4 de junho de 2026

Sugestão de leitura: para entender as razões do populismo

Por Fernando G. Trindade
 
Sugestão de leitura
 
Indico a recente edição brasileira (Três Estrelas, 2013) do importante livro de Ernesto Laclau, “A razão populista” ( “On populist reason”,2005, ed. original inglesa), em que o autor faz extensa e profunda análise do tema em questão.
 
Estou lendo e gostando muito. Muito interessante para quem se interessa pelo debate conceitual em ciência política e/ou para quem se interessa pelo debate político prático, inclusive  no Brasil de hoje.
Na sua introdução à edição original escreveu Laclau:
 
“As principais questões tratadas neste livro são a natureza e a lógica da formação das identidades coletivas.”
…..
“Mas qual é o motivo que me leva a encarar essas questões por meio de uma discussão sobre o populismo? Isso se deve à suspeita, que alimento há muito tempo, de que, na subestimação do populismo, estão implicados muitos outros fatores do que apenas relegar um conjunto periférico de fenômenos para as margens da explicação social. O que essa rejeição desdenhosa implica é, segundo penso, a subestimação da política ‘tout court’ e a afirmação de que a gestão da comunidade cabe a um poder administrativo  cuja fonte de legitimidade é o reconhecimento apropriado daquilo que constitui uma ‘boa’ comunidade. Esse tem sido, ao longo dos séculos, o discurso da filosofia política, e Platão foi o primeiro a instituí-lo. O populismo sempre foi associado a um excesso perigoso, que questiona os moldes bem delineados de uma comunidade racional. Minha tarefa, portanto, tal como a concebi, foi esclarecer as lógicas específicas inerentes a esse excesso e argumentar que, longe de corresponderem a um fenômeno marginal, elas estão inscritas no funcionamento real de quaisquer espaços comunitários.”
Na introdução à edição brasileira, de agosto de 2013, escreve Laclau:
“Poderíamos dizer que populismo e institucionalismo em suas formas ‘puras’ (ideal-típicas) seriam os extremos desse processo contínuo. O institucionalismo extremo (e, como tal, impossível) seria a pura e simples substituição da política pela administração. É o ideal a que tendem  todas as formas de tecnocracia. A bandeira brasileira traz a inscrição ‘ordem e progresso’, que se originou de um lema da Igreja Positivista. Mas também um populismo extremo, baseado na pura mobilização e sem objetivos de transformação institucional, constitui uma opçao impossível. Na prática, as políticas sempre se constroem em algum ponto interior desse processo contínuo, nunca em seus extremos. Cada mobilização e cada regime representam uma combinação, em proporções variáveis de populismo e institucionalismo.
É aqui que nos deparamos, talvez, com o traço mais original dos regimes nacional-populares latino-americanos: uma dosagem difícil, mas no conjunto bem sucedida, do que denominamos a dimensão horizontal da autonomia e  a dimensão vertical da hegemonia. A dimensão da autonomia se refere à mobilização espontânea a partir de uma pluralidade de demandas sociais (demandas que, como explicamos neste livro, tendes a se associar em cadeias de equivalência). A idéia de hegemonia se refere à transformação do Estado e à ampliação da esfera pública”.
……….
“O pior que pode acontecer a um processo incipiente de transformação é ficar paralisado entre Cila e Caríbdis, isto é, entre dois demônios: ou seduzido por uma perspectiva puramente liberal, que aceita as formas institucionais existentes como único marco possível de acionar o público, ou estimulado por uma política de puro protesto, que se esgota em sua autorreferência.”
 

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22 Comentários
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  1. MARCOS ROGERIO GOMES

    28 de dezembro de 2013 1:30 pm

    “O Populismo e Sua Historia” – Jorge Ferreira

    Pra mim, esse é um livro fundamental, porque questiona o caráter negativo do conceito. Pois quando se fz política pública se é populista, quando se diminui a desigualdade se é populista, quando se diminui o desemprego se é populista, isso de Getúlio a Lula.

    1. Andre Araujo

      28 de dezembro de 2013 9:45 pm

      Nada a ver.. Populismo e uma

      Nada a ver.. Populismo e uma praxis, um processo instrumental, pode servir para qualquer causa, inclusive para justificar a guerra, caso de Mussolini e Hitler.

  2. joselacerda

    28 de dezembro de 2013 1:43 pm

    Perde o nome

    Um amigo está lendo o livro do Laclau e já veio debater comigo ontem à noite. Não li ainda. Mas já tenho uma objeção: tem que mudar o nome do populismo, pois trata-se de um pré-conceito. E a tradução em português para “A razão populista” não é feliz. Quando ler, não quero que seja em vernáculo.

