Enviado por Cláudio José
De O Dia
‘As enchentes me irritam’, afirma o prefeito Eduardo Paes
Em entrevista ao DIA, ele admite uma série de erros, promete mais diálogo com a população e opositores e avisa que cariocas vão sofrer com as chuvas neste verão
Rio – Reeleito há um ano com 70% dos votos, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, teve de enfrentar as ruas no primeiro ano de seu segundo mandato e garante ter aprendido com as manifestações que pararam a cidade.
Nesta entrevista exclusiva ao DIA, o prefeito admite uma série de erros, promete mais diálogo com a população e os opositores, e avisa que os cariocas ainda vão sofrer com as chuvas neste verão devido ao atraso nas obras. Sempre otimista, o prefeito ‘mais feliz e o mais irritado do mundo’ diz que não há chance de o PMDB apoiar a candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) em 2014 e afirma que Pezão será eleito governador no ano que vem.

Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
O Rio continua refém das chuvas. Obras prometidas, como a da Praça da Bandeira, não estão prontas. E o senhor prometeu que não conviveríamos com enchentes em 2014. Como ficaremos? Debaixo d’água?
Jamais prometi isso. Nós vamos inaugurar o piscinão da Praça da Bandeira agora e vamos continuar tendo transtornos. Isso só vai parar quando o Rio Joana estiver desviado e os cinco piscinões prontos.
Ou seja, no fim das obras, que estão atrasadas. Por que estão e quando ficarão prontas?
Não antes de 2015. Está atrasada pela complexidade da obra. A gente está fazendo um túnel por baixo da linha do trem, do Morro da Mangueira, de São Cristóvão. Tivemos um monte de problemas de projeto de ligação.
E erros?
A Secretaria de Obras erra. Contestei publicamente o presidente da Rio Águas, que disse que termina os cinco piscinões até o fim de 2014. Não termina!
O que mais incomoda o senhor entre todos estes muitos problemas?
O que está na nossa mão e a gente não resolve, algo que não tem nada a ver com fenômeno da natureza.
Por exemplo?
O alagamento da Via Binário. A drenagem da região do porto não está pronta e não estará até 2016, mas nada justifica aquilo porque havia um plano de contingência, com drenagens provisórias que a concessionária Porto Novo não fez. Isso foi tratado em reuniões diretamente comigo.
Mas a Secretaria de Obras não deveria acompanhar isso de perto?
Sim, é um erro inadmissível e que eu assumo.
E em quanto tempo isso estará resolvido?
Já está, eles garantem. Se não estiver, eu afogo eles. E me afogo junto (risos).
Vamos falar de política. Há chance de o PMDB apoiar o senador Lindbergh Farias (PT) ano que vem?
Nenhuma. O candidato do PMDB ao governo se chama Luiz Fernando Pezão.
Mesmo muito mal nas pesquisas?
Vou usar um exemplo que todo mundo usa, que é o meu. Em 2008, comecei a campanha com 8% e ganhei.
Mas o senhor tinha apoio de governador popular…
Não. O Cabral estava muito impopular na época. As pessoas esquecem. Ele perdeu quase todas as eleições na Região Metropolitana, menos na capital, comigo.
Mas a situação hoje é bem pior.
A popularidade do Pezão virá durante o processo eleitoral. Nunca me angustiei com isso. Acho até que ele está melhor do que eu imaginava nas pesquisas.
Só que no ano que vem haverá PT contra PMDB?

Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
Espero que não. Será uma burrice se for assim. Torço para o PT continuar conosco. Se não continuar, faz parte da vida. Mas tenho uma visão relaxada sob esse aspecto porque tenho certeza que o Pezão vai ganhar a eleição.
Mas não será uma maluquice, por exemplo, o vice prefeito Adilson Pires, que é do PT, subir no palanque adversário para falar mal do PMDB?
Maluquice será o PT falar mal do PMDB, porque eles participaram do governo durante sete anos. Aí cada um faz a maluquice que quiser. Eu imagino que as pessoas vão disputar eleição fazendo propostas, sobretudo quem durante tanto tempo foi sócio do governo. Vai soar hipócrita fazer críticas.
Por que o senhor acha que há essa desaprovação tão grande do Cabral?
Dele e minha. Assumo. Acho que houve um momento de desaprovação coletiva que tende a se ajustar.
O que o senhor compreendeu nos protestos?
Que é preciso abrir ainda mais o diálogo com a população. Os governos erram. O problema é não reconhecer os erros. Na Providência, por exemplo, foi emblemático. Se eu ficasse dois anos com a casa marcada e sem saber onde morar, também odiaria o prefeito.
E a postura dos homens públicos na vida privada?
Estou há 20 anos na vida pública e sempre fui muito zeloso com a minha vida privada. Mas só posso falar sobre mim.
Que tem a vantagem de ter medo de helicóptero…
É verdade (risos). Até seria bom para mim, com aquele heliponto na Lagoa. Mas não ando porque tenho medo mesmo. E porque acho que andar pela cidade é importante. Por isso farei uma sede da prefeitura em Madureira, para despachar de lá às sextas e depois fazer uma roda de samba. A minha grande tristeza é não poder tomar meu chope no (restaurante) Cachambeer, mas por outro lado, faço a alegria da minha mulher. Fico mais em casa. Não poder tomar minha cerveja faz uma falta danada.
