passaram a ser controladas por grandes empresas, cujos algoritmos favorecem discursos conservadores e dificultam a atuação das esquerdas.

Ele também ressaltou a influência de denominações religiosas conservadoras, que articulam valores morais tradicionais com uma visão econômica ultraliberal, além da persistência de uma cultura autoritária na região, herança de períodos ditatoriais mal superados.

Fenômeno global e articulação transnacional

Na avaliação do professor Cairo Junqueira, a extrema direita deve ser compreendida como um fenômeno global, com impactos diretos nas relações internacionais. Segundo ele, esses movimentos não apenas compartilham discursos semelhantes, mas constroem redes, alianças e estratégias de atuação transnacional.

Venho trabalhando com a ideia de que essa extrema direita ela se transnacionaliza. E qual que é o ponto específico disso? Eu entendo esse ato de se transnacionalizar como o de formar lastros, de formar alianças, o de se articular em fóruns, de direcionar redes, se articular de verdade”, explicou. Ainda assim, Junqueira ressaltou que o fenômeno não é homogêneo e assume características distintas conforme o país ou a região.

Do ponto de vista das relações internacionais, o professor destacou o caráter antiliberal dessas forças, que fazem uma crítica profunda à ordem liberal internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial. Essa ordem, baseada na democracia liberal, no livre mercado e no multilateralismo, tem sido cada vez mais questionada por lideranças e movimentos de extrema direita ao redor do mundo.

Para Junqueira, compreender essa crítica e suas diferentes expressões é fundamental para entender como esses grupos já vêm influenciando o sistema internacional e podem redefinir agendas globais no futuro.

Alerta para a democracia

Apesar das diferenças de abordagem, os especialistas convergiram ao apontar que a ascensão da extrema direita na América Latina representa um desafio direto à democracia. Ao instrumentalizar eleições, explorar medos sociais e corroer instituições por dentro, esses movimentos colocam em risco conquistas democráticas consolidadas nas últimas décadas.

O debate reforçou a necessidade de análises mais profundas e de respostas políticas capazes de enfrentar não apenas os sintomas, mas também as causas estruturais do avanço autoritário na região.

LEIA TAMBÉM:

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados