5 de junho de 2026

União Europeia vai abrir negociações para normalizar relações com Cuba

Sugerido por Celso Orrico

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Da Carta Maior
 
 
Os 28 membros da UE concordaram em abrir negociações com o governo de Havana a partir do mês de fevereiro com o objetivo de pactuar um acordo bilateral.
 
Eduardo Febbro
 
Bruxelas – A União Europeia se aproxima da era do degelo em suas relações com Cuba. Quase vinte anos depois do bloqueio institucional vigente desde 1996, a UE se prepara para superar o último obstáculo que a separa de uma normalização de suas relações com o regime cubano por meio de um acordo bilateral. “É hora de a União Europeia reatualizar suas relações com Cuba na base dos desenvolvimentos em curso”. A frase pronunciada no princípio do mês na Ilha pelo ministro holandês de Relações Exteriores, Frans Timmermans, marcou o quase degelo público dessas relações controversas.
 
Em 1996, por iniciativa da Espanha do conservador José Maria Aznar, os europeus adotaram a chamada “posição comum” que condicionava qualquer diálogo institucional com a ilha a mudanças no campo dos direitos humanos e na direção de uma democracia pluralista. Depois, em pleno século XXI, apesar dos esforços de Espanha e França, a normalização das relações foi bloqueada por dois países membros do bloco que pertenceram à órbita comunista: Polônia e República Tcheca. Ambos os países levantaram seu veto e asseguram que hoje tem “garantias” no tema central dos direitos humanos.

 
Os europeus constatam duas coisas hoje: o fracasso dessa “posição comum” e as mudanças ocorridas na ilha. Os 28 membros da UE concordaram em abrir negociações com o governo de Havana a partir do mês de fevereiro com o objetivo de pactuar um acordo bilateral que poderia entrar em vigor em 2015. A última vez que a União Europeia suspendeu sua cooperação com Cuba foi em 2003, em protesto pela onda de prisões de membros da oposição, na qual 75 dissidentes foram condenados a fortes penas de prisão (hoje já liberados). Depois, quando o socialista José Luiz Rodríguez Zapatero assumiu as rédeas do governo na Espanha (2004-2011), ele conseguiu distender a atmosfera sem reconectar o diálogo pleno.
 
Mas o passo mais amplo foi dado em 2008, quando o conservador Nicolas Sarkozy presidia a França e lhe tocou a presidência semestral do grupo europeu. O mandatário francês reativou de fato a relação euro-cubana com um esquema de diálogo amparado no lema “respeito mútuo”.
 
Os 28 países parecem terminar de se render aos encantos da ilha e às possibilidades que se abrem com uma nova relação, sobretudo as econômicas.
 
Cuba resultou uma exceção absoluta na geometria variável da política externa europeia. A União Europeia mantinha relações abertas com quase todos os regimes repressores e jurássicos do planeta, mas fazia de Cuba um caso a parte. A sombra da submissão aos EUA ditou em muitos casos a política com o governo de Havana.
 
O caso cubano beira o absurdo e o cinismo. A União Europeia tem, de fato, duas políticas de “posição comum”: uma com Cuba e outra com a…Al Qaeda. Egito, Zimbabwe, Irã, Iraque, Síria, em suma, os outros poderes pouco ou nada democráticos nunca representaram problema. Cuba é o único país da terra ao qual Bruxelas aplica essa sanção. Mas os horizontes estão mudando.
 
Em Bruxelas, várias fontes confirmam que o aperto de mãos na África do Sul entre o presidente dos EUA, Barak Obama, e o cubano Raúl Castro durante os funerais de Nelson Mandela “teve um grande impacto e influenciou o rumo das decisões”. Em dezembro de 2012, a Europa começou a operar um giro importante. Segundo Bruxelas, um punhado de decisões e medidas adotadas na ilha abriu os espíritos: a introdução de mudanças na economia como a criação de cooperativas privadas, a abertura a investimentos exteriores, o exercício de atividades independentes, a maior liberdade de acesso à internet, a nova regulamentação para viajar ao exterior e a maior liberdade de movimento dos cidadãos.
 
As cifras nunca estão longe destas decisões. Bruxelas teme, concretamente, ficar fora da festa e da repartição do bolo caso o que na Europa se chama de “a transição cubana” desembocar em um modelo democrático sem reprovações. Cabe destacar que, apesar dos diálogos, rupturas e retomadas, a desatinada “posição comum” que rege as relações desde 1996 segue vigente. Isso, contudo, não impediu os europeus de fazer excelentes negócios. A UE é o primeiro investidor na ilha e o segundo sócio comercial (o primeiro é a Venezuela). O velho continente exporta para a ilha mercadorias no valor de 2 bilhões de euros. Essa política comum resulta tão mais aberrante na medida em que vários estados europeus já firmaram acordos bilaterais com a ilha.
 
