A Ucrânia e a Rússia começam a ver avanços em um posssível acordo para colocar fim à invasão russa ao território ucraniano. Enquanto Vladimir Putin enxerga uma possível abertura do presidente ucraniano para aceitar a neutralidade e não aderir à OTAN, Volodymyr Zelensky recua um passo atrás e rejeita o modelo proposto pela Rússia.
Nesta terça-feira (15), o avanço das conversas atingiu um dos ápices, quando o ucraniano Zelensky afirmou que “a Ucrânia entende que não está na OTAN”. Foi o gesto mais claro e significativo de que irá concordar com a proposta da Rússia de não adesão à aliança militar comandada pelos EUA.
“A Ucrânia entende que não está na OTAN. Durante anos, escutamos que as portas estavam abertas, mas também escutamos que não podíamos nos unir. Esta é a verdade e temos de reconhecê-la”, afirmou.
A partir daí, a Rússia reconheceu nas intenções da Ucrânia a possibilidade de se chegar ao tão esperado acordo. Na manhã desta quarta (16), contudo, Zelensky falou em rede nacional que o país “continuará lutando”.
Interpretou que “as reuniões estão em andamento” e que “as posições [para um acordo] estão soando mais realistas”, afirmou. Em controversa aos apelos de urgência aos países europeus e ocidentais para ajudar a Ucrânia na guerra e também para findar os confrontos, Zelensky mostrou que não tem pressa ao afirmar que “precisamos de mais tempo para tomar decisões que sirvam aos interesses da Ucrânia”.
As negociações chegam ao 21º dia de confronto entre as forças russas e ucranianas no país. Do lado russo, o assessor presidencial Vladimir Medinsky disse que as propostas feitas pela Rússia desde o início à Ucrânia não mudaram e que busca da fronteira um país “pacífico, livre, independente e neutro”.
“Precisamos de uma Ucrânia pacífica, livre, independente, neutra – não membro de blocos militares, não membro da Otan. Um país que é nosso amigo, um vizinho, com quem estamos desenvolvendo relações juntos, construindo nosso futuro, e que não é base para ataques militares e econômicos contra nosso país”, afirmou, segundo a mídia russa RIA Novosti.
Por parte da Ucrânia, ao que os negociadores da comitiva presidencial vêm indicado, não há muitas concessões, ainda que o gesto de não adesão à OTAN tenha sido dado.
“A Ucrânia está em uma guerra direta com a Rússia. Portanto, o modelo só pode ser “ucraniano” e apenas com base em garantias sólidas em termos de segurança”, disse Mikhailo Podolyak, da delegação ucraniana, segundo a agência de notícias AFP.
Com isso, a Ucrânia acredita que a segurança só pode ser alcançada com apoio de forças militares dos países ocidentais, em uma espécie de Tratado paralelo à OTAN, mas aliado, como ocorre na Suécia. O país não é membro efetivo, mas aliado.
Um dos objetivos do Kremlin ao solicitar uma Ucrânia neutra é desmilitarizar o país de forma a impedir armamentos e munições a grupos radicais ou contrários à Rússia, além de impedir a adesão das forças ucranianas em um possível ataque militar de outros países contra a Rússia.
Seria o exemplo da Áustria, em que as forças armadas estão atreladas a um tratado de neutralidade, assinado em 1955, em sua Constituição, que proíbe a entrada de alianças militares e o estabelecimento de bases militares estrangeiras em território nacional.
Um exemplo semelhante significaria para a Rússia o compromisso da Ucrânia nessa proposta.
Contudo, o país não parece estar disposto a adotar estas linhas. Isto porque além da divisão interna que emanece um desejo do país de se integrar à União Europeia e às forças militares ocidentais, como é o caso do bloco OTAN, o próprio presidente continua contando com o auxílio das forças militares ocidentais, com ao menos o envio de munições, o que vem sendo feito pela OTAN.
Assim, ainda que Zelensky afirme que a Ucrânia “entende que não está na OTAN” e que “não podemos nos unir” ao bloco, o líder depende do apoio estratégico e de armamentos dos países membros da OTAN, como Estados Unidos, Reino Unido, entre outros.
Ainda nesta quarta (16), Volodymyr Zelensky fez um discurso ao Congresso dos Estados Unidos, parafraseando Martin Luther King, com a famosa frase “eu tenho um sonho”, mas trazendo para a sua petição armamentista: “eu tenho uma necessidade: preciso proteger nossos céus”.
O apelo foi para que os EUA adote uma zona de exclusão aérea na Ucrânia, que significaria uma guerra nos céus do país, com a derrubada de aeronaves russas na Ucrânia. Disse, ainda, que se isso seria “pedir demais”, que os EUA enviem aviões e sistemas de defesa aéreo à Ucrânia.
Pontos do que significaria uma neutralidade para a Ucrânia no acordo estão sendo discutidos, ainda sem consensos, desde segunda-feira (14).
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