4 de junho de 2026

Michel “Kaspar Hauser” Temer não quer renunciar…

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Nos últimos dias Michel Temer perdeu base parlamentar, foi hostilizado pelos telejornais, viu vários ministros pedirem demissão, sofreu alguns pedidos de Impedimento (um deles ajuizado pela OAB) e se tornou ainda mais rejeitado pelos brasileiros. Desesperado, o usurpador apelou para as Forças Armadas que, ao contrário do que eu imaginei, rejeitaram qualquer solução violenta. Todavia, com apoio de um decadente FHC, ele disse que não vai renunciar.

O isolamento de Michel Temer é evidente. E perturbador, pois o usurpador parece acreditar que seu discurso acerca da própria honestidade e legitimidade será capaz de, por si só, criar a realidade da investidura presidencial durante o vácuo de poder que a permanência dele na presidência está criando. A alienação de Michel Temer é significativa e coloca em risco a unidade territorial do Brasil.

Qualquer estudante de Direito aprende rapidamente que o poder só pode ter três fontes https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/temer-e-seu-poder-originado-no-terror. Neste momento Michel Temer não dispõe de nenhuma delas  Portanto, a permanência dele no cargo é sintomática. E releva apenas uma coisa: que o usurpador esqueceu ou, pior, que ele nunca foi realmente capaz de aprender os fundamentos básicos do Direito Constitucional. Ironicamente, Michel Temer publicou livros sobre este tema.

Nas oportunidades em que falou à imprensa nos últimos dias, o usurpador tratou o cargo que ocupa como se fosse propriedade pessoal dele. A conduta patética de Michel Temer neste momento lembra muito a dois tiranos que foram gravados em vídeo arrostando um suposto poder presidencial legítimo no momento em que eram julgados (refiro-me obviamente a Saddan Hussein e Nicolae Ceauşescu). Todavia, o personagem do qual Michel Temer mais se aproxima neste momento é outro: Kaspar Hauser.

Izidoro Blikstein afirma que “…todo processo educativo e de socialização é tributário da representatividade do signo; vale dizer que a educação, via de regra, não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão de realidade.” (Kaspar Hauser ou A Fabricação da Realidade, Cultrix, São Paulo, p. 21). Ilusão de realidade é algo que Michel Temer perdeu no exato momento em que decidiu ficar na presidência sem ter qualquer condição de governar.

Kaspar Hauser não compreende a realidade porque não tem memória. Ele é incapaz de reter os elementos essenciais necessários à introspecção da realidade. Desprovido de lembrança ele não consegue se comunicar, porque a língua que domina é desarticulada, descontextualizada. A linguagem não foi capaz de dominá-lo de maneira completa e perfeita. O mesmo ocorreu com Michel Temer, um constitucionalista que paradoxalmente pretende exercer um poder sem qualquer fonte e que, portanto, esqueceu os fundamentos básicos do Direito Constitucional.

A liberdade de Kaspar Hauser para se comunicar deforma o processo de comunicação, mas não é capaz de destruí-lo totalmente. A insistência de Michel Temer de ficar na presidência compromete tanto o processo de comunicação entre situação e oposição quanto a higidez da instituição pública que ele representa.

Como afirma Izidoro Blikstein, a “…nossa cognição estaria sujeita, portanto, a um processo ininterrupto de estereotipação, a ponto de considerarmos real e natural todo o universo de referentes e realidades fabricadas. Daí a função fascista da linguagem, segundo a expressão de R. Barthes. A língua ‘amarra’ a percepção/cognição, impedindo o individuo de ver a realidade de um modo ainda não-programado pelos corredores de estereotipação…” (Kaspar Hauser ou A Fabricação da Realidade, Cultrix, São Paulo, p. 82).  A interminável sucessão de escândalos, que deveria escandalizar um homem público obrigando-o a se afastar do poder para preservar um país que está se tornando ingovernável por causa dele, ainda não foi capaz de cumprir seu papel. Michel Temer se tornou prisioneiro de  solipsismo lingüístico que já não tem o Direito Constitucional como referência: o usurpador acredita que é presidente porque acredita que a presidência é dele porque acredita que deve ser presidente.

“A experiência de Kaspar Hauser nos permite, desse modo, divisar com nitidez o momento em que a língua passa a exercer a sua função interpretante ou modelante na percepção/cognição e no pensamento: a impossibilidade de capturar a semiose não-verbal, que se desencadeia na dimensão oculta entre a práxis e o referente, compele o individuo a recorrer ao sistema verbal para materializar e compreender a significação escondida.”  (Kaspar Hauser ou A Fabricação da Realidade, Cultrix, São Paulo, p. 79). Por mais que a realidade obrigue Michel Temer a renunciar, ele prefere ignorar as graves acusações que pesam contra ele e faz de conta que pode governar sem base parlamentar, sem ministros, sem a imprensa, sem militares e, principalmente, sem qualquer apoio popular.

Kaspar Hauser nasceu deficiente, a deficiência de Michel Temer foi recentemente adquirida. Tanto pior para o Brasil. O usurpador chegou ao poder dizendo que construiria uma ponte para o futuro e tudo que ele está conseguindo fazer é arruinar a pinguela que une os Estados à Federação e o povo ao Estado brasileiro.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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1 Comentário
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  1. Marcelo33

    22 de maio de 2017 6:22 pm

    Estamos sujeitos aos

    Estamos sujeitos aos caprichos de um velho Brocha querendo impressionar sua ninfeta !!! PArabéns aos envolvidos !!!

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