4 de junho de 2026

Menor afirmou que PM foi mandante em crime de Castelo do Piauí

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Enviado por Leo V

Do Medium

O jornalismo justiceiro faz mais vítimas

A tragédia de Castelo do Piauí não tem fim. Três meses depois das agressões que vitimaram quatro meninas, resultando na morte de uma delas, os atos de barbárie se sobrepõem

Por Maria Carolina Trevisan*, especial para Jornalistas Livres

 

Até 27 de maio, o município de Castelo do Piauí, a cerca de 180 km de Teresina, era desconhecido por grande parte dos brasileiros. Entrou para o mapa do Brasil por causa do estupro coletivo de quatro meninas. Supostamente, os autores da agressão teriam sido quatro adolescentes e um adulto.

Com a repercussão do caso, a polícia se apressou para achar culpados e identificou primeiro os adolescentes. Com o andamento rápido das investigações, descobriu-se a participação do adulto, classificado pela polícia e imprensa como “traficante”, como se esse “título” bastasse para comprovar a culpa do homem. Em pouco tempo estavam presos os monstros. Cumpriu-se, assim, a desesperada busca pela sensação de justiça.

Nos primeiros dias após as agressões, os meios de comunicação nacionais silenciaram. Era como se o que acontece em um rincão do Piauí não tivesse suficiente interesse para seus leitores e espectadores. Mas a participação de adolescentes como agentes das agressões dias antes de a Câmara dos Deputados votar a redução da maioridade penal chamou a atenção da imprensa nacional.

Como um baluarte do jornalismo justiceiro, a revista Veja chegou a estampar em sua capa, em mais de 1 milhão de exemplares, os rostos dos quatro adolescentes, dando como certa e comprovada a autoria das agressões. A publicação ignorou leis. A Constituição Federal estabelece, no artigo 5o, que “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”. Não cabe à Veja julgar a autoria dos crimes. O Estado de Direito no Brasil garante o que se chama “presunção de inocência”. Ou seja, todo mundo é inocente até se provar o contrário.

“Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove legalmente a sua culpa.” Artigo 5o da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica)

A revista da Editora Abril também infringiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Convenção para os Direitos da Criança, ratificada pelo Brasil em 1990, ao identificar os adolescentes por meio de fotos e iniciais.

“Qualquer notícia a respeito do fato não poderá identificar a criança ou adolescente, vedando-se fotografia, referência a nome, apelido, filiação, parentesco e residência.”
Parágrafo único do artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente“As crianças têm direito a proteção contra a intromissão em sua privacidade, família, lar e correspondência, bem como contra a difamação e calúnia.”
Convenção para os Direitos da Criança

Coletivo Intervozes, organização da sociedade civil que trabalha com o direito à informação, entrou com representação contra a revista Veja por conta dessa reportagem. A Defensoria Pública de SP também move ação contra a Editora Abril e sua publicação.

Sede de justiça

Area de pintura rupestre em Castelo do Piauí

A apressada punição dos supostos autores do crime seria um desfecho aceitável caso os procedimentos de investigação e justiça tivessem sido observados, especialmente no que se refere aos direitos humanos. Não foi o que aconteceu. Trinta e três dias após as agressões, o adolescente G., de 17 anos, morreu espancado — enquanto se encontrava sob tutela do Estado -, no Centro Educacional Masculino (CEM), em Teresina. Não se sabe se o adolescente foi morto à noite ou na hora do banho — conhecido momento de vulnerabilidade em que os abusos costumam acontecer nas unidades de internação de adolescentes. Alega-se que a unidade estaria superlotada e por isso G., apesar das ameaças de outros jovens, foi colocado na cela que abriga internos que cometeram atos infracionais graves como homicídio e estupro.

G. era o delator do crime de estupro do qual teria feito parte. “A sede pela descoberta do autor pode prejudicar a busca daquilo que chamamos de Justiça”, afirma Riccardo Cappi, doutor em Criminologia e professor de Direito da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA). Com o crime “solucionado”, todos poderiam dormir sossegados. “Nos interessa achar um culpado que esteja distante de nós. O castigo desempenha assim a função de afastamento da responsabilidade coletiva”, alerta Cappi.

