A Polícia Federal concluiu, em documento enviado ao Supremo Tribunal Federal, que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, concedia tratamento “privilegiado” e “diferenciado” ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), custeando viagens internacionais de luxo e realizando transferências regulares de dinheiro em troca de atuação parlamentar favorável aos seus interesses.
O relatório, cujo sigilo foi levantado nesta terça-feira (16), embasou decisões do ministro André Mendonça, do STF, no âmbito do inquérito do caso Master.
Segundo os investigadores, o vínculo entre Vorcaro e Ciro Nogueira ia além da proximidade pessoal e foi descrito como uma “relação funcional e instrumental” voltada ao benefício mútuo. De um lado, o senador atuava no Legislativo para defender os interesses do banqueiro. De outro, Vorcaro retribuía com vantagens financeiras que incluíam:
- Pagamentos mensais classificados pela PF como uma espécie de “mesada”, que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil;
- Aquisição de participação societária em favor do senador;
- Custeio de viagens internacionais, com uso de jatos particulares, hospedagens em hotéis de alto padrão e despesas com restaurantes sofisticados.
A PF aponta ainda que o esquema contava com empresas interpostas e terceiros para dificultar o rastreamento dos recursos, o que, segundo os investigadores, indica a possível prática de lavagem de dinheiro. O beneficiário final das estruturas identificadas seria o próprio senador.
“Emenda Master”
Um dos episódios centrais do inquérito é a apresentação, por Ciro Nogueira, da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, apelidada no mercado financeiro de “emenda Master”. O texto propunha alterações no funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege correntistas e investidores em caso de quebra de instituições financeiras.
De acordo com a PF, o conteúdo da emenda foi elaborado integralmente pela assessoria do próprio Banco Master e entregue diretamente ao senador, inclusive com orientações para que o envelope fosse levado ao seu endereço residencial. A proposta, segundo os investigadores, teria ampliado significativamente os negócios da instituição ao mesmo tempo em que transferia riscos relevantes ao FGC — ou seja, ao sistema financeiro como um todo.
Viagens
As investigações detalham o custeio sistemático, nos anos de 2024 e 2025, de ao menos três viagens internacionais do senador em jatos particulares pertencentes a Vorcaro. Os destinos incluíram Paris, Nova York, Portugal e Courchevel, estação de esqui nos Alpes franceses.
Entre as despesas pagas pelo ex-banqueiro estão reservas em hotéis como o Park Hyatt New York, jantares em restaurantes sofisticados, transporte nos destinos e até a compra de roupas de esqui para Ciro Nogueira e sua companheira. A PF estima que o total gasto nessas “mordomias”, mesmo em cálculo conservador, supera R$ 500 mil, e que os valores guardam relação direta com a atuação parlamentar do senador em benefício de Vorcaro.
Defesa
Quando foi alvo de operação da PF em maio, a defesa de Ciro Nogueira afirmou que o senador está comprometido em colaborar com a Justiça para “esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas”. Os advogados repudiaram qualquer sugestão de ilicitude em sua conduta parlamentar e questionaram a proporcionalidade das medidas investigativas adotadas. Procurado pela imprensa, o senador não se posicionou. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
Daniel Vorcaro segue preso em Brasília, onde tenta firmar acordo de delação premiada com as autoridades, proposta que já foi rejeitada tanto pela Polícia Federal quanto pelo Ministério Público.
*Com informações do g1.
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