O exército de Coxey que pisou na grama, por Lúcio Verçoza

O exército, em questão, era formado por uma multidão de desempregados que marchava para capital com o objetivo de fazer com que o presidente adotasse uma política de geração de empregos

O exército que pisou na grama

Por Lúcio Verçoza

Vinha marchando um exército pela estrada. A cidade o aguardava. Alguns esperavam com desconfiança, outros com medo e ainda havia quem enxergasse nele a esperança. Ao chegar, o exército montou o acampamento em volta da grande fogueira e recebeu víveres. A maior parte da população entregou comida para que ele seguisse em frente, continuasse a marcha em direção à próxima cidade. E assim, o exército partia: atravessando, seguindo, com destino à capital.

Foi numa dessas travessias entre uma cidade e outra que ele avistou o exército. A marcha organizada, a visão da fileira formada por dois mil homens agrupados, logo o fizeram querer se juntar à tropa. O comandante aceitou o rapaz de imediato. O jovem tinha apenas dezoito anos, mas provavelmente já havia vivido mais do que o general: quando criança trabalhou como entregador de jornais, arrumador de pinos de boliche e faxineiro; aos quatorze anos de idade iniciou a vida de operário em uma fábrica de enlatados (com jornadas que duravam entre 12 e 14 horas de trabalho diárias); conheceu o oceano como marinheiro; emagreceu e sentiu as dores do labor extenuante na fábrica de juta. Até que um dia ficou desempregado e cruzou com o exército na beira da estrada.

O jovem, tempos depois, seria conhecido mundialmente por seus textos. O exército, em questão, era formado por uma multidão de desempregados que marchava para capital com o objetivo de fazer com que o presidente adotasse uma política de geração de empregos. Era chamado de Exército de Coxey e foi formado por tropas que saíam de diversos rincões do país. Os Estados Unidos estavam no ápice de uma crise aguda que levou milhões de pessoas ao desemprego. O encontro entre o futuro escritor e uma das tropas, comandada pelo general Kelly (um tipógrafo desempregado), se deu na madrugada de 17 de abril de 1894. Ele seguiu a marcha pelos dias seguintes, inclusive por rios, navegando pelos afluentes do Mississipi. Parte dessa história seria contada anos depois no livro A Estrada, e o escritor, que abandonou o exército antes dele chegar ao destino final, assinaria o relato com o pseudônimo de Jack London[1].

No caminho até a capital, o exército faminto de desempregados era muitas vezes recebido nas cidades com um misto de desespero e solidariedade. Eram muitas bocas para alimentar. Em algum momento da marcha, o jornal New York Herald publicou que “a melhor refeição para um vagabundo normal deveria ser constituída por chumbo, em quantidade suficiente para serem satisfeitos os apetites mais sólidos”[2]. Mesmo com essa campanha infame e com muitas deserções, o Exército de Coxey conseguiu finalmente chegar à capital no dia 30 de abril de 1894. Dizem que atravessou as ruas nem chorando e nem sorrindo. Rapidamente, os desempregados montaram um grande acampamento no gramado em frente ao Capitólio e, como “não podiam ser presos por protestar contra o desemprego, então foram presos por pisar na grama”[3].

Alguns dos maiores jornais da época publicaram que a prisão foi fruto de um julgamento jurídico, e não político. Outros homens de bem disseram que era uma incivilidade o Exército de Coxey pisar na grama, que a grama precisava ser protegida dos vagabundos. Algumas senhoras do andar de cima da sociedade se sentiram aliviadas ao saber que os líderes do exército estavam presos. Juristas notáveis afirmaram que as instituições estavam funcionando normalmente. Muitos dos que marcharam no Exército de Coxey continuaram a marcha por outros caminhos: fazendo bicos, migrando de uma cidade para outra, organizando greves em ferrovias, exigindo uma legislação para abolir o trabalho infantil, para reduzir a jornada de trabalho que desconhecia limites, reivindicando o direito à aposentadoria, contrapondo-se à mão invisível e pesada do mercado, buscando uma vida que fosse além do privilégio da servidão, escrevendo textos dentro de vagões para que nada disso fosse esquecido.

 

[1] LONDON, Jack. A estrada. [tradução Luiz Bernardo Pericás] – São Paulo: Boitempo, 2008.

[2] CARMO, Isabel do. Luta armada. Portugal: Dom Quixote, 2017.

[3] DORIA, Pedro. O povo de Obama. O Estado de São Paulo, 24 de janeiro de 2009.

 

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