5 de junho de 2026

A Guerra total de cada um, por Felipe Bueno

Esse arrazoado sobre a hipocrisia de governantes e seus porta-vozes “independentes” não salva uma única vida no Líbano ou no mundo
Lasar Segall

A Guerra total de cada um

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por Felipe Bueno

Uma guerra total não interessa a ninguém, sentenciou o ainda presidente dos Estados Unidos Joe Biden dias atrás, na Assembleia Geral da ONU. Aquariano e desconfiado da essência humana, permito-me discordar. Mas a minha opinião pouco importa. Quero aqui apenas propor uma rápida reflexão sobre as palavras e suas repercussões.

Um agradável passeio pelo noticiário da imprensa hegemônica aqui do Brasil sobre as declarações de Biden teria nos levado a abraçar um desconhecido, comprar flores para uma pessoa querida, dar uma volta no parque, abrir uma cerveja ou planejar uma viagem cara. Famílias foram destruídas, casas, ruas e cidades desapareceram. Pessoas foram assassinadas e continuarão sendo. Mas, que alívio! Afinal de contas, algum líder de bom senso deixou claro que as desiguais cenas de violência que temos acompanhado no último ano – as do Oriente Médio, nas as nossas, claro – têm limites, e, portanto, devem acabar. Só faltou dizer antes que alguém se machuque.

Na língua portuguesa, a palavra total é adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino. No segundo caso, significa o todo de uma questão, ou o resultado de uma soma. No primeiro, que mais nos interessa aqui, seus antônimos seriam, por exemplo, incompleto(a) ou parcial.

Vem daí a primeira estranheza: se a guerra total prevista por Biden ainda não aconteceu, uma vez que sua bravata supostamente previne uma realidade futura, podemos deduzir que temos em andamento uma guerra incompleta. Visto que até agora pouco se fez em palcos como o ONU ou em gabinetes bem protegidos de autoridades públicas e privadas, fica claro que o conflito nas proporções atuais, ou seja, incompleto, sim, interessa, projeta e remunera bastante gente.

A reflexão fica mais interessante ainda quando usamos parcial como contrário de total. A riqueza de nosso idioma e uma certa maldade, como se fôssemos, eu e você, reencarnações do grande Diógenes, nos permite recordar que uma das acepções da palavra parcial é ser o oposto de imparcial – decididamente algo que Biden e boa parte da imprensa não são.

Lamento que esse arrazoado sobre a hipocrisia de governantes e seus porta-vozes “independentes” não salve uma única vida no Líbano ou em qualquer lugar do mundo. Mas, se provocar uns 30 segundos de reflexão, já estarei satisfeito.

Para concluir, imagino Joe Biden ou uma dezena de outras pessoas caminhando pelo destruído território libanês – tão sofrido desde muito tempo – e garantindo ao povo do Líbano, preso em seu pequeno universo, de onde não há esperança de fuga, que a guerra total não virá. Em silêncio, apenas ouvindo a conversa, estarão os fantasmas dos adultos e crianças já assassinados pelas forças armadas de Israel.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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