Nesta segunda-feira, 10 de agosto, o programa de exibição local “Bancada do Piauí”, da TV Antena 10, afiliada da Rede Record, revelou a participação do PM Elias Júnior como mandante do estupro coletivo, conforme informações do subcomandante da Polícia Militar Lindomar Castilho. Em conversa gravada com funcionários do CEM, G. afirmou que o PM o contratou por 2 mil reais para executar atos infracionais na cidade. Elias Junior foi afastado da corporação e está à disposição da Corregedoria.

“Ele queria que nós ‘fizesse’ um crime lá em Castelo que nunca foi feito. Todo crime lá em Castelo sempre é descoberto. Ele pensou assim, ele vai preso, vai pro CEM, morre lá e eu fico de boa com meu dinheiro”, revela a gravação de conversa obtida pela TV Antena 10.

A Defensoria Pública do Piauí entrou com pedido de absolvição dos três adolescentes envolvidos no caso e do adulto, que até ontem seria o mandante do crime.

Não houve qualquer repercussão na mídia nacional comparável à cobertura na época dos fatos. Como se nós, jornalistas, não fôssemos mais responsáveis pela história que ajudamos a montar — e que agora entra numa reviravolta ainda mais cruel. Se o papel principal do Jornalismo é fiscalizar o Poder e acompanhar as políticas públicas, neste caso, falhamos muito. Deixamos que a ponta mais frágil do enredo ficasse exposta a qualquer violação.

Teria sido bom jornalismo, comprometido com o respeito à dignidade da pessoa, procurar entender de que maneira se deram os depoimentos; compreender quem eram as partes interessadas em que o crime fosse assumido por meninos e por um “traficante”; questionar a rápida conclusão do caso; identificar as políticas sociais e as falhas da rede de proteção de crianças e adolescentes; contextualizar a situação social de um município que tem Índice de Desenvolvimento Humano baixo (IDHM 0,587, o que coloca Castelo do Piauí em 4.467ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros) e com cerca de 20% da população em situação de extrema pobreza (renda per capita mensal abaixo de 70 reais).

Em setembro, nos dias que antecedem o feriado da Independência do Brasil, Castelo do Piauí celebrará mais um “Cachaça Fest”. Ao lado das visitas a pinturas rupestres, a cachaça é o principal atrativo turístico do município. O que isso tem a ver com a tragédia das meninas e com a injustiça relacionada aos meninos do Piauí? Muito. Principalmente em um lugar em que a presença do Estado não se faz efetiva, nem em segurança, nem em educação, nem em saúde, nem nas condições de trabalho.

Nessa sequência de barbáries mais uma vida sucumbiu. Enquanto a banalização do sangue continuar a exercer fascínio, estaremos sujeitos a esse tipo de injustiça. É a morte como pena. Para que os leitores, repórteres e editores de Veja — e demais publicações que negligenciaram essa cobertura — durmam tranquilos.

*Maria Carolina Trevisan é jornalista, repórter do coletivo Jornalistas Livres, coordenadora de projetos da ANDI, pesquisadora do Núcleo de Estudos Sobre o Crime e a Pena da DireitoGV e Jornalista Amiga da Criança.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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13 Comentários
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  1. Athos

    12 de agosto de 2015 2:17 pm

    Não dá para misturar muitos
    Não dá para misturar muitos assuntos.
    Se quer criticar a Veja escreva sobre a Veja e os limites da imprensa.

    Ficou uma salada de assuntos.

  2. Nira

    12 de agosto de 2015 2:37 pm

    Excluída a questão do papel

    Excluída a questão do papel da imprensa, que foi mais do mesmo lixo, não entendi muito bem a matéria. Afinal, pedir a absolvição dos adolescentes ? Nào houve o estrupo e a morte de uma das moças ? O rapaz morto no CEM não estava na mesma cela que os outros participantes do estupro, e que ele delatara ? Também não ficou clara a motivação do tal PM. Em suma, bastante enrolado o texto, A boa intenção não supre a falta de clareza.

    Agora ficou o gosto de quero mais informação.

  3. Nilva de Souza

    12 de agosto de 2015 2:52 pm

    Concordo com a Nira.

