O instituto que Dallagnol criou como fachada para fazer pressão nos deputados

Intercept revela que procurador da Lava Jato atuou como coordenador informal de movimentos sociais para pressionar políticos e ministros do Supremo

Deltan Dallagnol. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Jornal GGN – No dia 17 de novembro de 2016, Deltan Dallagnol, procurador do Ministério Público Federal e coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, visitou a redação da Folha de S.Paulo. Ele estava acompanhado de Tiago Stancho, vice-presidente da Planejamento da agência publicitária OpusMúltipla, contratada pelo “Instituto Mude – Chega de Corrupção”, criado inicialmente para coletar assinaturas a favor das dez medidas contra a corrupção.

Na época em que a visita à Folha aconteceu, os jornais de esquerda exploraram a ligação do coordenador da Lava Jato em Curitiba com a empresa que tem sede no Paraná e, até março de 2016, teve como vice-presidente financeiro João Namir Moro. Na sequência das reportagens produzidas a partir de mensagens recebidas pelo Intercept de uma fonte anônima descobre-se que, de fato, Dallagnol, atuou como diretor informal do Instituto Mude, chegando a organizar encontros na igreja que frequentava.

Na época da repercussão sobre a proximidade entre Dallagnol e o movimento social, a co-fundadora do Mude, Patricia Fehrmann, manifestou sua preocupação em um chat privado com o procurador da República dizendo que a diretoria da OpusMúltipla não havia gostado da reverberação da informação, temendo que a agência de publicidade desfizesse a parceria com eles.

“Próxima manchete será ‘o instituto que o dr Daltan criou como fachada pra fazer pressão nos deputados’ – vão chegar no Mude por causa da ligação com a Opus, vão procurar o CNPJ, estatuto, vao ver os nomes e chegam aqui na igreja facil. todos da igreja do Deltan”, escreveu para o procurador.

*Os textos das mensagens foram mantidos como no original, sem qualquer tipo de correção ou alteração.

“Concordo com providências, mas calma rsrs… segura a ansiedade. Se forem fazer isso, vão fazer de qq modo, fale eu ou não… é o endereço que ficou o da igreja, não.?”, procurou tranquilizá-la Deltan.

“Já pedimos pra alterar o endereço. Vai mudar essa semana. Mas o original ficou da igreja”, completou, se referindo a Igreja Batista do Bacacheri, templo evangélico em Curitiba que o procurador também frequenta.

A reportagem do Intercept mostra ainda que, passada a derrota das dez medidas na Câmara dos Deputados, Dallagnol começou a usar o Mude para outras tarefas. Ele também atuou influenciando informalmente outros movimentos como o Vem Pra Rua. A atuação mais notória de Deltan junto a esses grupos aconteceu um dia após a morte do ministro Teori Zavascki, antigo responsável pelos processos da operação no Supremo Tribunal Federal (STF).

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O objetivo do procurador era evitar que a relatoria das ações da operação fossem para Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski ou Dias Toffoli. Em uma mensagem trocada em janeiro de 2017, Dallagnol escreveu para o líder do Mude, Fábio Alex Oliveira:

“De início, agradeci o apio do movimento etc. 1. Falei que não posso posicionar a FT [força-tarefa] publicamente, mesmo em off, quanto a Ministros que seriam bons, pq podemos queimar em vez de ajudar”, contou Dallagnol. “Falei os 4 que seriam ruins, “que Toff, Lewa, Gilm e Marco Aur”, escreveu para Oliveira no dia seguinte à morte de Zavascki.

O Intercept mostra que, dias depois, em 24 de janeiro, o movimento pediu para Dallagnol uma “orientação sobre quem seria ideal pra assumir a posição do Teori”. “Tem muita gente perguntando o q fazer. O VPR [Vem Pra Rua] é um desses”, escreveu a co-fundadora Patricia Fehrmann. A resposta de Dallagnol foi: “Não podemos nos posicionar. Queimamos a pessoa rsrsrs”.

No dia 31 de janeiro de 2017, o procurador escreveu no grupo Filhos do Januário 1 que estava preocupado com a escolha do novo relator e sugeriu aos colegas da força-tarefa que dissessem em off para jornalistas que temiam “que Toff, Gilm ou Lew assumam”. Na troca de conversas, Dallagnol pediu ainda que usassem movimentos sociais para pressionar o Supremo Tribunal Federal para não definir o novo relator da Lava Jato por sorteio.

Finalmente, no dia 1º de fevereiro de 2017, o ministro Edson Fachin decidiu migrar para a 2ª turma e, por sorteio, foi escolhido para assumir os casos deixados por Teori. Uma troca de mensagens em chat privado entre Dallagnol e a procuradora Anna Carolina Resende mostra que a preferência da força-tarefa era que o ministro Luís Roberto Barroso tivesse sido escolhido, ele ainda conta que chegou a fazer o pedido diretamente ao magistrado.