    Narrei ao meu amigo o périplo que fiz em três delegacias de polícia em Goiânia, ontem pela manhã, para registrar um B.O. em razão de invasão em minha conta no BB e de compras não autorizadas em meu cartão de crédito. Lá, nas salas de espera, vi manifestações de compadrio explícito entre agentes de polícia e os seguintes atores sociais: advogados, ricos-de-carrão-branco, repórteres. Os demais atores sociais (mulheres-pobres-buscando-filhos-detidos, idosos-ameaçados, cidadãos-comuns – incluso eu, ali) foram tratados com certa indiferença e, às vezes, com hostilidade. Os compadres eram tratados com calorosos apertos de mão, abraços-com-meio-corpo e um “pode entrar” gentil. O vozerio que vinha lá de dentro indicava certo congraçamento.

    Entendo que Laclau queira compreender o que se habituou denominar “populismo” e que faça isso pela lógica e natureza das identidades coletivas. Mas penso que vagará em círculos e não em espiral: essa palavra “natureza” remete a certo essencialismo. Mas vou ler primeiro… De qualquer forma, no caso do Brasil, o compadrio tem que ser incluído na análise.

    Depois de quatro horas de espera, consegui meu B.O.

    1. Jair Fonseca

      28 de dezembro de 2013 2:04 pm

      Compadrio, paternalismo e “cordialidade”

      Quanto ao compadrio e ao paternalismo, até hoje é fundamental a noção de “cordialidade” como marca das relações sociais no Brasil, conforme Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil. Como se sabe, o “homem cordial” não é afável ou amigável com qualquer um, mas com quem tenha interesses em comum que lhe favoreçam. Trata-se de agir, com o “coração”, na esfera pública como se ela fosse privada. Nesse contexto, a noção de cordialidade até hoje tem sido mal compreendida por quem não leu o livro.

  3. Marcos Antônio

    28 de dezembro de 2013 1:44 pm

    Parte da definição da

    Parte da definição da wikipédia para populismo se encaixa como luva no LULA? na Dilma? no Hugo Chaves?

    Não!!!

    Se IGUALA AO PIG! 

    Veja aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Populismo

    “O termo populismo é utilizado para designar um conjunto de práticas políticas que consiste no estabelecimento de uma relação direta entre as massas e o líder carismático (caudilho), sem a intermediação de partidos políticos. Assim, o “povo“, como categoria abstrata, é colocado no centro da ação política, independentemente dos canais próprios da democracia representativa. “

    1. helbert

      28 de dezembro de 2013 5:03 pm

      Se encaixa como uma luva para

      Se encaixa como uma luva para LULA.

      Lula tem carisma e utilizou deste fato para apequenar o PT e de certa forma o congresso e as instituições. Lula sempre pregou que é o pai salvador dos pobres e nunca na história deste país ninguem havia feito nada pelos pobres. Para Lula o Brasil começou em 2003 e o povo foi iludido que o governo pode fazer por eles o que eles deixarem de fazer.

  4. alexis

    28 de dezembro de 2013 2:52 pm

    Depende da instrução do eleitor

    As pessoas mais pobres ou menos instruídas civicamente ainda enxergam a política de uma forma paternalista e isso é chamado “espertamente” de populismo, quando essa atração paternal é dirigida em favor de algum político do lado popular. Pessoas mais instruídas, com conceitos mais decantados sobre política e, ainda, com opção clara sobre o que acham melhor para o país, votam apenas pelos partidos que representam os seus ideais e, normalmente, onde participam ativamente. O populismo é maior em países com população menos instruída e vice-versa.

    1. Anarquista Lúcida

      28 de dezembro de 2013 7:40 pm

      O mito da instruçao como diferenciador essencial entr as pessoas

      Puro mito, como se pessoas instruídas votassem de modo mais racional, e nao de acordo com seus interesses. Os favoráveis ao rentismo sao menos instruídos que os outros? Nao, né, ao contrário… Os banqueiros e latifundiários tb sao em geral mais instruídos do que a média dos habitantes, e nem por isso querem o bem comum. A instruçao é uma coisa muito boa, mas nao muda a natureza de ninguém, nem torna ninguém melhor que os outros. 

      1. Andre Araujo

        29 de dezembro de 2013 2:48 am

        Isso e muito esquematico, na

        Isso e muito esquematico, na vida real nao e assim. Tem banqueiros sem curso primario e tem professores universitarios pobres, nao ha essa ligaçao simples entre em quem vota, instruçao e riqueza.

        1. Anarquista Lúcida

          29 de dezembro de 2013 3:02 am

          Parece que bebe… Já ouviu falar de estatísticas?

          Qual a percentagem de banqueiros sem curso primário? Chega a 1%? 

          Quanto a professores universitários pobres, há muitos apenas remediados, sei muito bem disso. Mas dizer que sao pobres, comparados com a populaçao brasileira, seria demagogia. 

    2. Ed Döer

      28 de dezembro de 2013 8:16 pm

      Alexis,
      Eu não debitaria tudo

      Alexis,

      Eu não debitaria tudo na educação (instrução), creio que teria um lado cultural também, pois a formação do Estado brasileiro teria papel significativo para chegarmos onde estamos hoje. Nossa origem reside no patrimonialismo português e mesmo depois de independentes, continuamos nesse caminho até a proclamação da República, no fundo, “tudo” era do rei e dos amigos. 

      E mesmo no período republicano, só com Vargas que passamos a ter uma noção mais “clara” de Estado, com a criação do DASP e a burocratização da administração pública. E esse mudança pode não ter sido necessariamente uma ruptura com o passado do país e sim uma “evolução” de um patrimonialismo para um paternalismo e/ou populismo.

      Por fim, creio que não faltam pessoas instruídas no país, que votam mais contra um projeto (petista) e nem tanto por acreditarem nas ideias do outro lado.

  5. Walker

    28 de dezembro de 2013 3:27 pm

    Populistas famosos:

    Populistas famosos: Mussolini, Getulio Vargas, Juan Peron, Lula, Hitler, Stalin, Chavez, Castros, Evo….a lista e’ grande…

     

    1. Filipe Rodrigues

      28 de dezembro de 2013 4:58 pm

      Esqueceu do 1° populista da

      Esqueceu do 1° populista da história (Franklin Roosevelt). Chávez, Castro, Lula e Evo são populares.

      Populista é o burguês com sensibilidade social, Popular é o oriundo das classes menos abastadas.

      1. Walker

        28 de dezembro de 2013 6:26 pm

        Novilingua na area e a

        Novilingua na area e a incrivel capacidade dos comunistas em deturpar o sentido das palavras. Guerra e’ paz, liberdade e’ escravidao, amor e’ odio….

        Muita cartilha infintrada no cerebro….

        1. nilccemar

          28 de dezembro de 2013 8:59 pm

          O verdadeiro sentido das

          O verdadeiro sentido das palavras se obtém através de leitura. Tanto as leituras acadêmicas como as ficcionais alargam os horizontes, expandindo a capacidade de apreensão dos significados das palavras. Também o conhecimento de sua origem etmológica ajuda. A deturpação é feita por quem ideologija os termos, impregnando-os dos sentidos que eles querem: os outros, que bem conhecem as palavras e reais e amplos os sentidos, não são obrigados a capitular de sua inteligência para atender à necessidades ideológicas, mormente as opostas aos seus interesses, inclusive culturais. Portanto, não se preocupe, quem conhece bem as palavras e a realidade não se deixa enganar.

      2. Walker

        28 de dezembro de 2013 6:36 pm

        Tem alguma coisa errada no

        Tem alguma coisa errada no teu raciocimio em tachar (na tua novilingua) Fidel Castro de popular. Fidel era filho de latifundiario e da elite cubana. Fez a Revolucao? Fez. Sera por altruismo ou psicopatia?. De capataz de fazenda a capataz de Pais, por infinitos 50 anos…

         

        1. nilccemar

          28 de dezembro de 2013 8:52 pm

          Ele fez uma opção política em desacordo com suas origens

          Ele fez uma opção política, pelos pobres, em desacordo com suas origens. Isso é o que vale, suas açães concretas e efeitos, não suas origens de classe, fator aleatório. João Goulart também era um bem sucedido fazendeiro, e é a ele que devemos, por exemplo, o salário mínimo padronizado nacionalmente, uma das maiores conquistas populares. Nem sempre a origem de classe determina a ideologia de classe que os indivíduos efetivamente assumem.

        2. Andre Araujo

          29 de dezembro de 2013 2:57 am

          Nao ha obrigatoria relaçao

          Nao ha obrigatoria relaçao entre o individuo na Historia, sua classe social e sua ideologia. O Principe de Talleyrand, da mais alta aristocracia francesa, de nobreza maior do que os Bourbon foi Ministro do Exterior da Revoluçao Francesa.

