20 de junho de 2026

As virgens juramentadas da Albânia

Por Vaas

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Virgens Juramentadas 

A tradição das virgens juramentadas remonta ao Kanun de Leke Kukagjini, um código de conduta que foi passado verbalmente entre os clãs do norte da Albânia durante mais de cinco séculos. Segundo o Kanun, o papel das mulheres era severamente restrito. Elas tomavam conta das crianças e do lar, não tinham iberdade para votar, dirigir, realizar negócios, ganhar dinheiro, beber, fumar, ter uma arma, etc, tudo isto fazia parte do universo masculino.  Embora a vida de uma mulher valesse a metade da vida de um homem, a de uma virgem tinha o mesmo valor que a deste último -12 bois.  A virgem juramentada foi fruto de uma necessidade social em uma região agrária flagelada pela guerra e pela morte. Caso o patriarca da família morresse sem deixar herdeiros masculinos, as mulheres casadas da família poderiam ver-se sozinhas e sem poder algum. Ao fazer um voto de virgindade, as mulheres podiam assumir o papel masculino como chefes de família, portar armas, ser proprietárias e locomover-se livremente.  Elas vestiam-se como homens, adotavam uma postura masculina e passavam a vida na companhia de outros homens.   

Jill Peters

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Algumas também fizeram o voto como forma de evitar os casamentos arranjados. E outras tornaram-se virgens juramentadas para expressar a sua autonomia. Algumas se arrependeram do sacrifício, voltaram a ser mulheres e, mais tarde, casaram-se.   Conhecida em casa como “Pasha” (segunda foto), Keqi conta que decidiu tornar-se o homem da casa aos 20 anos, quando o seu pai foi assassinado durante uma briga. Os seus quatro irmãos opuseram-se ao regime comunista de Enver Hoxha, que governou a Albânia durante 40 anos, até a sua morte em 1985, e foram ou presos ou mortos. Ela diz que tornar-se homem foi a única forma que encontrou de sustentar a mãe, as quatro cunhadas e os cinco sobrinhos.  Reinando sobre a grande família na sua casa modesta em Tirana, onde as sobrinhas lhe servem brandy enquanto ela grita ordens, Keqi diz que viver como homem lhe permitiu ter a liberdade negada a outras mulheres. Assim, podia trabalhar na construção civil e rezar na mesquita ao lado dos homens. Mesmo hoje, os seus sobrinhos dizem que não ousariam casar-se sem a permissão do “tio”.  “Como homem eu tinha total liberdade porque ninguém sabia que eu era mulher”, diz Keqi. “Eu podia ir aonde bem entendesse e ninguém ousava me xingar porque tomaria uma surra. Eu só convivia com homens. Não sei como as mulheres falam. Nunca sinto medo”.  Ela se recorda de que, quando foi recentemente hospitalizada para passar por uma cirurgia, as outras mulheres no quarto ficaram horrorizadas ao descobrir que compartilhavam o aposento com um homem, e pediram transferência para um outro quarto.  Keqi afirma que o fato de ser mulher fez dela um homem mais compassivo. “Quando outros homens desrespeitavam uma mulher, eu dizia a eles que parassem”, e  que o fato de ter sido privada de uma vida de intimidade sexual foi um sacrifício necessário.  Acrescenta que não sente falta de filhos, porque sempre esteve rodeada de sobrinhas e sobrinhos. “Quando a minha convicção chegou a 100%, tive forças para jamais retroceder”.  Na Albânia, um país majoritariamente muçulmano, o Kanun é seguido tanto por muçulmanos quanto por cristãos, embora os turcos otomanos e os sucessivos governos tenham tentado limitar a sua influência. Esta prática continua até hoje em pequenas aldeias aninhadas nos Alpes, mas, com a modernização, esta tradição arcaica é, cada vez mais, vista como obsoleta.  O fotógrafo Jill Peters divide seu tempo entre Miami e Nova York. Fotos acima de seu projeto “Virgens juramentadas da Albânia” .

http://www.jillpetersphotography.comVia: http://www.featureshoot.com Texto adaptado: http://equattoria.blogspot.com.br/2011/12/virgens-juramentadas-na-albania.html

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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