Os oitenta anos da Guerra Civil Espanhola, por André Araújo

Os oitenta anos da Guerra Civil Espanhola, por André Araújo

No 17 de Julho se comemoram os oitenta anos do início da Guerra Civil de Espanha, um dos maiores acontecimentos políticos do Século XX. O maior historiador desse conflito, o inglês Hugh Thomas diz em seu clássico livro A GUERRA CIVIL ESPANHOLA que não é possivel compreender esse conflito sem conhecer dois séculos anteriores da história da Espanha, pois a Guerra Civil foi o desatar de nós amarrados nesses 200 anos anteriores, desde conflitos dinásticos como a Guerra de Sucessão Carlista, as invasões napoleonicas, os conflitos regionais, a questão religiosa, a questão colonial, as greves operárias, lutas que se acumularam para os acertos de contas nesses três anos.

O “alzamiento”, o levante militar, se iniciou no Marrocos Espanhól, na guarnição comandada pelo general Francisco Franco Bahamonde Salgado Araujo, galego, com apoio na Espanha continental dos Generais Emilio Mola e Jose Sanjurjo. A rebelião visava derrubar o governo da Frente Popular, de esquerda, presidido por Manuel Azaña, a chamada República Espanhola instaurada pela queda da Monarquia em 1931, na pessoa do Rei deposto Alfonso XIII, bisavô do atual Rei Felipe de Bourbon, foi a Segunda República no seu desenrolar histórico.

No começo as forças rebeldes conquistam a maior parte da Andaluzia e parte do norte da Espanha e da Catalunha, o governo da República concentrava Madrid, a Espanha central e parte da Mancha e Galícia.

Com o desenrolar do conflito, que por várias vezes estacionou, Franco recebeu o apoio cada vez mais ostensivo dos regimes fascitas de Mussolini e Hitler, enquanto a República era apoiada pela União Soviética. Ambos os apoiadores mandaram pessoal e grande quantidade de material bélico. Os Partidos Comunistas da Europa ocidental criaram um apoio especial através de BRIGADAS INTERNACIONAIS, constituídas por voluntários de todos os países, até do Brasil, e organizadas por um comando central em Paris chefiado por Josip Broz, mais tarde conhecido como Marechal Tito, Presidente da Iugoslávia, comitê que pagava as passagens e fornecia documentos falsos aos voluntários.

No lado Republicano grandes estrategistas como o General Enrique Lister, cuja briografia já publiquei aqui no blog por duas vezes. Extraordinário personagem, general de três exércitos (Espanha, Cuba e União Soviética), do lado rebelde (conhecido como Nacionalista). De início Sanjurjo e Mola morreram em um desastre de avião, deixando Franco como líder absoluto. Na Andalusia o General Queipo de Llano comandava a partir de Sevilha. O conflito se tornou a cada dia mais cruento. Os Nacionalistas executaram milhares de intelectuais e professores que consideravam de esquerda, poetas como Garcia Lorca. Os Republicanos tampouco faziam prisioneiros, eram executados a granel, a Igreja ficou majoritariamente ao lado de Franco, a intelectualidade ao lado da República, que teve grandes primeiros ministros, como Juan Negrin, professor de medicina, diplomatas como Alvarez del Vaio, chanceler de alto calibre.

Do lado franquista, o Duque de Alba, Embaixador dos rebeldes em Londres, Serrano Suñer, concunhado de Franco e chanceler dos rebeldes (morreu há pouco tempo, com mais de 100 anos, fiz artigo sobre ele aqui no blog).

A Guerra Civil Espanhola terminou com a conquista de Madrid por Franco, em março de 1939, quase tres anos depois do inicio, com um banho de sangue, ao final cerca de um milhão de espanhóis mortos, feridos ou exilados. A República se transladou para o México, país que só reconheceu o regime franquista após a morte de Franco, mantendo a República como um governo no exílio até 1976.

A Guerra Civil de Espanha foi um conflito épico, prelúdio da Segunda Guerra Mundial, que começou 6 meses depois do fim da luta na Espanha. Um dos fatores da queda da República foi a suspensão do apoio soviético em fins de 1938. Stálin preferia que a esquerda não vencesse na Espanha porque isso levaria a França e a Inglaterra a ter medo do comunismo perto de suas fronteiras e as levariam a se aliar a Hitler contra a URSS. Assim ele calculava.

