Judiciário, jornalismo e responsabilidades na tragédia do reitor Cancellier

Documentário lançado ontem detalha o processo que levou ao suicídio do reitor da UFSC, 18 dias depois de sua prisão, em 2017

Cancellier foi aluno, professor e reitor da Federal de Santa Catarina: ele foi preso sem saber a acusação e antes de ser ouvido, e levado a presídio de segurança máxima. Foto: Divulgação

da Rede Brasil Atual

Judiciário, jornalismo e responsabilidades na tragédia do reitor Cancellier

Por Vitor Nuzzi, da RBA

São Paulo – Há pouco mais de quatro anos, às 10h38 de 2 de outubro de 2017, uma segunda-feira, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, 59 anos, jogou-se do alto de uma escada rolante no último piso do Beiramar Shopping, em Florianópolis, caindo no vão central. Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Cancellier havia sido afastado do cargo por causa de uma investigação judicial, que contestou desde o início. “Minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”, escreveu em bilhete encontrado pela polícia e divulgado pela família.

A triste e trágica história, que revela responsabilidades da Justiça ainda por apurar e também trata do papel da mídia na cobertura do caso, é detalhada no documentário Levaram o reitor – Quando o modelo Lava Jato adentrou uma universidade, lançado ontem (13) à noite durante live. Com 73 minutos, o filme foi produzido pelo jornalista Luis Nassif (argumento), Patrícia Faermann (roteiro, pesquisa e entrevistas) e Nacho Lemus (imagens, som e edição) e exibido publicamente pela primeira vez. Agora, está disponível no YouTube da TVGGN, de Nassif.

Humilhação pública

Dezoito dias separam a espalhafatosa Operação Ouvidos Moucos, com 105 policias federais, sete mandados de prisão temporária e cinco de condução coercitiva, da morte do reitor. “Preso, acorrentado, algemado e humilhado”, definiu o chefe de gabinete à época, Áureo Moraes, na live de ontem. No documentário, ele observa que os acusados não sabiam o porquê da prisão, nas primeiras horas da manhã, mas os veículos de imprensa sabiam.

A operação era destinada a desbaratar uma “organização criminosa” que teria desviado dinheiro destinado a cursos de educação a distância. Falava-se em R$ 80 milhões, valor que nunca se confirmou. Os presos da UFSC, incluindo Cancellier, foram levados a um presídio de segurança máxima e submetidos a revista íntima, usando macacão. Detalhes da operação da PF e do processo são apresentados, detalhados e discutidos no documentário. Libertado após 30 horas, o reitor é proibido de entrar na universidade. Só retornou morto.

Calvário de um inocente

Para o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, o filme mostra “o calvário de um homem inocente”, em uma mistura de vendetta (vingança) e irresponsabilidade. Um processo que serve de alerta para “os riscos da inquisição”, diz o atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “A morte dele (Cancellier) tem responsabilidades”, afirma Janine. Do ponto de vista moral, acrescenta.

Nascido em Tubarão, Cancellier entrou no curso de Direito da UFSC em 1977. Foi militante estudantil, interrompeu estudos para trabalhar como jornalista, para depois fazer a graduação, mestrado e doutorado. Chefiou o Departamento de Direito e foi diretor do Centro de Ciências Jurídicas da universidade. Concorreu à reitoria em 2015, estabelecendo como uma das prioridades a busca de mais recursos para a instituição. Em 11 de novembro daquele ano, sua chapa (com a vice Alacoque Erdmann) venceu com margem estreita em segundo turno: 47,42% dos votos, ante 46,06% de seus adversários, Aluno, professor e reitor, tinha orgulho da universidade, afirma o irmão Acioli, o único da família a gravar para o documentário.

Segundo Patrícia, o filme tenta consolidar “três frentes de narrativas”. Primeiro, apresentando o reitor em aspectos pessoais e profissionais. Depois, buscando destrinchar as investigações relacionadas à chamada Operação Ouvidos Moucos, “para poder entender qual era o enredo jurídico por trás dessa história”. Por fim, mostrar quem eram os acusadores.

O velório de Cancellier: caso traumatizou a comunidade acadêmica
(Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC/Divulgação)

Outras universidades

Operação semelhante à da UFSC ocorreu pouco tempo depois na Federal de Minas Gerais (UFMG). Com modus operandi similar, lembra o ex-reitor (2014-2018) Jaime Ramírez. Foi em 6 de dezembro, menos de três meses após os acontecimentos de Florianópolis, logo a partir das 6 da manhã. “Todos levados de forma coercitiva. Assim como em Santa Catarina, ninguém foi intimado. Ninguém sabia por que estava sendo levado. Celulares apreendidos, computadores levados…”, lembra Ramírez.

No caso da UFMG, o que se apurava era um suposto desvio de recursos (R$ 4 milhões) ligados ao projeto de um Memorial da Anistia. “Não se encontrou desvio de recurso algum. Nenhum centavo.” A operação foi batizada de Esperança Equilibrista, que alude à canção O Bêbado e a Equilibrista, “hino” informal da anistia composto por João Bosco e Aldir Blanc.