1 de fevereiro de 2017 – Chat privado

Anna Carolina Resende – 12:11:18 – Deltan, fale com Barroso
Resende – 12:11:37 – insista para ele ir pra 2 Turma
Deltan Dallagnol – 12:18:07 – Há infos novas? E Fachin?
Dallagnol – 12:18:11 – Ele seria ótimo
Resende – 13:54:21 – Vai ser definido hj
Resende – 13:54:33 – Fachin não eh ruim mas não eh bom como Barroso
Resende – 13:54:44 – Mas nunca se sabe quem será sorteado
Resende – 13:56:40 – Barroso tinha q entrar nessa briga. Ele não tem rabo preso. Eh uma oportunidade dele mostrar o trabalho dele. Os outros ministros devem ter ciúmes dele, pq sabem que ele brilharia na LJ. Ele tem que ser forte e corajoso. Ele pode pedir p ir p 2 turma e ninguém pode impedi-lo. Vão achar ruim mas paciência, ele teria feito a parte dele
Dallagnol – 14:11:37 – Ele ficou alijado de todo processo. Ninguém consultou ele em nenhum momento. Há poréns na visão dele em ir, mas insisti com um pedido final. É possível, mas improvável.
Dallagnol – 14:30:16 – Mas sua mensagem foi ótima, Caroll
Dallagnol – 14:30:24 – Por favor não comente isso com ninguém
Dallagnol – 14:30:25 – Please
Dallagnol – 14:30:29 – Ele pediu reserva
Resende – 14:30:31 – clarooo, nem se preocupe
Resende – 14:30:45 – só lhe pedi para falar novamente com ele porque isso está sendo decidido hoje
Dallagnol – 14:30:52 – Foi o tom do meu último peido
Resende – 14:31:18 – vamos rezar para Deus fazer o melhor
Resende – 14:32:22 – mas nosso mentalização aqui é toda em Barroso

No mesmo dia, Dallagnol enviou uma mensagem para Patrícia Fehrmann dizendo que “seria bom se os movimentos replicassem o post do Luis Flavio Gomes”, jurista e atual deputado federal pelo PSB de São Paulo que havia escrito um texto atacando Mendes, Lewandowski e Toffoli como nomes suspeitos para assumir a relatoria da Lava Jato no Supremo.

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Ainda segundo o Intercept, Dallagnol instruiu a co-fundadora do Mude a procurar o Vem Pra Rua para reproduzir a mensagem. “Só não me citem como origem, para evitar melindrar STF”, completou.

No dia 2 de fevereiro, um dia após a confirmação de que Fachin assumiria os casos da Lava Jato no Supremo, Dallagnol escreveu para o líder do Mude, Fábio Alex Oliveira: “Fachin foi coisa de Deus.”

Tentou articular na escolha do novo procurador-geral da República

Dallagnol também tentou influenciar na escolha do Procurador-Geral da República. No dia em que a ANPR divulgou o resultado da eleição para a lista tríplice, quando os mais votados foram, por ordem, Nicolao Dino, Raquel Dodge e Mario Bonsaglia, o procurador da Lava Jato escreveu ao primeiro:

“Nicolaaaaaaooooo PARABÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉNSS. Não conta pra ng, mas vou pedir pros movimentos sociais fazerem campanha pra ser nomeado o primeiro da lista”.

Em seguida Dallagnol perguntou se Dino tinha “alguma reserva” à sua estratégia. A resposta do procurador, que é irmão do governador do Maranhão Flávio Dino, foi apenas um “Ok”.

Dallagnol prosseguiu com seu plano entrando em contato com os colaboradores do Mude: “Caros, Nicolao ganhou. Ele é a voz anticorrupção. é o primeiro da lista tríplice”. “Sem mencionar minha sugestão, Vcs conseguiriam articular uma campanha para ser nomeado o primeiro da lista? Ele é o top. Essa campanha não tem legitimidade se sari da gente. Apenas se sair da sociedade”. O diálogo prosseguiu na madrugada:

28 de junho de 2017 – Grupo #Mude Delta,Fáb,Pat,Had,Mar

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Deltan Dallagnol – 00:33:20 – Vcs conseguem articular com VPR e outros uma campanha pra escolha do mais votado, com hashtag e tal?
Dallagnol – 01:22:17 – Há um risco de Temer querer nomear amanhã mesmo, para evitar essa pressão… por isso o qto antes, melhor
Patricia Fehrmann – 11:30:25 – Deltan. Estamos tentando articular. As pessoas tem duvidas e ou estao distantes desse assunto. Mas estamos fomentando.
Dallagnol – 12:26:21 – Se quiser me mandar as dúvidas posso tentar responder
Fehrmann – 12:58:35 – Vc tem alguma materia na mão que ele defenda a lava jato ou q tenha um pouco do perfil dele?