Durante todo o conflito a França e a Inglaterra se fingiam de neutras, bloqueando o fornecimento de material bélico à Republica, o que ajudou os nacionalistas que recebiam material da Itália e da Alemanha clandestinamente, além da Legião Condor alemã, uma força aérea completa que lutava por Franco nos céus da Espanha.

Além de Hugh Thomas, há abundante literatura sobre esse conflito, autores como Gerald Brennan e George Orwell, romance de Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram). Orwell e Hemingway lutaram nas Brigadas Internacionais, a Brigada Abraham Lincoln, de voluntários americanos e a Brigada Garibaldi, de voluntários italianos. Tinham 2.000 homens cada uma, a Brigada Thalmann, de voluntários alemães tinha 1.600 soldados.

Foi também o conflito da hipocrisia, todos se declaravam neutros e fingiam não ver a Itália e a Alemanha abastecendo Franco e Stálin, armando a República em grande escala.

Seis meses depois do fim da Guerra de Espanha iniciou-se a Segunda Guerra Mundial, todos pensavam que a Espanha iria se unir à Alemanha e Itália, mas Franco ficou neutro e se manteve como ditador com o título de Caudillo até sua morte em 1976, conseguindo fazer seu sucessor designado, o Rei Juan Carlos. De certa forma, o regime franquista não teve descontinuidade e se mantém até hoje, embora em plena democracia.

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18 comentários

  1. http://advivo.com.br/comentar

    http://advivo.com.br/comentario/re-dos-herois-da-guerra-civil-espanhola-1

    General ENRIQUE LISTER, um dos grandes personagens da Guerra Civil Espanhola,  o maior dos comandantes pla Republica, lutou depois na Segunda Guerra onde foi um dos principais comandantes que defenderam Leningrado

    do cerco de 1.000 dias  pelo Exercito alemão, nomado General por Stalin, depois lutou na Revolução Cubana como

    um do generais das forças de Fidel Castro. Lutou tambem na Iugoslavia com as tropas de Tito contra os alemães.

    Mereceu extenso obituario do NEW YORK TIMES, acima reproduzido.

    Não tinha medo de nada, lutava na linha de frente, morreu de morte natural.

  2. Um filme que aborda esse

    Um filme que aborda esse período, embora de uma maneira bem inusitada, é o labirinto do fauno, do guillerme del toro. Recomendo.

     

  3. Por quem os sinos dobram

    Além do romance Por quem os Sinos Dobram, Ernest Heminghay deixou um (ou mais?) audio que ha poucos dias ouvi na Radio Culutre de Paris sobre a guerra civil espanhola. Muito densa sua narrativa da guerra. Dizem alguns pesquisadores que não tendo jamais se livrado do horror da guerra, Haminghay se suicida anos mais tarde, cansando de tudo.

  4. “Stálin preferia que a

    “Stálin preferia que a esquerda não vencesse na Espanha porque isso levaria a França e a Inglaterra a ter medo do comunismo perto de suas fronteiras e as levariam a se aliar a Hitler contra a URSS. Assim ele calculava.”…..Onde está provado isso?

    Telegrama de Stálin a José Diaz, em 15 de outubro de 1936:

    “Os trabalhadores da União Soviética apenas cumprem seu dever quando dão ajuda às massas revolucionárias espanholas. Eles estão conscientes de que alibertação da Espanha da perseguição dos reacionários fascistas não é uma causa privada dos espanhóis, mas uma causa de toda a humanidade avançada e progressista.

    Saudações Fraternas.

     

     

    • Stalin de fato ajudou muito,

      Stalin de fato ajudou muito, a ele interessava a continuidade da guerra civil mas não a vitoria da Republica, ao fim pediu o envio das reservas de ouro do Banco de Espana que foram enviadas para Odessa e até hoje estão na Russia, na época

      valiam 600 milhões de dores, hoje valeriam 30 vezes mais em dolares, a Russia nunca devolveu apesar dos esforços do Governo Espanhol até hoje.

      A mudança no apoio da URSS se deu só em fins de 1938, esse telegrama é de 1936, do inicio da guerra civil e nada tem aver com a politica real de Stalin que se insiria no jogo maior da geopolitica europeia pré-Segunda Guerra.

