A engenharia em transe, por José Manoel Ferreira Gonçalves

Ocorre que nem só nas empresas públicas e nos governos os desmandos e desvios acontecem, muitas vezes às claras, contando tão-somente com a miopia dos entorpecidos por negacionismos

Porto de Santos – Divulgação

A engenharia em transe

por José Manoel Ferreira Gonçalves

“O fascista fala o tempo todo em corrupção. Fez isso na Itália em 1922, na Alemanha em 1933 e no Brasil em 1964. Ele acusa, insulta e agride, como se fosse puro e honesto. Mas o fascista é apenas um criminoso comum, um sociopata que faz carreira na política.

No poder, essa direita não hesita em torturar, estuprar e roubar sua carteira, sua liberdade e seus direitos. Mais do que a corrupção, o fascista pratica a maldade.”

Norberto Bobbio

Quando, na semana passada, a direção editorial do GGN, provavelmente o site noticioso mais confiável da Internet brasileira, me concedeu este espaço para tratar de desenvolvimento, de modais de transporte e de meio ambiente, imaginei começar de pronto uma série de artigos com um levantamento histórico das ferrovias no Brasil, para, a partir daí, começar a tratar do contexto atual dos trilhos e de postulados de consenso para soluções emergenciais.

Contudo, a notícia de que se pretende privatizar o Porto de Santos, maior porto da América da Latina, como se se estivesse vendendo uma sorveteria, sem levar em conta o prejuízo público e empresarial, diminuição na nossa competividade e o entrave para o desenvolvimento nacional, me obrigou a mudar o rumo da prosa. A seu tempo, daremos aqui novas notícias, por enquanto apenas exortamos a todos que acompanhem de perto e, o quanto possível, ajudem a evitar esse mal.

Creio que em tempos em que pastores do MEC recebem supostamente em barras de ouro, estejamos dispensados de comprovar que algum desvio na privatização do porto esteja em vista. Até porque o óbvio ulula, como diria Nelson Rodrigues. Vamos investigar isso, na medida de nossas forças.

Ocorre que nem só nas empresas públicas e nos governos os desmandos e desvios acontecem, muitas vezes às claras, contando tão-somente com a miopia dos entorpecidos por negacionismos propagados por agentes mal-intencionados e por uma mídia comercial absolutamente venal, deslembrada do caráter de interesse público sob o qual o jornalismo se erige e se justifica e do seu compromisso com a verdade factual.

As autarquias não raro padecem do mesmo mal. Tanto mais quando falamos do Crea de São Paulo. Pois bem, a Justiça Federal de SP acaba de suspender licitação para uma obra na sede do Conselho de Engenharia.

Como noticiou a Folha de São Paulo, uma licitação de mais de R$ 190 milhões promovida pelo Conselho de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea/SP) foi paralisada pela Justiça Federal de São Paulo nesta quinta-feira (24/3).

O edital, publicado em 15 de março, previa como pagamento dos serviços de elaboração e execução da obra da nova sede, ora vejam, a permuta por seis imóveis do conselho paulista.

Segundo a Juíza Federal, Sílvia Figueiredo Marques, o edital limita a competitividade, já que muitas empresas de engenharia poderiam estar interessadas em participar do certame, mas não em receber imóveis como forma de pagamento. A suspeita recai sobre o direcionamento da concorrência, que estava prevista para ocorrer já no dia 18 de abril.

Malgrado os malfeitos perpetrados na força-tarefa da Lava Jato, o Ministério Público brasileiro, em seus vários níveis, tem feito um trabalho fundamental, mas não pode, claro, tudo investigar. Neste caso, o dolo que a Juíza Sílvia Figueiredo Marques evitou adveio de uma ação popular proposta por mim, na condição de Engenheiro civil que sou de direito e de fato. O fiz, na verdade, representando uma série de profissionais, uberizados e não uberizados, notadamente aqueles que compõem a FerroFrente, uma entidade que presido por benevolência deles.

Ora, é um caso com fumos de direcionamento, como tantos outros que já assistimos – como por exemplo o famosos caso da licitação de massa de tomate com um tempero que apenas um fabricante usa – em um edital assinado por uma diretoria que sub judice é que dirige a entidade.

“Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”, diria o Riobaldo no Grande Sertão do Guimarães Rosa, mas será que os seis imóveis que o Crea/SP iria repassar teriam destinatário certo? “O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

José Manoel Ferreira Gonçalves é jornalista, cientista político, advogado e doutor em engenharia. Dedica-se ao estudo da ecologia e meio ambiente, bem como aos modais de transporte, notadamente o ferroviário, para cuja bandeira milita.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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