Daniel Afonso da Silva
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de "Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas". [email protected]
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Os cavaleiros da miséria ucraniana, por Daniel Afonso da Silva

O significado de brincar com o sofrimento dos outros para Kundera era ignorar as peculiaridades das pequenas e grandes nações do Leste

USA Today

Os cavaleiros da miséria ucraniana

por Daniel Afonso da Silva

Segue incerto o destino dos ucranianos no interior da nova fase de sua tensão com a Rússia. O “compromisso suportável” imaginado na primavera de 2022 virou uma “paz gelada” no outono do ano seguinte e começa a cair indigesta aos aliados de Kiev. Mas inexiste, viável, por agora, alternativa. A gente do presidente Zelensky pode até querer lutar até o último homem, mas o peso do número conta e pesa forte a favor dos russos – desde sempre – o que deixa a tragédia ainda mais miserável e eivada de autoenganos.

O grande engano original foi a tentação dos europeus e norte-americanos em, historicamente, desprezar a dimensão europeia do Atlântico ao Ural e, com isso, amputar a Eurásia da Europa.

Milan Kundera denunciou esse despautério desde que migrou para a França nos anos de 1970. Em longos cinquenta anos ele bradou sobre tudo isso e ninguém o teve em conta. Os mais cultos preferiram se embriagar em sua insustentável leveza do ser ao passo que os mais atentos notaram – mas preferiram silenciar – que o cinismo de suas personagens carregadas de leveza denunciava o mau-caratismo daqueles que insistiam e insistem em brincar com o sofrimento dos outros.

O significado de brincar com o sofrimento dos outros para Kundera era ignorar as peculiaridades das pequenas e grandes nações do Leste – feito que os europeus ocidentais e norte-americanos não deixaram de fazer.

Um ano depois de sua morte, as suas ideias foram enfim reconhecidas e participam de praticamente todas as discussões mais agudas sobre o significado do calvário ucraniano que não passa do retorno frente ao desprezo e ao escárnio dos ocidentais ao encontro da gente do Leste da Europa.

Depois do leite derramado – a saber, depois da intervenção da Rússia sobre a Ucrânia em fevereiro de 2022 para conter a ampliação da ocidentalização de porções eslavas –, os aliados de Kiev prometeram impedir, a qualquer custo, a vitória da Rússia sobre a Ucrânia.

Kundera deve de se revirar no túmulo a cada vez que percebe essa manifestação. Ele e todos os vivos se inquietam porque, hoje, todos sabem que em nenhum momento a Rússia declarou guerra à Ucrânia. Portanto, todos, hoje, compreendem que em nenhum momento os russos estabeleceram como objetivo vencer a Ucrânia. Trata-se de uma narrativa falsa. Mais uma. Construída por ocidentais enamorados dos embates da Guerra Fria e do mal-estar de depois.

O problema é que, ao seu fabricar essa guerra sem fim entre bonzinhos e malvados, iniciou-se a criação de elementos para se acreditar na insurgência de uma terceira guerra mundial. E, a propósito, um notável demógrafo europeu chegou a escreveu um livro volumoso sob o título A terceira guerra mundial já começou.

Nesse afã composições reais e imaginárias, as comparações históricas tomaram conta da razão e os fatos imediatos começaram a ser banalizados. 1945 e todos os seus símbolos viraram, assim, marcos para a todas as interações. Consequentemente, pouco a pouco, foram sendo ressuscitados todos os verdadeiros monstros humanos que habitaram o planeta entre 1914 e 1945, estando Hitler no topo da lista.

Tendo, assim, Hitler à frente, Hitler como modelo e Hitler como o demônio a ser exorcizado, os andarilhos do bem começaram a enquadrar o presidente russo como o Hitler das estepes e, portanto, o malvadão que merece ser execrado.

É curioso. Talvez estranho. Mas tem sido assim. E não adianta parlamentar.

Do contrário, note-se.

Se Putin for Hitler – e um Hitler, agora, munido de bomba atônica – o destino do planeta só pode ser o Armagedon. Quem pode discordar?

Em verdade, todos os verdadeiramente envolvidos no destino dos ucranianos sabem que não nada disso pelo simples fato de que tudo é mais complexo. Que a história não se repete. Que o tempo não para. Que o fluxo não tem fim. E que comparações geralmente não passam de análise preguiçosa sobre os dilemas presentes e iminentes.

Diante de tudo isso, às voltas com os dois anos da nova fase da tensão russo-ucraniana, alguns efetivamente adultos foram convocados para subir o nível do debate e afirmar coisas muito simples. Por exemplo, que Putin não é Hitler. Zelensky não é Churchill. Biden não é Roosevelt. Macron não é Chamberlain. Nem os anos 20 do século 21 são os anos 30 do século 20. Tampouco na Rússia nem na Ucrânia – menos ainda no Oriente Médio – Auschwitz voltou a funcionar.

