Como o capitalismo e o monopólio de mercado colocam democracia global em risco

Tatiane Correia
Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.
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Concentração de poder econômico em poucas mãos acaba por dar mais poder político aos ricos, com consequências de longo prazo

Foto de Jorge Salvador na Unsplash

Um dos pontos que tem levado economistas e acadêmicos a questionar o regime econômico capitalista envolve um questionamento bem específico em torno da política: se o capitalismo apoia a democracia ou desencadeia forças antidemocráticas.

“A virada do capitalismo norte-americano em uma economia onde o vencedor leva tudo, onde uma ou duas empresas monopolizam cada setor à custa do consumo, do trabalho e do crescimento global – e, com isso, vem o tipo de poder que é visto como antiético à democracia”, diz Mordecai Kurz, professor emérito de economia da Universidade de Stanford.

Em artigo publicado no site Project Syndicate, Kurz explica que a influência capitalista sobre a democracia começou a ser questionada na chamada Era do Iluminismo, onde a democracia e o capitalismo eram praticamente duas faces da mesma moeda.

Essa mesma visão foi propagada nos Estados Unidos ao longo do século XX para, segundo o articulista, “convencer os eleitores de que o capitalismo de mercado livre é essencial para o ‘jeito americano’, e que sua liberdade depende do apoio à livre iniciativa irrestrita e da desconfiança governamental”.

Porém, o economista diz que essas crenças deveriam ser reavaliadas por conta da competição tecnológica entre empresas que querem concentrar poder de mercado – ao contrário da concorrência de preços, ela produz apenas um ou poucos vencedores ao invés de apenas reduzir os lucros de toda uma cadeia.

“O poder de mercado permanente altera o capitalismo ao inaugurar uma economia onde o vencedor leva tudo, onde uma ou algumas empresas tecnologicamente dominantes monopolizam cada setor”, diz o economista.

“Uma tal economia não apenas usa recursos de forma ineficaz, como também produz uma concentração de poder econômico e político que ameaça a democracia, cuja sobrevivência se torna então dependente da criação de novos instrumentos políticos para a proteger”, ressalta Mordecai Kurz.

Lucros monopolistas

Em condições competitivas, o rendimento que uma empresa cria é dividido em uma parcela de trabalho e uma parcela de capital. Porém, com poder de mercado permanente, esse rendimento é dividido em trabalho, capital e lucros de monopólio.

E é justamente a diferença entre rendimento de capital e lucros de monopólio um ponto central para o chamado ‘capitalismo tecno – o vencedor leva tudo’: enquanto o rendimento líquido pago ao capital consiste em pagamentos de juros às taxas de mercado prevalecentes, os lucros de monopólio extraído via preços superiores aos custos incrementais são pagos à fonte de poder de mercado: principalmente tecnologia de propriedade privada e outros direitos de propriedade intelectual.

“A maior parte dos lucros dos monopólios tem origem em inovações, mas a proporção de pessoas que investem em startups de risco ou em empresas envolvidas em inovações de risco é pequena. Os que mais lucram com uma inovação são o inovador e um pequeno círculo de consultores financeiros e investidores iniciais que compram as ações iniciais da empresa a preços baixos”, pontua o articulista, e isso ajuda a explicar porque os Estados Unidos possuem 756 multimilionários.

E a Escola de Chicago acabou por ter grande impacto nas ideias sobre monopólio: como lembra Kurz, o economista Aaron Director e o jurista Robert Bork argumentaram com sucesso no fim dos anos 70 que a Lei Antitruste Sherman “foi projetada para proteger os consumidores apenas garantindo que eles pagassem o melhor preço atual, uma interpretação que ignora as estratégias mencionadas anteriormente, usadas para construir monopólios ao longo do tempo e outros efeitos adversos do poder de mercado”.

Consequências políticas

E a mudança na dinâmica de mercado e econômica têm um alcance de longo prazo inclusive em termos políticos, como o aumento da desigualdade econômica – e por consequência da desigualdade política, por fortalecer a voz dos mais ricos”.

“Uma política passiva de mercado livre agrava tais resultados, porque os indivíduos são deixados à própria sorte e as políticas públicas não compensam os prejudicados nem atenuam as suas causas”, ressalta o economista, lembrando que aqueles com formação universitária e tecnicamente qualificados saem em larga vantagem ante os trabalhadores não qualificados e sem formação.

O principal ponto a se lembrar é que a desigualdade é gerada pela tecnologia e por políticas públicas de livre mercado, e quem perdeu seu sustento reconhece que a escolha política o fez vítima.

“(Eles) pagaram o preço para que outros se beneficiassem e para que alguns ficassem imensamente ricos, e como resultado a democracia americana foi enfraquecida. As evidências mostram que a maioria dos participantes no ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio eram ex-trabalhadores prósperos que foram deixados para trás”, explica Mordecai Kurz.

Por conta desses e outros fatores, o capitalismo delineado por Milton Friedman se encontra fora de sintonia e, como muitos ainda acreditam nele, acabam por bloquear reformas necessárias. E a falta de mobilização pública em torno dessas mudanças não só ameaça a economia nos Estados Unidos como no mundo.

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Tatiane Correia

Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.

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