Uma semelhança não acidental entre Oriente e Ocidente
Por Fábio de Oliveira Ribeiro*
O lamentável atentado contra o escritor Salman Rushdie deve ser objeto de repulsa e condenação. Mas ele também pode se tornar um momento de reflexão sobre o momento em que vivemos. Instigado por essa ideia, reencontrei no fundo empoeirado de uma prateleira de minha estante um livro do referido autor.
Oriente, Ocidente é uma coletânea de contos em que Salman Rushdie explora as contradições e paradoxos do conflito de civilizações. O terceiro conto (O cabelo do profeta) deixa isso bem claro:
E afinal’, Hashim disse para si mesmo, ‘o Profeta teria desaprovado com veemência a veneração desta relíquia. Ele abominada a ideia de ser deificado! Então, privando os distraídos devotos deste cabelo, presto – não é mesmo? – um melhor serviço do que se o devolvesse! Claro que não o quero pelo valor religioso que tem… Sou um homem do mundo, desse mundo. Vejo-o puramente como um objeto secular de grande raridade e beleza ofuscante. Em suma, é o frasco de prata que eu desejo mais do que o cabelo. Dizem que há milionários norte-americanos que compram obras de arte roubadas e as escondem – eles saberiam como me sinto. Eu preciso, preciso tê-lo.
(Oriente, Ocidente, Salman Rushdie, Companhia das Letras, São Paulo, 1995, p. 52)
Os defensores do suposto da tese do conflito de civilizações enfatizam sempre as diferenças irreconciliáveis entre o Oriente e o Ocidente, ora localizando a virtude em uma ou em outra região. O famoso escritor aponta a existência de uma convergência de valores. Tanto no Oriente (o local em que se passa o conto), quanto no Ocidente (os norte-americanos) as pessoas agem movidas pela ganância e pelo individualismo.
Nesse conto, a religião (corporificada na relíquia do profeta Maomé) é o elemento desestabilizador da família. Ela não poupa nem mesmo o ladrão e seus filhos. A narrativa de Salman Rushdie faz o islamismo se voltar contra si mesmo. “O cabelo do profeta” seduz o leitor com uma narrativa em que a crítica de costumes ocupa um lugar de destaque e o dogma religioso e/ou ideológico é levantado para mostrar as semelhanças que existem entre culturas aparentemente diferentes. Tanto no Oriente quanto no Ocidente as pessoas (e os personagens que elas inspiram) estão fadadas a desejar o lucro acima de qualquer coisa e a sofrer em decorrência de seus atos.
O conto “No Leilão dos chinelos de rubi” reforça essa semelhança entre Oriente e Ocidente. Os chinelos mágicos de rubi equivalem a qualquer mercadoria ou objeto intensamente desejado, como o novo iPhone por exemplo. Eles simbolizam o fetiche do consumo, o poder e o status decorrente da posse de algo (aparentemente) indispensável que confere existência ao despersonalizado e coisificado homem moderno onde quer que ele esteja.
A substância do “homus economicus”, idêntica em todos os lugares, ganha vida quando ele compra e vende sua própria alma corporificada nas coisas. O homem já não tem valor em si mesmo. Ele se torna valioso em função de seus adereços como se as coisas tivessem o poder de animá-lo. O tema do conto é o hedonismo e a confusão que ele provoca num mundo distorcido e fragmentado em que “Segredos de Estado foram vendidos aqui, abertamente, ao mais ousado arrematador.” (Oriente, Ocidente, Salman Rushdie, Companhia das Letras, São Paulo, 1995, p. 109)
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As obras desse famoso escritor são ora valorizadas ora condenadas como heréticas. Ele foi atacado e quase morto como se fosse uma mercadoria sem valor. Um objeto que pode ser quebrado, destruído, enterrado e esquecido.
Ao que parece o algoz de Salman Rushdie é um fanático religioso. Onde quer que a religião seja transformada em plataforma política a intolerância provoca bestialidades. Isso já está ocorrendo no Brasil, pois não é possível fazer uma distinção entre o bolsonarismo e a estranha mutação do cristianismo dos pastores que apoiam o mito como se ele fosse uma reencarnação do Messias com a missão de purificar nosso país com fuzis e pistolas automáticas.
Ódio, ganância, desespero, inveja e uma insana disposição para cometer crimes de sangue unem o Ocidente e o Oriente. Ambos tem sido modelados pela mesma instituição poderosa que, se considerando acima do bem e do mal e fora do alcance de qualquer Sistema de Justiça, trabalha 24 horas por dia de maneira incansável para sufocar qualquer reação ao neoliberalismo em qualquer lugar do planeta.
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No Oriente Médio a religião tem sido instrumentalizada pela CIA desde os anos 1950 sempre com o mesmo objetivo: provocar a destruição de regimes políticos laicos moderadamente nacionalistas que almejem desfrutar o lucro oriundo da exploração e da exportação do petróleo. No Brasil algo semelhante começou a ocorrer no momento em que Lula ganhou a eleição de 2002 e anunciou a existência e a exploração do pré-sal.
Oficialmente os EUA não apoiará o golpe de estado planejado por Jair Bolsonaro. Todavia, me parece evidente que em segredo as autoridades norte-americanas podem perfeitamente tolerar e até estimular a intolerância letal de um capitão genocida disposto a fazer qualquer coisa para não responder pelos crimes que já cometeu.
Lula pretende reescrever o destino do país, reconstruir a democracia e garantir a supremacia dos interesses do Brasil dentro do território brasileiro. Se não for protegido ele poderá sofrer um atentado semelhante ao que vitimou Salman Rushdie.
Assim como financia, manipula e explora o fundamentalismo religioso em benefício dos EUA no Oriente e no Ocidente, a CIA já está usando suas longas mãos na imprensa para criminalizar o Irã pelo atentado praticado contra o escritor.
No caso específico do Brasil, um atentado contra Lula seria legitimado pela imprensa norte-americana desligando automaticamente o agressor do candidato a ditador neoliberal fardado?
*Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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Gabtirl
15 de agosto de 2022 4:38 pmmais um artigo mega preconceituoso e rasteiro… ok, “pastores” são a parte mais visível dessa fauna fundamentalista. Mas “padres”, “bispos”, “monsenhores”, “cardeais” ocupam o mesmíssimo lugar social daQUELES…. O CATOLICISMO ROMANO É TÃO FUNDAMENTALISTA QUANTO QUALQUER NEOPENTECOSTALIISMO EMERGENTE. jUSTIFICOU A ESCRAVIDÃOde índigenas e africanos, orrompe pessoas jovens recem-nascidas e insufla sua ideologia sem nenhum freio…. Lula tá tão abraçado ao fundamentalismo quanto Bolsonaro. Não existe “cristão do bem”. Todo cristianismo é intolerante e ideológico e nenhum dos dois postulantes ao poder no Brasil é capaz de sequer esboçar uma reação a esse estado de coisas. Religião é um câncer, no ocidente e no oriente. Apenas pelo fato do autor do artigo ser simpático a uma dessas ideologias e omitir o papel criminosos que o catolicismo romano tem na história do Brasil e do mundo para favorecer um candidato X só demonstra o quanto ele é hipócrita e intolerante. Das piores e mais intolerantes coisas que ja li na vida é esse artigo aí que passa pano pra católico e cristão “bonzinho”. Vcs são o câncer do planeta,.