Teodoro Sampaio: o aniversário de um grande brasileiro, por Rômulo de Andrade Moreira

Teodoro Fernandes Sampaio foi, sem dúvidas, uma das grandes personagens da história cultural brasileira! Um homem negro e de origem paupérrima, foi engenheiro, etnógrafo, matemático, desenhista, historiador, geógrafo, naturalista, filólogo, escritor e professor.[3]

Teodoro Sampaio: o aniversário de um grande brasileiro

Por Rômulo de Andrade Moreira[1]

“Por que a Bahia é um lugar diferente, uma espécie de África dentro do Brasil, onde os negros parecem mais dotados de altivez e, ao mesmo tempo, as mazelas sociais dão ao visitante a impressão de estarem menos escondidas?”[2]

Teodoro Fernandes Sampaio foi, sem dúvidas, uma das grandes personagens da história cultural brasileira! Um homem negro e de origem paupérrima, foi engenheiro, etnógrafo, matemático, desenhista, historiador, geógrafo, naturalista, filólogo, escritor e professor.[3]

Nascido exatamente num dia 07 de janeiro, em 1855, na cidade de Santo Amaro, na Bahia, e mais especificamente no Engenho Canabrava, hoje situado no município baiano de Teodoro Sampaio, era filho de uma mulher negra escravizada, D. Domingas da Paixão do Carmo.[4] Ele também nasceu escravizado, mas foi alforriado na ocasião do seu batismo, a chamada alforria de pia.[5]

Na infância estudou em Santo Amaro até os dez anos quando, em 1865, foi levado para São Paulo pelo padre Manuel Fernandes Sampaio, e logo em seguida foi para o Rio de Janeiro, ingressando mais tarde no curso de engenharia na Escola Politécnica, curso que concluiu em 1876, para, logo depois, ser contratado como desenhista do Museu Nacional. Foi casado com Capitolina Moreira Maia, também uma mulher negra.

Sempre fiel às suas origens, retornou para Santo Amaro, já maduro, para rever a mãe e os irmãos, tendo conseguido a alforria de seus irmãos mais velhos – Martinho, Ezequiel e Matias – que ainda continuavam escravizados.

De volta ao Rio de Janeiro, “prosperou profissionalmente, ganhando cada vez mais prestígio e reconhecimento, integrando, em 1879, a Comissão Hidráulica, nomeada por d. Pedro II, tendo participado ainda de várias expedições científicas nos sertões da Bahia.” Retornando para São Paulo, em 1890, fez parte da Comissão Geográfica e Geológica e foi um dos fundadores da Escola Politécnica paulista, em 1893, tendo também ocupado o posto de diretor e engenheiro-chefe do Departamento de Águas e Esgotos do Estado de São Paulo. Foi também membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (1894) e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (1894); e, em 1919, foi aceito como sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Autor de inúmeros textos científicos e de obras importantíssimas[6], morreu no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1937, aos 82 anos de idade.[7] Dentre as muitas atividades exercidas por Teodoro Sampaio, “consagrou-se como um dos grandes pensadores brasileiros, tanto para os estudos da engenharia, da geografia, da arquitetura, quanto para os estudos antropológicos e sociológicos, tendo integrado a expedição do geólogo Orville Derby, ao vale do rio São Francisco. Também auxiliou o escritor Euclides da Cunha, do qual era amigo, com os seus conhecimentos sobre o sertão, principalmente para a criação de Os sertões.” No ano de 1912, foi presidente do histórico V Congresso Brasileiro de Geografia.[8]

A rua Theodoro Sampaio, localizada em Pinheiros, na cidade de São Paulo, é uma homenagem a ele, devido às suas inúmeras contribuições para a cidade. Há também o município homônimo no Estado de São Paulo e outro na Bahia, ambos em seu tributo. Deixou “um legado intelectual incomparável para a geografia, geologia, antropologia, historiografia, engenharia e arquitetura brasileiras.”[9]

Teve “uma carreira longeva como engenheiro civil, que começou em 1878 e terminou no ano de 1937, e se interessava por tudo: das plantas aos animais, das línguas e costumes indígenas ao clima da terra, tendo trabalhado com hidráulica, saneamento, cartografia, planejamento e gestão urbana, dando contribuições para a geologia, a geografia e a história, além de se aventurar pela etnologia, antropologia e linguística – ciências ainda não consolidadas em seu tempo; nada obstante sua variada área de atuação, ainda não teve a sua importância valorizada como devia, à altura da real importância de suas contribuições.”

