A importância do PTB nos anos antes do golpe de 64

Comentário ao post “Um estudo clássico sobre 1964

CONSERVADORES PERDEM BASE SOCIAL E APLICAM “GOLPE PREVENTIVO” – O golpe de 64 foi bancado por civis e militares, sem dúvida alguma. Não existe golpe, insurreição, revolução ou coisa que o valha sem que exista uma base social coesa que de sustentação a esses movimentos. Ocorre que há muitos mitos no trato desse infeliz episódio da história do país. O governo João Goulart tinha um amplo apoio social, tinha uma base social muito forte e coesa (os golpistas também tinham). A aprovação ao governo João Goulart era positiva e o apoio às Reformas de Base também era positivo.

O que amedrontava setores importantes da classe média e dos miitares era a ascensão gradual e constante do PTB no Congresso Nacional. Em 1945, em que pese o apoio da figura de Getúlio Vargas, o PTB era minúsculo, elegeu apenas 08% dos deputados federais e 04 das 42 vagas disputadas para o senado. O grande partido do Brasil entre 45 e 64 era o PSD, também criado por Getúlio Vargas. No governo de Eurico Gaspar Dutra, o PSD controlava metade do Congresso Nacional.

Em 1945, o PTB elegeu 22 deputados federais. Em 1950, aumentou para 51. Em 54 atingiu o número de 56 deputados. Em 58 elegeu 66 parlamentares. Em 62 subiu para impressionantes 116 deputados federais, ultrapassando a UDN, tornando-se pela primeira vez a segunda força política da Câmara e tendo apenas 02 deputados a menos que o até então todo poderoso PSD que elegeu 118. Extrai-se daí que é uma rotunda falácia, conservadora e mistificadora, dizer que o governo João Goulart não tinha apoio popular! Muito antes pelo contrário, o PTB só fazia crescer, ininterruptamente desde a sua fundação em 45. E crescia vigorosamente também após a morte de Getúlio Vargas, para desespero dos golpistas…

O crescimento insuperável do PTB, a força militante e a imensa base social do partido trabalhista é que eram o pano de fundo, o caldo de cultura que aterrorizava os conservadores que minguavam eleição após eleição. Se o governo de João Goulart fosse tão fraco, inepto e sem base parlamentar e social, bastaria aos golpistas operar através da Legalidade. Ou seja, poderiam ter feito o impeachment de João Goulart ou até mesmo poderiam esperar o término de seu mandato em 1965 (o governo não era inepto e sem apoio popular?) para eleger o corvo Carlos Lacerda presidente da república! Porque não o fizeram e optaram pelo golpe relâmpago?

A grande e incontestável verdade que os conservadores teimam em esconder é que o PTB, tal e qual o PT atual, era o partido da massa trabalhadora dos grandes centros urbanos. Era disparado o partido mais popular do país e só fazia crescer e crescer cada vez mais ao longo do tempo. O medo não era de João Goulart, ele não conseguiria aprovar as reformas de base naquela oportunidade… O medo era porque o PTB estava politizando a discussão e as eleições de 1965 (se o processo democrático tivesse transcorrido normalmente) traria consigo uma estrondosa vitória do PTB, que transformar-se-ia no maior partido do Congresso Nacional, suplantando o PSD (a UDN golpista já havia ficado no chinelo há muito tempo…).

Mais do que isso, em 1965 o cenário era de uma linda eleição presidencial disputada por João Goulart ou Leonel Brizola pelo PTB, Carlos Lacerda pela UDN e Juscelino Kubitschek voltando pelo PSD. A probabilidade de vitória de Carlos Lacerda era nula e devido a ascenção irresistível do PTB, já não era mais possível garantir que Juscelino (favoritíssimo) ganharia com a facilidade que os analistas da época imaginavam. Os golpistas tinham plena consciência de que o povo estava se educando políticamente e de que por dentro da democracia não teriam como segurar as reformas de base, que se eram impossíveis de ser implementadas com João Goulart, eram inevitáveis no horizonte próximo graças ao crescimento do PTB. 

Bom destacar também que pela ‘esquerda’, João Goulart era massacrado pelo PCB. Alguém lembra da estúpida, maluca e deplorável capa do jornal Imprensa Popular em 24 de agosto de 1954 (suicídio de Getúlio Vargas)? A capa era a seguinte: “Abaixo o governo de traição nacional de Vargas”. Percebam o grau de miopia do PCB na época! O PCB daquela época ressentia-se do fato de que o partido da massa trabalhadora era o PTB e não ele, PCB. É o mesmo ressentimento que setores de ‘esquerda’ hoje nutrem com relação ao PT. Pois foi contra essa miopia e ressentimento de uma esquerda principista e sectária que João Goulart teve de lidar também.

Bom, mas e porque então a população não se insurgiu contra o golpe? Não se insurgiu porque João Goulart era João Goulart e não um Abraham Lincoln! Ao contrário de Leonel Brizola que lutava desesperadamente para organizar a resistência e, se necessário, partir para uma guerra civil em nome da Constituição, João Goulart contemporizou, não ofereceu resistência alguma aos golpistas, desmobilizou toda a base social do PTB e recolheu-se ao exílio. Tudo para evitar o ‘banho de sangue’ que assolaria o país se houvesse resistência contra os golpistas… Que falta fez ao Brasil naquela época uma atitude combativa de João Goulart! Abraham Lincoln não é celebrado até hoje como uma das maiores figuras políticas da história dos EUA? Tivesse ele contemporizado com os reacionários, latifundiários e escravocratas da época e a Guerra de Secessão não teria acontecido, o que fatalmente teria consequências trágicas para a história norte-americana. Sem a Guerra Civil bancada por Lincoln contra o atraso e seus reacionários representantes, entre 1860 e 1865, os EUA não seriam a potência que são hoje.

Enfim, em breves palavras tento desmisticar um pouco o que ronda esse debate sobre o golpe de 64, suas reais motivações, a base social dos atores envolvidos, o percurso das forças políticas no curso 45-64, etc… Lamentável e desgraçadamente, a burguesia brasileira é anti-nacionalista e burra ao extremo. Diferentemente da burguesia norte-americana que históricamente sempre lutou contra o atraso agro-pastoril, contra a escravidão e os contra latifundiários racistas e fascistas, ‘dignos’ representantes de teses obsoletas. A burguesia brasileira sempre foi débil em ações e miserável em compreender o seu papel histórico em Pindorama. Justamente por isso que os maiores saltos industrializantes do Brasil tiveram que ser encampados enquanto bandeira modernizante pelo Estado Nacional, diferentemente do que ocorreu nos países centrais da Europa e dos EUA.

A opção pelo golpe foi a tática dos conservadores para barrar a implementação e consolidação das reformas de base enquanto ainda tinham tempo para tanto. Cortaram o PTB pela raiz porque a população insistia em dar mais e mais respaldo ao partido trabalhista, enquanto abandonava gradualmente a UDN e o PSD. Fizeram o golpe contra o governo de Jango porque sabiam de seu caráter conciliatório e incapaz de bancar uma resistência. Sabiam que se esperassem para desfechar o golpe num eventual governo futuro de alguém como Leonel Brizola, haveria sim uma Guerra Civil e que a resistência venceria porque tinha um líder capaz de empreendê-la. Foi um “golpe preventivo”.

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