Só não pode querer fazer isso em Paris agora…
Adoro Paris, Londres e Nova York, mas não viajo com prazer agora. Até consegui ir para o interior de Portugal agora, era meu aniversário e da minha filha. Adorei. No avião ainda teve uma passageira que tirou uma foto minha e eu vi no celular ela colocando ‘dormindo com o prefeito’. Ia mandar para alguém. Eu cutuquei e falei com ela que se quisesse eu tiraria a foto abraçado. Ela ficou sem graça e disse: ‘Gosto muito do senhor e não resisti’. Mas no aeroporto do Porto tinha brasileiro tirando foto para mandar para a coluna do Fernando Molica (‘Informe do DIA’) dizendo: ‘Olha ele aí na Europa’ (risos).
O senhor fala em diálogo com a oposição , mas a Lapa, reduto do Freixo, está abandonada.
Fiz seis reuniões lá só este ano, antes dos protestos. Conversamos com artistas, comerciantes, reabrimos a rua. Tudo isso fruto do diálogo. Mas a Lapa é caso de polícia, já falei com o Cabral.
Mas o (José Mariano) Beltrame, secretário de Segurança, rebate e diz que é social?
A gente coloca assistente social, mas não podemos recolher as pessoas porque o Ministério Público não deixa, e vocês (jornalistas) adoram. A mesma imprensa que fala em população de rua fala em direitos humanos quando a gente recolhe.
Mas legislação permite o recolhimento de usuários de drogas em casos extremos como vemos lá.
Este talvez seja nosso maior desafio. O Adilson Pires (vice-prefeito) esteve na Europa e nos EUA vendo sistemas de abrigamento e novas tecnologias. Já temos atendimento compulsório, consultório de rua, abrimos dois ou três CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) este ano e vamos abrir mais dez no ano que vem.
O que mais te irrita como prefeito?
Bilhões e bilhões de coisas. Não ter transformado a Lapa no paraíso que todo mundo gostaria, por exemplo. Ver o trânsito na minha cidade e as enchentes também me irritam.
Luiz Gonzaga da Silva
25 de dezembro de 2013 11:52 pm“Mas não será uma maluquice,
“Mas não será uma maluquice, por exemplo, o vice prefeito Adilson Pires, que é do PT, subir no palanque adversário para falar mal do PMDB?”
Não seria maluquice criticar a falta de diálogo do governo do estado com os movimentos sociais, mas creio que não será essa a linha de ação da candidatura Lindberg Farias.
Desde que Cabral foi eleito tenho elogiado a parceria entre governo federal, estadual e municipal. Parceria que poderia ter-se iniciado logo após a eleição de Lula, mas na época a má vontade do casal Garotinho não permitiu.
A parceria Lula, Cabral e Paes propiciou a região a retomada do desenvolvimento após longo péríodo de decadência. O carisma, a competência e a projeção internacional do ex-presidente foram fundamentais para que a cidade do Rio de Janeiro conseguisse sediar os grandes eventos. Junto do estado de Pernambuco do candidato oposicionista Eduardo Campos, o Rio de Janeiro, capital e estado, foi um dos grandes beneficiários dos investimentos do governo federal. São grandes obras e projetos sociais espalhados por todo o estado. Evidente que contou com a contrapartida tanto do município quanto do estado nas figuras do prefeito Paes e do governador Cabral. Enfim, foi até agora uma aliança que trouxe benefícios.
Na eleição e reeleição de Cabral, o apoio de Lula foi estratégico. Paes foi eleito em segundo turno com uma vantagem de míseros cinquenta e poucos mil votos com o apoio do PT. Na reeleição consagradora, o apoio se repetiu, agora, fazendo parte da chapa. A ida de Paes com Cabral a Brasília agradecer o apoio poucos dias depois de reeleito não foi à toa.
Quando surgiu a candidatura de Lindberg, comentei que teria chegado a hora do PMDB apoiar a candidatura do PT. Depois de longo e tenebroso inverno, o PT tinha um projeto eleitoral viável. No mesmo comentário, disse que Pezão não era competitivo, o que a cada dia que passa se mostra verdadeiro. Nessa altura do campeonato, o executivo das grandes obras já era para estar disputando nas cabeças, mas falta carisma e projeção ao vice-governador. Creio que pode até chegar em terceiro e ser, junto do governador, fundamental para a decisão do segundo turno, só isso.
Acredito que a tática que o PT usará no Rio será a mesma de Pernambuco. Mostrará que independente da competência dos governantes locais, a presença do governo federal petista fez a diferença.
PS. Dizem que Cabral virou pó. Indo contra a corrente, digo que só não será senador se não concorrer. Ao contrário de Pezão, se beneficiará das grandes obras, do estado como campeão de investimentos e nível de desemprego baixo. Na hora certa isso contará. O único senão seria uma possível candidatura de Joaquim Barbosa,mas, pensando bem, o irascível supremo ministro, se concorrer, deverá se restringir ao voto das “viúvas do Lacerda”.