10 de junho de 2026

A autonomia dos bascos e por que isso mexe com a Espanha

A história dos bascos regressa nos séculos, com uma cultura e língua próprias, passa por Guernica, chega ao ETA e à recente crise
O bombardeiro da pequena cidade de Guernica, no País Basco, pela Luftwaffe alemã, por ordem de Adolf Hitler, inspirou a tela de Pablo Picasso. Foto: Reprodução

A questão basca na Espanha voltou aos holofotes políticos nacionais e internacionais com a busca do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e seu líder, o presidente em exercício Pedro Sánchez, pela maioria absoluta no parlamento para a formação de um novo governo. 

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Com a bancada de parlamentares bascos sendo fundamental para se estabelecer a maioria, Sánchez cedeu a um acordo com o Partido Nacionalista Basco (PNV), celebrado nesta sexta-feira (10), que garante mais autonomia à Euskadi, uma das comunidades autônomas bascas, e anistia aos separatistas.

Essa anistia envolve os processados pelo plebiscito ilegal realizado na Catalunha em 2017, por parte do Junts, o Juntos pela Catalunha, partido político fundado em julho de 2020 pelo antigo presidente da Generalitat, o exilado Carles Puigdemont, o principal processado. 

A Generalitat, por sua vez, se trata da Generalidade da Catalunha: sistema institucional em que se organiza politicamente o autogoverno da Catalunha. Tem as suas raízes nas Deputações Permanentes, no século XIV, sob a administração da Coroa de Aragão. A sua sede é o Palácio da Generalidade, na cidade de Barcelona.

Ocorre que essa anistia acordada por Sánchez não tem sido aceita por partidos de direita, como o Partido Popular (PP), e a extrema direita, liderada pelo partido Vox e pelos ultras, grupos fascistas mais conhecidos recentemente por liderarem ofensas racistas nos estádios espanhóis, sobretudo contra o jogador brasileiro Vinícius Jr, do Real Madrid.

Como tais grupos e partidos cozinham um nacionalismo extremado, eivado de racismo e xenofobia, costumeiramente se associam à negação do País Basco, suas comunidades autônomas e ao preconceito regional, como acontece no Brasil com grupos racistas do Sul em relação aos nordestinos, por exemplo.     

Sem dúvida, os recentes episódios se somam à história dos bascos ligada à busca por autonomia, em alguns casos, e independência em outros, mas que habita o povo ocupante de uma região no norte da Espanha e sudoeste da França. No total, são 17 comunidades autônomas naquele território dispostas. 

País Basco era autônomo

Por outro lado, a história dos bascos regressa nos séculos, com uma cultura e língua próprias – o idioma oficial é o castelhano, mas também há um 45% da população que falam a língua própria do território basco, o euskera, uma língua que não procedeu do latim e é considerada uma das mais antigas da Europa. 

Durante grande parte da história, o País Basco teve autonomia, mas mudou significativamente com a unificação da Espanha no século XV. Segue abaixo um breve resumo dos principais acontecimentos envolvendo o povo basco, organizados por ordem cronológica.

Guerra Civil Espanhola (1936-1939)

Durante a Guerra Civil Espanhola, os bascos tiveram um papel significativo. A cidade de Guernica, no País Basco, foi bombardeada em 1937 por forças alemãs em apoio ao regime franquista, liderado por Francisco Franco.

Esse evento teve um impacto duradouro na psique basca e alimentou sentimentos nacionalistas, além de servir de inspiração para o pintor espanhol Pablo Picasso realizar o quadro universalmente conhecido como o retrato da barbárie, Guernica (na foto acima).

Ditadura de Franco (1939-1975)

Após a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, a ditadura que se seguiu reprimiu fortemente qualquer forma de regionalismo e nacionalismo, incluindo os movimentos bascos. A língua euskera foi proibida em muitas instâncias.

Transição para a democracia (1975-1983)

Com a morte de Franco, em 1975, e o estabelecimento da democracia na Espanha, os bascos viram uma oportunidade para buscar maior autonomia. O Estatuto de Autonomia do País Basco foi aprovado em 1979, concedendo um nível significativo de autonomia à região.

ETA (Euskadi Ta Askatasuna)

O grupo separatista armado ETA, fundado em 1959, foi uma força importante na luta pela independência basca. Eles conduziram uma campanha durante décadas, resultando em milhares de mortes. Em 2011, o ETA anunciou um cessar-fogo permanente e, posteriormente, em 2018, anunciou sua dissolução.

Atualmente, o País Basco possui um alto grau de autonomia, com seu próprio governo, polícia, e sistema educacional. Embora o ETA tenha se dissolvido, há ainda vozes dentro da região que buscam maior independência. 

No entanto, a maioria da população basca parece preferir soluções dentro do quadro constitucional espanhol, e as tensões separatistas diminuíram consideravelmente nos últimos anos.

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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