      • Sozinha

        A URSS ficou sozinha no apoio aos republicanos, e, na verdade, o que determinou a vitória dos fascistas foi a ajuda maciça da Itália e da Alemanha, acrescida e fortalecida pela sabotagem e leniência da Inglaterra, França e EUA. Como assinalou o historiador norte-americano E. J. Taylor: “Os EUA, a França e a Inglaterra foram colaboradores do Eixo e assim cometeram um dos crimes mais odiosos contra a liberdade nos tempos mdernos. “

  5. Vaaleu André,agora sei quem

    Vaaleu André,agora sei quem era Marechal Tito,nome de uma avenida importante aqui

    de São Paulo( isso é relevante ? haa,pra mim é!”cada cabeça é uma sentença”) como

    dizia o meu falecido Pai !!!!

  6.  
    Esses comunistas… ah,

     

    Esses comunistas… ah, esses moços!… Um desses rapazes endiabrados em tempos de guerra, não sossegam nem em tempos de normalidade, e, não deixam por menos. Agorinha um desses inconformados, mesmo tendo nos deixado, teve mais uma obra sua de arquitetura, agraciada como  Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

    Orlando

  7. O livro de Leonardo Padura O

    O livro de Leonardo Padura O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS, embora romanceando a História, e apesar de centrar tudo no personagem Trotski, é um livro de história, contada de uma forma muito profunda. É comparado a um filme de suspense, porque em cada página a gente se surpeende com mais uma tragédia. As quase 600 páginas são pouco para quem lê o livro, porque a gente ainda acha que faltou alguma coisa. Não cohecia o autor, mas fiquei bem ipressionada com sua capacidade de nos brindar com essa sua obra (imortal).

    Embora a Revolução Espanhola seja apenas um dos assuntos desenrolado na hostória, pra quem quer aprender um pouco mais, Padura consegue fustigar as nossas mentes para ir mais fundo.

  8. Pena que nunca acontecerá

    Pena que nunca acontecerá algo parecido no Brasil. Nosso povo aceita todo e qualquer tipo de arbítrio !!!

    Um monte de boizinhos sem cérebro. É isso que são os Brasileiros.

  9. Ações de Terror

         Grande parte dos historiadores militares,consideram a “guerra civil espanhola” como um preludio da 2a GM, principalmente quando analisam os aspectos mais “técnicos”, como a utilização do poder aereo, dos blindados, das concentrações de artilharia, do inicio da mobilidade das forças em cooperação, conceitos que constrataram com os combates e operações da 1a GM, no normal de academia, são estudadas duas campanhas semelhantes: a Guerra Civil Espanhola, como estratégica, e taticamente as confrontações russo-niponicas de Khalkhin Gol, como os prenuncios do que seria a 2a GM.

         Mas poucos se referem as “ações de terror”, não as criminais individuais ou cometidas por unidades esparsas, mas as conscientemente ordenadas e dirigidas pelo poder politico, e executadas como ações de Estado Maior , visando transformar o terror contra populações civis, como quanto a militares a eles opostos, em uma ARMA estratégica, e tais operações, cientificamente dirigidas, iniciaram-se, até como teste de campo, durante a guerra civil espanhola, dois exemplos de varios ocorridos são estudados, um aereo e outro terrestre.

          O aereo, baseado em Douhet e executado por Richthofen ( sobrinho ),imortalizado por Picasso, foi Guernica , algo “pequeno”, quando comparado a outras futuras ações, como Hamburgo, Dresden, culminando com Hiroshima e Nagasaki, já na area terrestre, o Massacre de Badajoz foi o “teste” de como um aniquilamento ( 10 % da população ) seletivo, uma “ação de terror ” pode contribuir para as operações militares convencionais, inclusive com a utilização de “forças especiais”, algo que posteriormente, em maior escala, seria visto na Polonia e Russia.

          A Catedral de Badajóz e as “Forças Especiais” : Muitos refugiados republicanos, civis e militares, refugiaram-se na Catedral Católica de Badajoz , crendo que os “falangistas” , católicos como eram, respeitariam o local sagrado e suas vidas seriam garantidas, mas Franco, Cabanillas e Yerro, ordenaram que suas forças “indigenas” (muçulmanos marroquinos do exército espanhol sublevado ), entrassem na Catedral e matassem a todos que lá estavam.

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