A reportagem do Intercept destaca que, no dia seguinte, o Mude conclamou os seguidores do Facebook para pressionarem Temer a escolher o primeiro da lista tríplice, mas a estratégia de Dallagnol não saiu vitoriosa. Temer escolheu a segunda colocada na eleição, Raquel Dodge.

“Temer foi esperto. Não nos tempo para nos articularmos pelo primeiro. Eu já estava falando com os movimentos em favro de uma campanha (não comente isso)”, lamentou Dallagnol para a colega de Brasília Anna Carolina Resende.

*Clique aqui para ler a reportagem do Intercept na íntegra.

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13 comentários

  1. Está sendo revelada toda a rede incrustada no sistema judiciário, responsável pela destruição do Estado Democrático de Direito e de nossa Soberania.
    Mais uma vez aparecem os ministros Luiz Roberto Barroso e Edson Fachin. E pela primeira vez o procurador Nicolau Dino. Jornalistas (de verdade) deveriam tentar entrevistar essas autoridades, apenas para ouvir as desculpas esfarrapadas que elas pretendem expressar.

  2. “STF Mude – Chega de Corrupção”, Moro e DD na cadeia e Lula livre da prisão. Estes dois camaradas com sua turma dos crimes contra a nação, fizeram um caminho de atraso, prejuízo e inversão que não tem mais volta. A operação que quebrou e trouxe o maior prejuízo de toda a história da América Latina, separou pessoas e criou ambiente degradado no Brasil ficou totalmente comprometida. Vai ser difícil segurar o enxame de questionamentos contra a famigerada república do crime que recairão para os tribunais.

  3. Num país com cultura democrática um escândalo dantes provocaria a queda de todos, mas isto é Brasil, onde o caciquismo é uma instituição, será que alguém se safa?
    Resposta difícil Zavasqui parece que não alinhava e puseram ele fora de jogo, será que se irá saber algo sobre o acidente?

  4. Pelo envolvimento criminoso, bem que o dallanzóis devia ser adotado como 04 do bozo, são farinhas aventadas do mesmo saco do villamaus.

  5. E qual desses grupos não é de fachada????

    Espanta-me nenhum jornalista investigativo esclarecer como esses grupos nasceram, a origem dos recursos, quem eram seus membros….

    De repente, pipocaram inúmeros movimentos, extremamente agressivos, pautando a vida do país…….

    Onde estão os Black bloks? Acredito que nesse país damos muito mole, ao ponto de desconhecidos se arrogarem a donos da verdade e da virtude….

  6. “Fachin foi coisa de Deus”…
    cairia muito bem uma ficção jurídica a respeito do fato da morte de alguém tão importante não despertar surpresas. A lógica bem que poderia ser reconhecida na demência ou numa rara e perigosíssima insensibilidade humana…………………………….

    um perigo não frequentar as igrejas de certas pessoas

    • É um mal que acomete a esta nação onde os graduados não param de produzir material fecal, para continuar a abastecer a mídia de esgoto.
      Como é que neste país de gente endoidada e endoidando e onde vem só aumentando o enfezamento, o presidente indecente quer suprimir as idas ao vaso sanitário? Não sabe ele, como seu próprio exemplo que a contenção de fezes no corpo, leva à prisão-de-ventre e a colite? Solta presidente, solta.

  7. Pela leitura dos diálogos, fica a seguinte dúvida: Dallagnol seria um espécie messiânica, neofascista que acredita que combate a corrupção ou ele é um manipulador?

    • É bem difícil que Dallagnol acredite que realmente está combatendo a corrupção quando, por exemplo, poupa FHC e Onyx. Dallagnol está fazendo política partidária, usando de seu cargo público para isso e só se fosse muito lesado não perceberia.

      Se fosse só isso já seria execrável e motivo para afastamento do cargo que ocupa e não apenas sem remuneração mas com a obrigação de devolver, usando seu patrimônio pessoal, tudo o que desviou.

      Mas o pior, na minha opinião, é orientar recurso público para favorecimento de elites, de grande grupos privados internacionais e até para atendimento de interesses estrangeiros opostos aos do nosso país, compartilhando essa direção com o ministro Sérgio Moro. Abrir as portas do estado, da forma como ele faz, à iniciativa privada para que essa tenha acesso aos cofres e poderes públicos, usando a velha mentira que é “deixa que nós, empresas privadas, cuidamos de distribuir prosperidade”… isso é a mais “completa tradução” do que é corrupção. Que, nesse caso, demanda tirar Dallagnol, Moro e todos os que se beneficiam dessa corrupção do convívio social. Cadeia neles e, terminada a pena, que nunca mais se lhes atribua nenhuma responsabilidade pelo que é público.

  8. Bem, concordo que em um país sério as coisas não chegariam até onde chegaram no Brasil. A pergunta que surge naturalmente é: em qual país? Não se desconhece que a extrema direita avança seus tentáculos na direção de inúmeros países, incluídos europeus. Sabe-se também que próprio governo Trump, com seus destemperos, avança sobre a democracia americana.

  9. + comentários

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