10 de junho de 2026

Che Guevara e a Palestina, por Rasem Bisharat

Em junho de 1959, poucos meses após o triunfo da revolução, Che Guevara chegou à Faixa de Gaza, então sob administração egípcia.
Che Guevara em Gaza

Che Guevara e a Palestina: quando a revolução latino-americana encontrou o espírito da resistência palestina

por Dr. Rasem Bisharat

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Há mais de meio século, em 9 de outubro de 1967, silenciou-se o fuzil do revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara nas montanhas da Bolívia. No entanto, o eco de suas palavras permanece vivo em todo o Terceiro Mundo — das cordilheiras dos Andes aos campos de refugiados em Gaza.

Hoje, 58 anos após sua morte, surge novamente a pergunta: o que uniu o médico argentino que lutou nas selvas cubanas ao povo palestino que resiste à ocupação há décadas? Teria sido uma relação apenas simbólica ou Che deixou uma marca real no pensamento revolucionário palestino?

De Buenos Aires à Sierra Maestra e a Gaza

Ernesto Guevara de la Serna, conhecido mais tarde como “Che”, nasceu na Argentina em 1928. Abandonou os estudos de medicina para — como ele mesmo dizia — “curar o mundo da injustiça”. Sua viagem pela América Latina o transformou em um dos rostos mais emblemáticos da Revolução Cubana de 1959, que derrubou o regime de Batista, apoiado pelos Estados Unidos.

Mas Guevara não se contentou com a vitória cubana. Acreditava que a verdadeira revolução não conhece fronteiras, e afirmava que “toda revolução autêntica é uma guerra de libertação contra o colonialismo”. Essa visão internacionalista foi o que abriu caminho para o encontro simbólico entre ele e a Palestina.

Em junho de 1959, poucos meses após o triunfo da revolução, Che Guevara chegou à Faixa de Gaza, então sob administração egípcia. Embora a visita tenha durado apenas dois dias, teve um significado profundo: visitou os campos de refugiados de Al-Bureij e Al-Nuseirat, reuniu-se com líderes da nascente resistência palestina e visitou diversos campos de treinamento.

As fotografias de Che entre as tendas dos refugiados circularam rapidamente pela imprensa internacional, colocando a Palestina no mapa das “lutas de libertação mundial”. Sua visita conectou a luta contra o imperialismo na América Latina à resistência contra o colonialismo sionista no Oriente Médio.

Foi o primeiro líder mundial a tratar os palestinos como um movimento de libertação nacional, e não apenas como uma questão humanitária. O historiador palestino Salman Abu Sitta descreveu essa visita como “um evento histórico que marcou o início da internacionalização da causa palestina”.

De Guevara aos fedayin — uma influência profunda no pensamento e na prática

Nas décadas de 1960 e 1970, as facções palestinas, especialmente a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), começaram a adotar o discurso internacionalista inspirado nas ideias do Che.

Sua imagem era erguida nos campos de refugiados, acompanhada do famoso lema: “Hasta la victoria siempre – Até a vitória sempre.”

Muitos militantes palestinos se formaram na estratégia foco, baseada na criação de pequenos núcleos de resistência capazes de iniciar um movimento de massa — teoria desenvolvida por Guevara em Cuba e na Bolívia.

Alguns campos de treinamento palestinos no Líbano chegaram a receber o nome de “Campo Che Guevara”.

Até hoje, o nome de Che continua presente na memória popular palestina: ruas e cafés em Gaza e na Cisjordânia levam seu nome; murais o retratam ao lado de Gamal Abdel Nasser e Yasser Arafat; e no campo de refugiados de Nuseirat existe o Clube Cultural Che Guevara, fundado por jovens de esquerda na década de 1990.

Embora sua influência tenha sido em grande parte simbólica, os historiadores lembram que o simbolismo é parte essencial da força revolucionária.

Todo movimento de libertação precisa de ícones que transcendam as fronteiras geográficas para inspirar outros povos.

No 58º aniversário de sua morte, as palavras de Che ainda ecoam nas paredes de Gaza e da Cisjordânia: “Se eu voltar, voltarei com todos os pobres que acreditaram em mim.”

Talvez por isso, um artista em Khan Younis escreveu sob seu retrato: “Guevara não morreu na Bolívia… ele vive em cada rua que resiste à ocupação.”

Conclusão: quando as revoluções se cruzam

A história de Che Guevara com a Palestina não foi uma simples visita diplomática, mas um encontro simbólico entre duas revoluções que compartilham o mesmo objetivo: a liberdade.

Das montanhas da Sierra Maestra aos campos de refugiados, Che demonstrou que a revolução não tem nacionalidade e a justiça não se divide.

“Onde quer que haja injustiça, é dever de todo ser humano combatê-la.”

Em sua memória, repetimos suas próprias palavras — ainda tão urgentes hoje como antes: “Não se pode confiar no imperialismo — nem por um segundo, jamais.”

“Hasta la victoria siempre – Até a vitória sempre.”

Por Dr. Rasem Bisharat — Doutor em Estudos da Ásia Ocidental e especialista em assuntos latino-americanos

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados