O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou nesta terça-feira (10) que a Europa deve se preparar para novos confrontos comerciais e diplomáticos com os Estados Unidos. Em entrevista a um pool de jornais europeus, incluindo o Le Monde e o Financial Times, o líder francês classificou o atual momento como um alerta para que o bloco abandone o que chamou de “alívio covarde” e implemente reformas econômicas profundas para garantir sua soberania global.
Para Macron, o governo de Donald Trump é “abertamente antieuropeu” e trabalha ativamente pelo desmembramento da União Europeia (UE). O presidente francês defende que a trégua recente em disputas sobre comércio e tecnologia não deve ser interpretada como uma mudança de postura definitiva de Washington.
“Quando há um claro ato de agressão, acho que o que devemos fazer não é nos curvar ou tentar chegar a um acordo. Acho que tentamos essa estratégia por meses. Não está funcionando“, afirmou.
Ofensiva digital e tarifária
O Palácio do Eliseu prevê que o próximo foco de tensão será a regulamentação do setor tecnológico. Macron alertou que a aplicação da Lei de Serviços Digitais da UE, que impõe regras mais rígidas às big techs, deve desencadear retaliações americanas. “Os EUA, nos próximos meses — disso não há dúvida —, nos atacarão por causa da regulamentação digital“, previu, citando o risco iminente de novas tarifas de importação sobre produtos europeus.
Além da frente tecnológica, o presidente francês reiterou sua oposição ao atual modelo de acordos comerciais, classificando a negociação entre União Europeia e Mercosul como “ruim, antiga e mal negociada“. Segundo ele, o bloco precisa de pactos que incluam salvaguardas ambientais e garantam a competitividade da indústria local em setores como defesa, aço e automóveis.
Integração financeira e soberania
Como solução para a hegemonia do dólar e a concorrência com a China, Macron voltou a sugerir a emissão de eurobônus, empréstimos conjuntos que permitiriam investimentos em larga escala no continente. A proposta, contudo, ainda enfrenta resistência de países fiscalmente mais conservadores dentro do bloco.
As declarações ocorrem às vésperas da cúpula de líderes da UE em Bruxelas, marcada para esta quinta-feira (12). O encontro terá como pauta central a criação de uma política industrial robusta e a simplificação de regras burocráticas para evitar que os europeus sejam “varridos” do cenário econômico global.
Diálogo com a Rússia
Questionado sobre a guerra na Ucrânia, Macron defendeu que qualquer retomada de diálogo com Vladimir Putin seja coordenada coletivamente. Embora contatos técnicos recentes tenham sido estabelecidos, o francês demonstrou ceticismo quanto às intenções do Kremlin, afirmando que Moscou “não quer a paz agora“.
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