Desde 2008, quinze estados europeus têm acordos desse tipo com Havana (a França entre eles). A história está sempre cheia de paradoxos. A “posição comum” é um instrumento que os próprios europeus descrevem como “insensata e aberrante”. Ela foi introduzida pelo direitista José María Aznar, do Partido Popular espanhol. Se o calendário de 2015 for cumprido, o acordo bilataral ocorrerá com um governante espanhol, Mariano Rajoy, pertencente ao mesmo partido de Aznar.
 
A União Europeia havia feito com Cuba uma espécie de exceção enlouquecida cujo único resultado foi piorar o que pretendia melhorar, enquanto, paralelamente, beneficiava outros países cujos dirigentes assinavam com sangue nas mãos vigorosos acordos em Bruxelas. Para estes não houve “posição comum”. Houve negócios comuns.
 
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Alberto Santos Neto

    23 de janeiro de 2014 2:24 pm

    Relações com Cuba

    E, no Brasil, o Aécio, disse que se eleito (Deus nos Livre)! irá “manter” o Mais Médicos, mas fará o pagamento de salários dos médicos cubanos diretamente a eles, pois considera Cuba uma ditadura igual a da Coréia do Norte. Pelo visto a União Europeia não tem esta mesma visão. O Aécio vai, na verdade, acabar com o Mais Médicos e os médicos cubanos irão embora, pois, com certeza, eles não aceitarão (e o Aécio sabe disso) esta proposta. Claro, tudo será feito, exatamente, com este propósito, ou seja, que os médicos cubanos voltem para casa, e o povo brasileiro que se exploda.

    1. adolpho

      23 de janeiro de 2014 3:59 pm

      Ou podem, no livre exercício

      Ou podem, no livre exercício de ir/vir, resolver ficar no Brasil, trazer a família, optar por deixar a família lá e remeter o $$ excedente…  Enfim, quando se é livre para decidir, e com uma razoável quantia no bolso, um enoorme horizonte se abre.

    2. Valmir Gôngora

      23 de janeiro de 2014 6:05 pm

      contradições

      São as contradições. Enquanto a tal ditadura da pobre e embargada Cuba exporta médicos e professores, a democracia dos ricos Estados Unidos exporta guerras e drones.

  2. wendel

    23 de janeiro de 2014 2:33 pm

    A Ilha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Já não era  tempo da UE deixar de ser subserviente aos EUA quanto à Cuba!

    Por outro lado, o aperto de mão entre Obama e Raul, nos funerais de Mandela, nos deixa como dizem “com a pulga atrás da orelha”, pois foi depois deste fato que houve estas manifestações da UE!

    Vamos ver agora, as manifestações dos cubanos exilados na Florida, e que sempre fizeram pressão contra o reatamento com Cuba, como irão se comportar!

    São um eleitorado de peso, além de mafiosos, aliados aos antigos exploradores da ilha, à época de Batista, e que tiveram seus bens confiscados por Fidel!

    Esperemos para ver no que vai dar, pois pouco sabemos do potencial daquela ilha, dado o enorme silêncio que a mídia conservadora sempre a tratou! Sei por algumas pesquisas feitas na Web, que existe um grande potencial petrolífero na costa daquele País, talvez até parecido com nosso pré-sal, e sendo assim, os interesses se justifiquem!!! Principalmente da Holanda!

  3. RVeiga

    23 de janeiro de 2014 3:28 pm

    Cuba não é ameaça pra ninguém

    Cuba não é ameaça pra ninguém faz tempo. Manter boas relações diplomáticas com, sei lá, a Arábia Saudida ou a China e não com Cuba com essa justificativa de “direitos humanos” e “democracia pluralista” é um exercício de hipocrisia diplomática sem tamanho. Ao longo das décadas, as restrições econômicas aplicadas a Cuba só têm servido à mitificação de Fidel Castro, ao mesmo tempo impondo severas dificuldades ao povo cubano.

  4. Paulo Figueira

    23 de janeiro de 2014 5:59 pm

    E os nossos mickeys mouses

    E os nossos mickeys mouses não querem que nos relacionemos com Cuba

  5. Julião

    23 de janeiro de 2014 7:04 pm

    Vão ser lambe botas assim na p.q.p.

    A Europa (precisamente os seus governantes) são “lambe botas” dos americanos faz muito tempo. Só Cuba na lista negra, quando existem regimes absurdamente piores no mundo, é um resquicio da guerra fria e do governo dos mafiosos Keneddys (desculpem se a grafia estiver errada), ambos os irmãos, que dedicaram-se a acabar com a vida dos pobres moradores desta pequena e desimportante ilha, apenas porque queriam e podiam fazê-lo!.

Recomendados para você

Recomendados