Quando mudou-se para São Paulo, em 1886, a convite do geólogo americano Orville Derby (naturalizado brasileiro), chefe da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, “o interior paulista era em boa parte desconhecido e o engenheiro ajudou a explorar e cartografar a região – algo imprescindível ao poder público –, além de projetar obras para a navegação do rio Paranapanema. Sampaio estabeleceu a primeira base geodésica do país, na região de Sorocaba. A técnica é usada para representar cartograficamente, de modo plano, a forma esférica da superfície da Terra, fundamental para melhorar a exatidão dos mapas de grande extensão.”[10]

Aos 50 anos, voltou para a Bahia e abriu o seu próprio escritório de engenharia, quando foi o responsável pelo novo sistema de abastecimento de água de Salvador, entre outros trabalhos de infraestrutura e urbanização. Teve intensa atuação no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, que presidiu por 14 anos.[11]

Teodoro Sampaio foi, como se vê, um dos maiores pensadores brasileiros de todos os tempos, tendo legado ao mundo “uma bibliografia de vasta erudição geográfica e histórica sobre a contribuição das bandeiras paulistas à formação do território nacional, entre outros temas. Igualmente digna de consideração foi sua contribuição ao estudo de vários rios brasileiros, de pinturas rupestres em sítios arqueológicos nacionais, do tupi na geografia brasileira e da geologia no País.”

Os seus diários estão arquivados no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, entre os quais se encontra “uma carta de sua autoria, emocionante, direcionada a um senhor de escravos. Teodoro diz que como está prestes a se casar e, portanto, ´montando casa`, não tem todo o dinheiro estipulado para a compra. O escravo em questão é seu irmão. Ele queria cumprir uma promessa feita à mãe. Não se sabe se o proprietário de escravos fez ´a caridade pela liberdade`, como pede Teodoro. Mas em um outro trecho está anexada a carta de alforria de um outro irmão seu.”

Certa vez, conforme relata Carlos Eugênio Marcondes de Moura, ele foi vítima de um episódio de racismo explícito quando, “convocado para integrar a Comissão Hidráulica do governo brasileiro, que faria um estudo dos portos e das condições de navegabilidade do interior do país, foi o único do grupo a não ter seu nome divulgado no edital de convocação. Ao ser apurado o episódio, a justificativa do funcionário de gabinete foi a seguinte: ´poderia causar constrangimento aos outros estar ao lado de um homem de cor`. A comissão era coordenada por um engenheiro americano: William Milnor Roberts. A omissão foi reparada, mas a agressão a Teodoro já estava feita.”[12]

Segundo Schwarcz, “poucos conhecem vida e obra desse intelectual que participou ativamente da agenda política, cultural e social do país entre finais do 19 e inícios do 20. Foi intelectual polivalente, à semelhança de boa parte de sua geração que durante o Império viu nascer um Estado moderno, mas carente de profissionais aptos.
Não por coincidência o país converteu-se em paraíso de juristas, magistrados e de um grupo que tomava para si a tarefa de erigir nova realidade institucional. Era preciso mapear e integrar o país; desbravar os sertões desconhecidos; urbanizar as cidades; cuidar dos transportes e dar ao país um ar civilizado.  Mas há ruídos nesse processo e no caso particular dessa personagem.”

Segundo ela, “durante o Brasil Imperial (1822-1889) conheceu-se pequena abertura, que permitiu a presença de alguns poucos pretos e mulatos na corte. Mas tal inserção foi minoritária e problemática. Não por acaso Sampaio silenciou sobre sua paternidade, como foi ´discreto` acerca da história de sua família, ainda mais de sua mãe e irmãos, por quem, ao que tudo indica, pagou pela liberdade. Aí está mais uma história de um cidadão negro a comprovar o sucesso possível, mas também seu custo elevado. Há sempre acidentes e episódios de preconceito -expressos ou ocultos- a calçar tal tipo de trajetória. O fato é que suas obras sobre navegação, povos indígenas e saneamento, apesar de datadas, converteram-se em registros eloquentes de um Brasil que começava a se desenhar e reconhecer.”[13]

Teodoro Sampaio foi também deputado federal, especialmente “motivado pelos amigos, mas sem fazer política partidária, porque o desagradava: esta atividade ´não seduz lá muito aos espíritos que a moral há forrado de escrúpulos`, dizia Teodoro. Tornou-se inevitavelmente uma celebridade da época devido à sua erudição, competência e simplicidade. Com serenidade de espírito, operosidade científica e o característico labor sem alarde, Teodoro foi um importante personagem na busca pela dignidade dos negros, devolvida somente em 1888. Gilberto Freyre coloca-o em especial destaque junto com outros engenheiros negros, como os irmãos Rebouças. Chegou a concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, contra sua vontade, mas por impulso dos amigos. Entretanto não obteve êxito, aceitando a derrota com a humildade que lhe era característica.”[14]

Sobre Teodoro Sampaio, e para finalizar, escreveu o acadêmico Humberto de Campos: “foi o mais alto representante da raça negra no Brasil, dentre tantos outros na galeria enorme de figuras admiráveis que enriqueceram o patrimônio humano da nacionalidade, na fileira de vultos históricos, que sobe do fundo dos séculos e em que se veem Henrique Dias, Luis Gama, os dois Rebouças, Patrocínio, Silvério Pimenta, Cruz e Souza, Juliano Moreira.”[15]

Eis a minha homenagem a esse grande baiano, brasileiro e homem negro!