          Giorgi Chicherin, primeiro Chanceler da Uniao Sovietica era nobre e latifundiario, Chu En Lai, Primeiro Ministro da China Comunista era de familia mandarim aristocrata, Nehru, lider indiano na Independencia, muito popular, era de familia aristocrata. Castro era de familia de posses mas nao da elite cubana, seu pai era um imigrante espanho e sua mae uma domestica, Peron , maior populista latino americano era Coronel de um Exercito quase fascista, Vargas era filho de General, fazendeiro e politico da Republica Velha antes de ser populista, Adhemar de Barros, o primeiro populista Governador de S.Paulo era de familia da aristocracia cafeeira, a pessoa, sua trajetoria e sua classe e familia nao tem uma ligaçao necessaria.

      3. Andre Araujo

        28 de dezembro de 2013 11:46 pm

        Franklin Roosevelt primeiro

        Franklin Roosevelt primeiro populista da Historia? Roosevelt era um estadista, bem acima do populismo, que faz apelo ao emocional e a demagogia das massas sem realmente realizar um programa consistente de governo.

        Roosevelt fez no geral um bom governo com medidas concretas e nao apenas apelativas. Mais do que tudo foi um estadista de alta sofisticaçao ao montar as alianças da Segunda Guerra, pode ter tido alguns tons de populismo mas nao da para dizer que foi um populista, termo bem mais ajustado a politicos latino americanos de menor categoria.

        Quanto a primazia, o populismo e bem mais antigo, o Imperador Nero ja era um populista na linha do “pao e crcio”. Cromwell tambem foi um populista ao depor o Rei e tentar governar com apelos a massa sem ter um programa exequivel de governo.

        1. Fernando G. Trindade

          29 de dezembro de 2013 1:37 pm

          O André está hoje de muito

          O André está hoje de muito ‘má vontade’ como o populismo. Em 9/06/2012 em bom texto que publicou neste blog sobre a história política de São Paulo ele chegou a nominar Mário Covas como populista (‘o único populista tucano conhecido’), o que me parece bem interessanterazoável, pois Covas foi janista e Jâniofoi um personagem político obviamente populista, embora híbrido, pois soube muito bem atrair o elitismo udenista e antipopulista com sua retórica moralista.

  6. picia

    28 de dezembro de 2013 3:29 pm

    comecei com empolgação a ler

    comecei com empolgação a ler A razão populista, porém achei uma leitura difícil.  Muitos conceitos refinados, complicados para leigos.  acho que deve ser uma contribuição valiosa, mas eu só consegui aproveitar parcialmente

  7. nilccemar

    28 de dezembro de 2013 8:39 pm

    Concordo com você

    Vá fundo em seus estudos. Realmente, a simples designação populismo é pejorativa, subsume a designação isenta: popular. Logo depois do pseudo julgamento, o juiz relator _ que foi também investigador e, posteriormente, aplicador de penas na vara das execuções penais _ figura emblemáticas destes tempos, explicitou, concetradamente, o que pensa da democracia e no poder do povo na frase de que falava como era preciso controlar a soberania popular ( ! ) Tem implícito um valor aristocrático, parecido com monárquico, no qual os governo seriam de origem divina, e exercido por excelentes, no caso, pelos que tinham sangue azul. Mas, isso é aparente, na realidade seus valores não coincidem com os aristocráticos, da dignidade, honra, lealdade; como poderia ser aristocrata sem aristocracia nem de origem nem de valores ? Sendo um pós-monarquista, trata-se de um burguês, assumindo seus reais valores. Exatamente no sentido do que está ocorrendo agora, e que começou a ser intentado, e não parou mais, nas experiência nazistas de construção do novo homem, que deveria assumir sua condição natural  de perversidade. Os burgueses, traficantes em suas origens remotas, fizeram sua revolução, assumiram o poder econômico,  e agora impõem seus autênticos valores. O populismo foi por eles tolerado para manter Estados Nacionais íntegros para manutenção da sociedade produtiva de massas, agora, parece que não está lhes servindo mais. Estamos numa revolução bem profunda, numa fase de inversão de valores, aguns fundamentais de toda história da Humanidade. Não buscam uma fundamentação do poder, como no pensamento da Teoria Política Clássica, buscam a abolição do pensamento que gera essa necessidade. Ou seja, para eles o poder se instala e pronto, porque eles são superiores, não precisa ser justificado.

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