21 de junho de 2026

Snowden e o declínio dos EUA, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ao conceder asilo diplomático ao analista norte-americano, a Federação Russa desafiou os EUA.
BBC

Snowden e o declínio dos EUA

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ontem, a imprensa internacional noticiou que Edward Snowden se tornou cidadão da Rússia. Essa não é uma notícia qualquer e merece alguma reflexão.

O desejo imperial dos EUA de monitorar as opiniões de todos os internautas o tempo todo em todos os lugares era e é intolerável. Nem mesmo Estados totalitários como a Alemanha nazista tiveram a pretensão de vigiar ostensivamente os cidadãos de outros países, limitando-se a controlar o mercado de opinião dentro do seu próprio território e nos países anexados à força.  

Quando decidiu estruturar um programa de vigilância massiva global, os EUA não apenas violaram sua própria constituição. Aquele país criou uma distopia global impedindo qualquer pessoa séria de o diferenciar de regimes políticos autoritários que usam as tecnologias da informação para evitar mudanças indesejadas por aqueles que estão no poder. 

Chamado de traidor por uma parcela da imprensa norte-americana, Snowden agiu como um cidadão exemplar. Coletando e fornecendo aos jornalistas provas do escandaloso programa da NSA, ele colocou os princípios que orientaram a criação do seu país acima de seus interesses pessoais. O preço que ele pagou por sua devoção aos princípios democráticos foram a perseguição política e o auto exílio. 

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Ao conceder asilo diplomático ao analista norte-americano que revelou a absurda e abusiva extensão do programa de vigilância da NSA, a Federação Russa desafiou os EUA. Naquela oportunidade, Vladimir Putin conquistou a simpatia de centenas de milhões de seres humanos que acreditam na indispensabilidade da privacidade on line e que ficaram chocados ao saber que também estavam sendo vigiadas pelo Grande Irmão.

A concessão de cidadania russa à Snowden, porém, não pode ser considerada uma vitória de Putin ou da Rússia. Na prática ela é uma derrota colossal dos EUA. Snowden obviamente nunca defenderá seu novo país com o mesmo fervor que empregou ao defender a pátria em que nasceu. Renunciando à cidadania dos EUA ele enviou uma mensagem clara e inequívoca àqueles que sonham em se tornar cidadãos norte-americanos: vocês estão errados, ser cidadão dos EUA não é motivo de orgulho.  

Se levarmos em conta a obra de Edward Gibbon (1737 – 1794), o significado histórico do ato de Snowden é profundo. Em seu livro Declínio e Queda do Império Romano, Gibbon defendeu que um dos fatores que levaram à queda de Roma foi justamente a redução do prestígio da cidadania romana. 

Durante séculos, Roma expandiu seu território incorporando os povos conquistados. Gauleses, espanhóis, germanos, sírios, etc eram seduzidos pela cultura romana e ambicionavam ser cidadãos de Roma porque isso lhes proporcionaria vantagens políticas e econômicas. No momento em que as nacionalidades bárbaras passaram a ser mais atraentes do que o pertencimento à Roma o sistema político imperial entrou em colapso. 

Snowden deliberadamente violou o The Espionage Act of 1917 em defesa dos princípios democráticos que o fazia sentir orgulho de ser norte-americano. Mas ele foi obrigado a trocar de pátria porque a cidadania do seu país de origem se tornou indefensável e extremamente tóxica. Esse é o princípio do fim para os EUA. 

O estado norte-americano cresceu e se tornou uma potência mundial em virtude de atrair e incorporar à sua população diversas ondas de imigrantes. Os governantes dos EUA seguirão colocando pregos no caixão do seu país se não forem capazes de restaurar a credibilidade internacional na cidadania norte-americana. Uma maneira de fazer isso seria fortalecer a liberdade de imprensa revogando o arcaico e draconiano The Espionage Act of 1917. Conceder o perdão total a Julian Assange e indenizá-lo porque ele tem sido injustamente perseguido desde a publicação de Collateral Murder também poderia ser um ato simbólico importante.

Todavia, nessa altura dos acontecimentos não creio que o presidente dos EUA possa ser um estadista tão generoso e com visão de longo prazo quanto os primeiros imperadores romanos. O mais provável é que o império norte-americano siga declinando até ficar em escombros e se tornar uma coisa do passado.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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  1. Ana Borges

    29 de setembro de 2022 4:25 pm

    Eu corrigirá o seguinte: ele é cidadão estadunidense, Norte América inclui Canadá e México. Os Estados Unidos se apropriaram de “América” e de “norte-americanos, e são apenas parte de um todo. Americanos somos todos nós, nascidos em qualquer uma das Américas. Hora de começar a corrigir essa distorção.

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