[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

[2] GRANAT, Fernando. “Bahia de Todos os Negros – As rebeliões escravas do século XIX. Rio de Janeiro: História Real, 2021, p. 9.

[3] Sobre a vida e obra de Teodoro Sampaio, veja-se a monografia de Arnaldo do Rosário Lima. Disponível em: https://ppgh.ufba.br/sites/ppgh.ufba.br/files/2_teodoro_sampaio._sua_vida_e_sua_obra.pdf. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[4] Quanto à identidade do seu pai há uma certa controvérsia, afirmando alguns estudiosos que ele era filho do padre Manuel Fernandes Sampaio, enquanto outros atribuem a paternidade ao major Francisco Antônio da Costa Pinto.

[5] Sobre as alforrias de pia, veja-se o trabalho “Na pia batismal: padrões de alforria e perfil dos alforriados nos registros de batismo de Campinas (1829-1845)”, de Talison Mendes Picheli e Ricardo Figueiredo Pirola, disponível em: https://proceedings.science/unicamp-pibic/pibic-2017/papers/na-pia-batismal–padroes-de-alforria-e-perfil-dos-alforriados-nos-registros-de-batismo-de-campinas–1829-1845-?lang=pt-br. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[6] Dentre suas obras, destacam-se: “Rio São Francisco e a Chapada Diamantina” (1906), “O tupi na geografia nacional” (1901), “Atlas dos Estados Unidos do Brasil” (1908), “Dicionário histórico, geográfico e etnográfico do Brasil” (1922) e “História da Fundação da Cidade do Salvador” (publicada postumamente).

[7] GOMES, Flávio dos Santos, LAURIANO, Jaime e SCHWARCZ, Lilia Moritz. Enciclopédia Negra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, pp. 537 e 538.

[8] Segundo Caroline Bulhões Nunes Vaz, essecongresso “ocorreu em meio a uma série de importantes eventos históricos que ajudaram a formar, afirmar e consolidar o campo científico da Geografia na Bahia e no Brasil, devido ao destaque dado ao ensino e à pesquisa da ciência geográfica àquela época.” Especialmente sobre a participação de Teodoro Sampaio no congresso, conferir: https://journals.openedition.org/terrabrasilis/1981. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[9] Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1386-teodoro-sampaio. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[10] Sobre esse período em São Paulo, conferir o trabalho de Ademir Pereira dos Santos e Rosa Matilde Pimpão Carlos, “Theodoro Sampaio e a primeira base geodésica do Brasil.”, disponível em: https://journals.openedition.org/terrabrasilis/2230. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[11] Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/engenho-e-arte/. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[12] Disponível em: https://www.geledes.org.br/teodoro-sampaio-2/. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[13] SCHWARCZ, Lilia Moritz. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2201201134.htm. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[14] CINTRA, Jorge Pimentel e SILVA, Marcelo José Ferreira. Disponível em: https://marconegro.blogspot.com/2006/01/quem-foi-theodoro-sampaio.html. Acesso em 06 de janeiro de 2022.

[15] CAMPOS, Humberto de. “Sombras que sofrem (Crônicas).” Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1935, pp. 129 a 133. Humberto de Campos, que era membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu essa crônica dias depois de saber que Teodoro de Sampaio, “por insistência de antigos discípulos e velhos amigos”, tinha apresentado sua candidatura para a Academia. Ao final, escreveu: “Teodoro, meu mestre, beijo-te as mãos engelhadas, escuras e gloriosas, pela tua deliberação! E só te peço uma recompensa: a alegria, a honra, a vaidade de sentar-me a teu lado, continuando a receber de ti, na casa dos mestres, as lições da tua modéstia, da tua bondade e da tua sabedoria!” Ele não foi eleito…

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1 Comentário

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Mauricio20

- 2022-01-07 18:02:43

Muito legal essa matéria, conhecia ele só de nome (da rua aqui em São Paulo), gostei muito de saber sua admirável história, poderiam fazer um filme ou série sobre ele e outros grandes homens e mulheres negros e negras que ajudaram a construir a história do país

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