O guarda da esquina

Para Moraes, ex-chefe de gabinete da UFSC (que participou da live com um quadro de Cancellier na parede), a universidade sofreu a ação do chamado “guarda da esquina”, expressão cunhada pelo vice-presidente da República Pedro Aleixo durante a edição do AI-5, que completou 53 anos justamente ontem. “Tivemos sete pessoas desta universidade arrancadas de sua casa de forma arbitrária, violenta, truculenta até.” Cancellier foi acusado de “obstrução da Justiça”. O ex-chefe de gabinete afirma que a operação contra as universidades teve outra natureza: “Não há a menor dúvida que se trata de uma escalada contra essa natureza democrática que as nossas instituições representam”.

Amigos, familiares e entidades ainda cobram respostas (Reprodução)

É o que também sustenta o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Marcus Vinicius David. “Em um período muito curto, em torno de um ano, observamos operações em quatro grandes universidades brasileiras”, diz, citando ainda as federais do Paraná e do Rio Grande do Sul. “Não é coincidência essas operações terem ocorrido em um curto de espaço de tempo. (…) Era necessário um ataque muito forte às universidades, espaços de livre pensar, de debates críticos de tudo que ocorre na nossa sociedade. Em qualquer processo que ameace a democracia, as universidades precisavam ser alvos. Esse cenário continua nos preocupando, mesmo com o encerramento de ações policiais dessa natureza. Mas consequências graves permaneceram.”

Violência

O ex-ministro Fernando Haddad afirma que houve perseguição judicial. “Já é difícil entender o lawfare contra um partido político. Agora, mais indigno ainda é o lawfare contra dirigentes de autarquias, que pela Constituição gozam de autonomia. (…) Não podemos esquecer dessa violência. Essas pessoas deveriam responder pelo que fizeram com as nossas instituições”, diz o também ex-prefeito.

Para ele, a educação continua sendo alvo do governo, com contínuo processo de desmonte. Mas Haddad se mostra otimista: “A área da educação vai ser a primeira a ser recuperada. Temos massa crítica, capacidade técnica e vontade política de reconstruir o parque federal. Tenho muita esperança que essa rede vai saber dar respostas a essa violência que vem sofrendo.”

Tânia Oliveira, da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), aponta o “caráter seletivo” de algumas dessas ações, em que “as garantias constitucionais dos acusados são violadas de diversas formas”, com a intenção de destruir a imagem pública do acusado e a redução do processo penal a um espetáculo midiático. Integrante da Associação Juízes pela Democracia (AJD), Adriana Bertoncini cita palavras do desembargador Lédio Rosa de Andrade, amigo de Cancellier, sobre avanço de regimes autoritários. A live começa com fala emocionada do ex-desembargador, que morreu em 2019, em cerimônia de homenagem a Cancellier: só um ato de tragédia pode sensibilizar uma sociedade tomada pela histeria.

Contra a barbárie

“Eles escolheram as universidades como alvo porque para eles o saber é um horror, é o que se contrapõe à barbárie”, afirma o jurista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. “Hoje, quem ficar omisso tem compromisso com a barbárie. A Lava Jato instalou o terror no país.” A referência à operação, inclusive no título do documentário, se explica porque a delegada que determinou a prisão de Cancellier, Erika Marena, é originária da Lava Jato. A delegada da PF e outros envolvidos no processo foram procurados durante a realização do filme, mas não deram retorno.

A cobertura dada ao caso é comentada, na live, pelos jornalistas Márcio Chaer (Consultor Jurídico), Eleonora de Lucena (Tutameia) e Hildegard Angel. Primeira a falar, Hildegard mostrou indignação, afirmando que faltou “espírito crítico” à mídia, que teria sido “canalha, despreparada”, aceitando dados sem questionamento. “Isso é indigno, vai contra toda a prática jornalística.” Fosse outra a prática, concluiu, talvez Cancellier estivesse vivo. Eleonora apontou a falta de preocupação da mídia com o contraditório, uma posição dos principais veículos no sentido de “trucidar reputações, espetacularizar os eventos”.

País sem alma

A delegada Erika e outros personagens do processo são apenas “peças de um jogo macabro”, definiu Nassif no final do documentário. “Por trás desse liberou geral, estão os ministros do Supremo, que endossaram as arbitrariedades da Lava Jato. Está a imprensa, que em nenhum momento cumpriu com o princípio básico do jornalista, de ouvir os acusados. Em decorrência desse trabalho inicial, o país perdeu a alma. E só foi despertado desse pesadelo pelo gesto heroico de Cancellier.”

No domingo, um dia antes do suicídio, sem que a família soubesse, Cancellier foi ao cinema. Em cartaz, Polícia Federal: a lei é para todos. A história glamourizava a Lava Jato e a delegada que prendeu o reitor. Menos de 24 horas depois, no mesmo shopping, seu corpo se projetava de uma altura de sete andares.

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