Isto posto, toda a problemática começou a ganhar novos arejamentos. E, nesse intento, ao menos, quatro hipóteses controversas passaram a povoar as discussões estratégicas, públicas e privadas, entre Paris, Berlim, Londres, Bruxelas e Washington – capitais que vão decidir o destino dos ucranianos.

Para ser preciso, avante.

  1. Mundialização efetiva do conflito.

O presidente Macron tem conclamado a coletividade europeia dos aliados da Ucrânia a estar à altura da História e reconhecer mutuamente a sua disposição de morrer pelo Donbas. Morrer pelo Donbas indica a utilização de todos os meios para conter a “fúria da Rússia”. Todos os meios envolvem, inclusive, o envio de tropas.

Não precisa ter muita cancha diplomática para notar a gravidade disso.

Macron não é Chamberlain, mas está querendo virar Churchill para sangrar, suar e lacrimejar com o corpo dos outros.

Todos sabem que isso não pode – nem deve – dar certo. Mas e se…? Quer dizer, e se os aliados da Ucrânia enviarem tropas de carne e osso?

Bom, se forem hipoteticamente enviadas pessoas de carne e osso e com armas nas mãos para assistir a sorte dos ucranianos existe a possibilidade de todos aliados dos russos – sem contar dos europeus e norte-americanos – fazerem o mesmo. Dá para imaginar?

Não, não serão reabilitadas as trincheiras de 1914-1918. Mas, seguramente, o sentimento da desgraça – com falta de Graça e falta de Deus – de Verdun e La Somme vai voltar aos espíritos.

2. Novos fronts

A problemática ucraniana foi, desde o início, entendida como uma questão de segurança europeia e norte-americana. Integrar a Ucrânia ao Ocidente seria uma forma de neutralizar a Rússia e ampliar as margens dos ocidentais na gestão da verdadeira guerra planetária existente hodiernamente que é a sino-norte-americana pela hegemonia da ordem internacional.

No entanto, veio a reação de Moscou.

O efeito imediato dessa reação foi a retirada da OTAN de sua morte cerebral. Foi um renascimento dessa mantenedora da segurança dos europeus e dos norte-americanos na Europa.

Mas não por muito tempo.

Depois de doze meses de pressão, ficou bem clara a impotência das potências e a OTAN, desde então, vive um impasse sem fim em função do impasse dos cofres de seus patrocinadores.

Com isso, a promessa de ingressar a Ucrânia na União Europeia e na aliança Atlântica virou uma quimera mesclada a uma dor de cabeça imensa que até os ucranianos passaram a ressentir com presente grego em cavalo de madeira.

 Se isso não bastasse, depois da reabilitação da alta intensidade dos conflitos eternos do Oriente Médio, ficou claro que a OTAN à frente, a União Europeia e a aliança Atlântica não conseguem resolver todos os problemas do mundo. Isso já era evidente desde 1991. Mas o sinal mais eloquente agora foi a desertificação do apoio geral aos ucranianos.

As quase três centenas de bilhões de dólares remetidos aos homens de Kiev nos primeiros dezoito meses de conflito ficaram bem perto de zerar depois que todos os olhares se verteram para Gaza. Os ocidentais, europeus e norte-americanos, preferiram escolher. Gesto pragmático. Desse modo, o front ucraniano perdeu para o front médio-oriental.

Se não isso não fosse o suficiente, no começo de 2024 ressurgiu o front asiático em Taiwan assim como os fronts africanos, notadamente o Congo e o Sudão, começaram a reclamar atenção.

3. Terrorismos

Todo especialista em questões de segurança internacional aponta a anomia como terreno fértil para terrorismos. Vive-se, sim, uma anomia internacional. Um mundo sem bússola. Os ocidentais deixaram de ser os garantidores da ordem internacional tem muitos anos. Consequentemente, democracia liberal, estado de direito, globalização e afins deixaram de ser sinônimos de prosperidade, terras férteis e campos verdejantes.

Alguns gostam. Outros hesitam. E muitos aplaudem o circo pegando fogo. Mas que percebe o que isso significa não pode ter outro reflexão que não o desespero.

4. Eleições norte-americanas

E se Donald J. Trump vencer as presidenciais norte-americanas de novembro? Essa pergunta singela participa da preocupação verdadeira de todos os europeus que dependem da aliança transatlântica para se manter.

O magnata imobiliário prometeu resolver a situação ucraniana em 24 horas desmobilizando imediatamente – desde o 20 de janeiro de 2025 – as forças humanas e econômicas dos Estados Unidos da região. Se isso ocorrer, restará aos europeus cumprir a promessa de garantir, moral e fisicamente, a sobrevivência da Ucrânia.

Ainda não se consegue mensurar a gravidade disso.

*

Pondo a discussão nesse nível, ninguém pode alegar sonambulismo, como em 1913, nem desconhecimento dos cavaleiros do Apocalipse, como em 1938.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de "Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas". [email protected]

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