5 de junho de 2026

Cazaquistão, um nó nas fronteiras com a Rússia e a China, por Gilberto Maringoni

O gatilho dos protestos foi um forte aumento nos preços dos combustíveis na virada do ano, para equipará-los às cotações internacionais, algo que lembra a política de internacionalização de preços da Petrobrás.
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Cazaquistão, um nó nas fronteiras com a Rússia e a China

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por Gilberto Maringoni

Muito complicada a situação do Cazaquistão, na Ásia Central, para além das disputas de torcida.

Há uma rebelião popular sem lideranças claras, ocorrendo concomitantemente em todo o país, com destaque para as grandes cidades. A reação das forças de segurança oficiais foi brutal. O regime é um remanescente apodrecido da Era Soviética, com fortes características autocráticas e ditatoriais.

O Cazaquistão é um país riquíssimo em recursos naturais. É o maior produtor mundial de urânio e o segundo de crômio, chumbo e zinco, além possuir a terceira maior reserva de manganês. A isso se soma o fato de deter extensas reservas de cobre, carvão, ferro, ouro e diamantes. Por fim, estão em terras cazaques a 11ª maior reserva mundial de petróleo e gás natural, cuja produção, na maior parte, abastece o mercado chinês.

O gatilho dos protestos foi um forte aumento nos preços dos combustíveis na virada do ano, para equipará-los às cotações internacionais, algo que lembra a política de internacionalização de preços da Petrobrás. Entre as exigências das ruas estavam o  cancelamento da majoração dos preços e o fim do governo. A prefeitura de Almaty, a maior cidade do país, foi incendiada e os aeroportos tomados por multidões.

O aumento dos derivados de petróleo foi revogado e o governo parlamentar caiu. Ao invés de refluirem, os protestos aumentaram. O presidente Kassym-Jomart Tokayev decretou Estado de emergência e valeu-se do Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO na sigla em inglês), braço de Moscou que envolve Rússia, Armênia, Quirguistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Cazaquistão. A Rússia imediatamente mandou tropas para reprimir os protestos.

Além do claro interesse geopolítico, Moscou busca manter sob seu controle o país onde se localiza a gigantesca e histórica base aeroespacial de Baikonur, plataforma de lançamento de todos os foguetes de seu programa espacial, há quase sete décadas. Para a China, com quem tem 1,5 mil quilômetros de fronteira, o Cazaquistão também é vital.

Até aqui não se viu entre os rebeldes exaltação às potências ocidentais, como ocorreu há alguns anos na Ucrânia, em Hong Kong, na Belarus ou na Síria. No entanto, objetivamente a rebelião interessa aos Estados Unidos. Putin, que enfrenta tensões pesadas na Ucrânia, tende a pesar a mão em relação ao vizinho.

As dificuldades estão em se examinar os imbróglios com a métrica democrática – e o governo cazaque está longe disso -, combinada com as razões de Estado na disputa entre Estados Unidos e a dupla Rússia-China. Na geopolítica global, seria um haraquiri Moscou (e Pequim) tolerar mais uma turbulência às portas de seu território. Do ponto de vista interno, as demandas iniciais dos manifestantes são justas.

Jogo pesado e complicado, para o qual não há soluções simples.

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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2 Comentários
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  1. Sergio Navas

    8 de janeiro de 2022 9:08 am

    Será?
    Qualquer semelhança dos fatos(estopim), com o aumento de R$ 0,20 no transporte coletivo
    em 2013, que acabou com o governo Dilma, é mera coincidência.

  2. Lidia Zorrilla

    8 de janeiro de 2022 2:24 pm

    Estes dois artigos complementam e aprofundam o entendimento da revolta no Cazaquistão
    https://dossiersul.com.br/estepe-em-chamas-revolucao-colorida-no-cazaquistao-pepe-escobar/
    https://dossiersul.com.br/a-revolta-no-cazaquistao-nos-traz-grandes-licoes-fabio-sobral/

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