Impasse e decepção adiam conclusão da COP27

Falta de acordo em temas-chave, como financiamento para países pobres que já sofrem com impactos das mudanças climáticas, emperra negociações

da Deutsche Welle

por Nádia Pontes do Egito

A 27ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP27) confirma uma tradição que vem se firmando: a reunião sempre se estica além do planejado. Com encerramento previsto para esta sexta-feira (18/11), as negociações em Sharm El-Sheikh, no Egito, se estenderão até pelo menos sábado.

Em quase três décadas de Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Unfccc), o encontro anual só cumpriu o prazo em duas ocasiões. Quando já era noite no Egito, a notícia de que John Kerry, enviado dos Estados Unidos, testou positivo para covid-19 aumentou o temor de que as negociações se arrastem de forma imprevisível.

Desta vez, o debate sobre o desligamento de todas as usinas movidas a combustível fóssil e a criação de um fundo para bancar as perdas e danos causados pelas mudanças climáticas são os principais impasses.

A menção feita ao fim da conferência de 2021 à maior causa das mudanças do clima, que são as emissões dos gases estufa a partir da queima de petróleo, gás e carvão, corre o risco de ser reduzida a uma versão ainda mais fraca no documento que sairá do Egito.

“Alguns países estão tentando enfraquecer aquilo que já foi alcançado quando, na verdade, a gente deveria ser mais ambicioso”, lamentou Natalie Unterstell, ex-negociadora do Brasil e atual presidente do Instituto Talanoa.

No começo da noite desta sexta, representantes da Climate Action Network (CAN) disseram a repórteres que a presidência egípcia da COP parecia trabalhar contra os resultados desejados nesta edição.

“Essa é a esperada conferência da África, é a esperada conferência da implementação. Nada disso está acontecendo”, criticou Eddy Perez em relação à maneira como o processo está sendo conduzido.

A grande decepção desta rodada é a incapacidade dos negociadores e dos países de entenderem a emergência de um fundo de perdas e danos que comece a operar rapidamente, opina Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil.

“Sem avanço nesta questão, a gente sai da COP da África com um gosto bem amargo”, diz à DW. “Criar o fundo é um gesto que admite que existem países muito mais impactados pelos eventos extremos e pela crise que não causaram e que precisam de apoio para enfrentar esses problemas”, complementa.

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Brasil no clima

O Brasil acompanha a posição firme dos países em desenvolvimento, alinhados no grupo G7 + China, de brigar pelo fundo climático. Segundo observadores, há três propostas correndo nas mesas de negociação, mas existem muitos “poréns” de países doadores, como União Europeia e Estados Unidos.

Para Márcio Astrini, do Observatório do Clima, essa situação traz muito prejuízo para a confiança do processo, que já está abalada por promessas passadas não cumpridas.

“O financiamento dos 100 bilhões anuais dos países ricos para a adaptação nas nações mais pobres está atrasado. É um dinheiro que já venceu. E a fala de John Kerry sobre não saber se haverá dinheiro para isso agrava tudo. É como se ele dissesse mais ou menos ‘virem-se aí, boa sorte'”, detalha Astrini, citando um pronunciamento do americano durante o evento de duas semanas.

Em sua passagem pela COP, Lula encontrou-se com Kerry. No discurso feito num evento paralelo às negociações, o presidente eleito disse que irá cobrar esse dinheiro, que deveria estar fluindo desde 2020. 

Quanto ao ritmo dos negociadores brasileiros, ainda sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, a postura é avaliada como pouco construtiva, sem mérito para destaque. “De toda forma, não temos o nosso ministro facilitando as questões mais críticas, e a nossa diplomacia está seguindo as posições orientadas pelo governo Bolsonaro”, diz Unterstell.

O ministro do Meio Ambiente Joaquim Leite, que preside a delegação, foi visto neste último dia crucial de COP num outro ambiente, à beira-mar, aguardando para mergulhar na região que tem uma conhecida barreira de coral.

O Brasil não foi poupado pelas mais de 1.900 organizações da sociedade civil que compõem a CAN. No tradicional prêmio Fossil of the Day entregue nas Conferências do Clima aos países que mais atrapalham o combate às mudanças climáticas, o Brasil recebeu menção “desonrosa” nesta sexta-feira.

“O país estava mudo nestas negociações, passou os últimos quatro anos tentando acabar com o Acordo de Paris e violando direitos humanos e ambientais”, justificou a ONG. “Adeus e boa viagem a Bolsonaro e ao seu desastre climático.”

“O mundo se afoga e queima”

Enquanto isso, o mundo fora dos pavilhões montados em meio ao solo desértico “está queimando e se afogando”, ressaltou António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, num discurso feito no dia anterior.

Os sinais de que o clima está se tornando uma ameaça à vida vêm da própria sede da COP. Sharm El-Sheikh, cidade turística às margens do Mar Vermelho que recebe mais de um milhão de visitantes por ano, enfrenta um grave quadro de escassez de água.

E a situação na cidade pode se agravar. Medições feitas desde a década de 1970 mostram uma tendência de aumento da temperatura e queda no volume de chuvas ligada às mudanças climáticas

Por 30 anos, a gente procrastinou, de certa forma, quanto ao tratamento que tem que ser dado aos combustíveis fósseis, eles só foram aparecer num texto da COP no ano passado. Agora não dá mais para tirar [do texto]”, comenta Unterstell sobre o principal vetor da crise climática .

Apesar de o vilão das mudanças climáticas ter sido identificado há décadas pela ciência, as emissões neste meio tempo só aumentaram. Uma análise recente da Agência Internacional de Energia (IEA) prevê novo salto em 2022, totalizando 33,8 bilhões de toneladas.

Outra conferência adiante

Em poucas semanas, o clima frio de Montreal, Canadá, sediará outra reunião apontada como fundamental para o bem-estar dos habitantes do planeta, a Conferência da Biodiversidade da ONU (COP15). Para biólogos que atuam no assunto, os dois debates, no Egito e Canadá, estão intimamente ligados.

“O desafio das mudanças climáticas discutido aqui é limitar o CO2 na atmosfera. A natureza por si só pode representar um terço da solução estocando esse gás, especialmente em florestas e mangues”, justifica Brian O’Donnell, diretor da organização Campaign for Nature.

Uma das propostas que O’Donnell considera fundamentais na COP15 é a proteção de 30% de áreas naturais do planeta até 2030, avaliada como tão importante como o Acordo de Paris.

Atualmente, estima-se que 15% das terras e 17% dos mares do planeta estejam sob alguma proteção. Para O’Donnell, o Brasil é fundamental também para que esse objetivo seja alcançado a tempo.

“As eleições brasileiras foram críticas para o futuro do planeta. Não há esperança de se alcançar políticas climáticas globais, ou os 30% de proteção do planeta até 2030, sem liderança do Brasil. É o país mais biodiverso do mundo, e ele tem que ter um papel central”, opina.

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