    Concordo com a Nira.

  4. sergio ribeiro

    12 de agosto de 2015 2:52 pm

    Também estranhei

    O fato de haver um mandante não absolve os criminosos. A culpa da morte do rapaz é dos criminosos, mesmo que haja alguma influência do sistema prisional e da Imprensa.

  5. Athos

    12 de agosto de 2015 3:02 pm

    E tem mais, um pm local deve
    E tem mais, um pm local deve ganhar menos de 2 mil ali.

    Quer dizer que um PM encomendou estupro de 4. Na boa, só porque um menor foi quem disse é verdade?

    Um lugar miserável desses. ..não era para ser mais barato?

  6. Renato Lazzari

    12 de agosto de 2015 3:19 pm

    Porque será que não me

    Porque será que não me surpreendo quando ouço notícia de que policiais e crimes andam juntos?

  7. Alucinado

    12 de agosto de 2015 3:25 pm

    Caramba ,que

    Caramba ,que texto!

    Certamentre vão botar a culpa no estagiário.Parabéns a todos os comentários.

  8. luddita

    12 de agosto de 2015 4:55 pm

    Medium é plataforma

    É como se fosse blogspot ou wordpress, a fonte correta é Jornalistas Livres

  9. Pedro Mundim

    12 de agosto de 2015 6:45 pm

    Ué, e que diferença faz?

    Que diferença faz o mandante do crime ser um PM, um padre, um gari, um motorista de ônibus ou um paleontólogo? Isso torna o crime menos horrível? Isso torna os meninos menos culpados?

    Se a grande mídia não deu atenção à notícia, foi porque não só achou a história um bocado inconsistente, como também, mesmo que verdadeira, não mudaria nada em relação à culpabilidade dos meninos. Para mim, parece mais uma daquelas tentativas de inverter valores, afirmar que o mal vem da polícia e os bandidos são vítimas patéticas. Essa patacoada não cola mais.

  10. Paulo Erivan de Sousa

    13 de agosto de 2015 2:11 am

    Tentando entender

    Um PM contrata e dá cobertura a alguns menores, para cometer um crime qualquer, que tenha repercussão nacional e joga a culpa de mandante contra um conhecido traficante; um dos menores acusados do crime é detido e morto dentro do presídio   ( a mando de quem?). Isso tudo, em plena discursão para votação pela Câmara Federal da diminuição da idade penal e os criminosos são capa da “revista” veja (cujos donos,editores e colunistas são a favor) devidamente identificados e condenados? Tentando influenciar a votação, da mesma maneira que fez com as fotos de Lula e Dilma na véspera da eleição? Será que Cachoeira e o “Caneta” estão juntos nessa?

  11. PauloBR

    13 de agosto de 2015 2:49 am

    Talvez…

    Talvez a história faça sentido – ainda que mórbido. O PM seria, ao que consta, proprietário de uma empresa de segurança privada. Teria contratado os menores para, por meio da prática de crimes, criar um clima de medo e insegurança na localidade e região, para as quais ele e sua empresa seriam a solução. O velho jogo de criar dificuldades para vender facilidades, que a imprensa, os políticos, as seitas religiosas, a polícia sempre fizeram, desde que o mundo é mundo. Nesse caso, haveria que analisar os crimes dos menores sob outra perspectiva.

  12. RVeiga

    13 de agosto de 2015 3:20 am

    O texto foi escrito por uma

    O texto foi escrito por uma jornalista? Em que as informações que ela traz absolvem os quatro menores e o adulto? Quando muito, envolvem um quinto participante, nada mais. Então qual foi a injustiça cometida com os “meninos”?

  13. Marco a

    13 de agosto de 2015 7:03 am

    Sei…o menor denunciou os

    Sei…o menor denunciou os demais, e salvo engano foi esse que delatou os outros. Foi morto pelos comparsas e agora aparece uma denúncia que não pode ser comprovada, porque o marginal está morto, mas a turminha acha o suficiente para pedir a absolvição dos três menores e do adulto que estava junto. E as 4 meninas vítimas.  A defesa vai alegar que foi tentativa de suicídio?

    E incrível a quantidade de idiotas que defendem o indefensável 

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