Investigadores do caso Marielle decidiram pelas prisões para evitar achincalhe, por Janio de Freitas

Prisões aconteceram a 48h de se completar um ano do assassinato da vereadora. Em dezembro, generais que comandaram a intervenção no Rio diziam esperar revelação antes de deixarem os cargos. Em janeiro, governador Wilson Witzel disse a repórteres que "logo" se saberia quem cometeu o crime.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jornal GGN – Durante coletiva de imprensa, concedida logo após a prisão do militar reformado Ronnie Lessa e do ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, acusados de terem matado a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes, as promotoras responsáveis pelo caso disseram que a motivação de Lessa (o disparador dos tiros) foi “por repulsa à atuação política da vereadora” e obsessão contra “pessoas que se dedicam às causas das minorias”.

Na mesma coletiva, as procuradoras arremataram, entretanto, que a “repulsa” não exclui que o crime possa ter sido encomendado por motivações políticas. Na coluna na Folha de S.Paulo, nesta quinta-feira (14), data em que se completa um ano da morte de Marielle, Janio de Freitas chama atenção para uma “descoberta involuntária” dos investigadores ao chegarem na casa de Lessa: estoque de armas de combate, especificamente 117 fuzis M-16, e outros aparatos como silenciadores.

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A explicação inicial dada pela polícia e promotoras ao estoque de fuzis é que estariam diante de um contrabandista. “É uma hipótese. A mais fácil”, pontua Janio.

“As armas à espera de montagem indicam uma técnica de contrabando ainda não considerada aqui. Exceto umas três peças —gatilho, cano e coronha, de formas muito conhecidas—, as demais podem entrar até por vias legais, como peças de reposição para tal ou qual indústria. As outras podem ter fabricação aqui”, analisa o colunista.

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Janio segue destacando que o fator da entrada ilegal de armas “dá à Polícia Federal, enfim, uma brecha para a ansiada presença no caso Marielle”.

“Ronnie Lessa é um veio novo, proliferante e, sabe-se lá, talvez inconveniente para partes das polícias. A criminalidade expandida no Brasil reserva ainda assombrosas surpresas”, observa.

O articulista rebate ainda o argumento das promotoras de que a divulgação dos autores da morte de Marielle aconteceu porque as investigações estavam “maduras”. O fato é que as prisões ocorreram muito próximas da data de se completar um ano do crime, e isso poderia suscitar ridicularização da opinião pública contra os investigadores do caso.

Janio ressalta que é possível que as promotoras e policiais soubessem quem eram os responsáveis pelo crime desde o ano passado.

“Pouco depois de assumir, o governador Wilson Witzel não se aguentou e, sem motivo para tanto, disse a repórteres que “logo se saberá quem cometeu o crime”. Talvez não soubesse o nome, mas estava informado da identificação feita. Antes de encerrada a intervenção na Segurança do Rio, em 31 de dezembro, os interventores e generais Richard e Braga já diziam esperar a revelação ainda antes de deixarem os cargos”, explica o colunista.

De fato é estranho que a inteligência da polícia e da promotoria carioca tenham demorado para executar os mandados de prisão. O caso não está concluído, resta os investigadores determinaram quem foram os mandantes dos crimes e a real intenção com a morte de Marielle.

Para Janio, “criar essas fantasias de segunda fase, estado maduro e que tais não ludibria os visados e engana o público”.

“Melhor é Bolsonaro, que na campanha deu aos opositores a escolha entre ir para a cadeia ou para o exílio, e já dois —a filósofa Márcia Tiburi e o eleito deputado Jean Wyllys — foram salvar as suas e as vidas de parentes onde lhes deem esse direito”, conclui. Para ler sua coluna na íntegra, clique aqui.

5 comentários

  1. Como assim, caro Jânio, “Ronnie Lessa é um veio novo, proliferante e, sabe-se lá, talvez inconveniente para partes das polícias. A criminalidade expandida no Brasil reserva ainda assombrosas surpresas”? Que negócio é esse de chamar de “inconveniente” esses lutadores, meros funcionários públicos tentando apenas fazer o que é natural, o que vem antes de qualquer lei por se tratar de necessidade básica, a saber, querer ficar rico e poderoso? Quem pode condenar alguém apenas por tentar se encaixar na lei de mercado, buscando apenas se dar bem? Afinal somos capitalistas ou não? Se queremos capitalismo temos que aprender a lição: “Não há almoço grátis”, hein?

    (Além do que, vai prender laranja? Ou você acha que um ano não foi suficiente para os interessados nessa morte lavarem minimamente as mãos? Ou você acha que vão tratar Bolsonaro filho como se fosse um… um… um Lulinha, um filho ou neto de um Lula qualquer? Deixa os moços em paz, pô.)

  2. Há muito para lamentar nos episódios das entrevistas do Delegado e das Promotoras. Destaco, porém, um aspecto que foi deixado de lado pelos jornalistas presentes, invariavelmente desatentos e desinteressados, como parecem ser as características dominantes desta nova geração de profissionais dos meios de comunicação. Como alguém há de se lembrar, num dado momento, o Delegado informou aos presentes que Lessa e Queiroz haviam monitorado os passos de Marielle e, pasmem, do General Braga, o Chefe da Intervenção Federal no Rio de Janeiro naquele instante. Foi quando faltou alguém perguntar quem tinha sido monitorado primeiro, se Marielle, se o General. Conforme o que o Delegado e, quem sabe as Promotoras, se inquiridas por alguém mais atento, dissesse não teríamos o atual clima de confusão, com certeza alimentado pelo tratamento amadoristico das informações pelos jornalistas. Afinal, qual a motivação do crime, o “ódio” puro e simples dos matadores aos esquerdistas ou a intervenção federal no estado?

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